O livro “Lélia Gonzalez: um retrato”, de Sueli Carneiro (2024), convida-nos a um mergulho profundo na expressividade das emoções dessa pensadora negra. Para mim, a leitura foi especialmente tocante, sobretudo na carta endereçada a seu irmão Francisco, onde pude perceber uma subjetividade genuinamente manifestada em palavras, como quem não tinha vergonha de falar das suas emoções. Essa dimensão é essencial para compreendermos a potência de Lélia como uma intérprete do pensamento brasileiro e a forma como a escrita foi um caminho de afirmação para mulheres negras.
Dividir o que se sente nem sempre é possível para as mulheres negras, já que nas suas relações sociais o lugar do cuidado com o outro assume uma centralidade no campo da ordem subjetiva. Lélia aprendeu a elaborar suas questões psíquicas por meio da escrita, chegando a afirmar: “… expresso-me melhor escrevendo”. Uma antecipação ao que hoje conhecemos como “Escrevivência” — conceito cunhado pela nossa matriarca Conceição Evaristo.
Há um elo profundo nessas similaridades, justamente porque as mulheres negras tomam para si o pertencimento da escrita e produzem suas próprias linguagens de mundo e de emoções.
Ora, como é possível falar do que não se conhece?
O que Lélia, Evaristo e Sueli nos ensinam, mulheres negras, é que o reconhecimento das nossas emoções favorece uma autopercepção capaz de elaborar linguagens expressivas de subjetividades, muitas delas escondidas pela falta de oportunidade de escuta e acolhimento.
Afirmar que Lélia Gonzalez é um espelho d’água assemelha-se aos aforismos africanos sobre Oxum. O reflexo de Lélia deixado para nós é um convite ao mergulho de dentro, de percorrer a imensidão que é nosso campo subjetivo e lá se deparar com sua própria face refletida nas águas.
Falar de nós é também falar um pouco delas, das que vieram primeiro e mergulharam nas lutas políticas e simbólicas de afirmação da nossa existência. Afinal, reconhecer a vida manifesta o projeto individual mais audacioso que uma pessoa negra pode ter. Uma afronta às políticas de morte estruturadas pela Necropolítica no âmbito ordinário do viver.
Perceber nos textos e depoimentos de Lélia uma subjetividade sentida pelo critério do reconhecimento de suas manifestações nos traz, também, a possibilidade de fazer o mesmo sem acionar a moralidade do estado de vulnerabilidade que o sujeito fica ao nomear seus mais ocultos sentimentos.
Escrever sobre suas emoções e torná-las públicas, de alguma forma, fez de Lélia uma mulher autêntica no seu sentir e nas suas genuínas afetações diante da precariedade da vida.
Lélia expressou em palavras tudo aquilo que transbordava de dentro do seu ser, sem perder a fidelidade intuitiva de suas escutas internas sobre a maneira de agir em sociedade. Talvez suas germinações criativas pudessem ter sido a doce manifestação da energia de Oxum na sua vida. No empenho guerreiro de insistir nos fluxos da mudança e na aparente calmaria de suas águas, escondendo o agito de sua força política nas guerras cotidianas por uma existência marcada de sentidos e sentimentos.
O livro “Lélia Gonzalez: um retrato”, da querida Sueli Carneiro, nos convida a mergulhar na profundidade que foi a vida e a obra de Lélia. Muito mais que uma referência intelectual, Lélia molhou os nossos caminhos para o florescimento da posse da palavra, da produção de linguagens do não-dito.
A cada mergulho interno, vejo o quanto de Lélia há em mim nesse retrato d’água que se tornou uma miragem possível para falar das nossas emoções e das nossas lutas [coletivas e internas].
Me banho nas águas da Lélia Gonzalez e não volto do mesmo jeito. Feito um rio que muda a cada fluxo de segundo de sua própria confluência.
Referência bibliográfica:
CARNEIRO, Sueli. Lélia Gonzalez: um retrato. 1ª edição – Rio de Janeiro: Zahar, 2024.
Revisão e arte: Larissa Novaes
