Em tempos de fim do mundo e psicose eleitoral, o convite é olhar para a nossa trajetória com orgulho, afinal, foi resistindo coletivamente que sobrevivemos até aqui.
Já virou meme na internet essa história de “psicose política”, mas a verdade é que nestas três semanas do segundo turno eleitoral o Brasil tem experimentado um senso de urgência coletiva que é bastante familiar para mulheres negras. Arrisco dizer que nossa urgência de mobilização é ancestral; afinal, sempre estivemos na linha de frente pela sobrevivência das nossas redes e aprendemos que é coletivamente que se resiste, muitas vezes. É por isso que saímos em marcha, é por isso que nos organizamos em vários coletivos.
Uma das melhores maneiras de defender a nossa coletividade é o voto, um direito recente para as mulheres e ainda inacessível para muitas de nós. Nestas eleições, algo alarmante aconteceu: 33,4 milhões de pessoas não compareceram às urnas, mesmo com o voto sendo obrigatório para pessoas de 18 a 69 anos. A Desapocaliptica fez uma estimativa de que pelo menos 16 milhões dessas pessoas sejam mulheres; isso seria quase um estado do Rio de Janeiro inteiro, só de mulheres, não indo às urnas nesta eleição. Segundo essas pesquisas, muitas delas podem ter deixado de votar porque não teve rede de apoio com os filhos, porque são cuidadoras principais de pessoas idosas e não podem se ausentar ou simplesmente porque ficaram com dúvidas sobre o processo e na hora H não foram exercer o seu direito.
Ao mesmo tempo, como reação ao resultado assustador no primeiro turno, vimos mais e mais pessoas se mobilizando nas redes sociais para combater o extremismo. E nessa hora, todas as manifestações se misturam em torno de um objetivo comum. Mas, assim como em 2018, insisto: é urgente que possamos ir além do discurso nas redes sociais, que embora sejam fundamentais, ainda são insuficientes. A mobilização precisa gerar impacto na vida das pessoas, especialmente das 16 milhões de brasileiras que não puderam exercer o seu direito no primeiro turno.
A campanha #ElasVotamJuntas nasceu pra ajudar a gente a finalmente viver o que a gente prega na internet, fora dela. A ideia do movimento é simples: uma mulher entra pra comunidade de líderes e ali ela recebe suporte para viabilizar a ação do seu próprio grupo (ela e pelo menos mais cinco mulheres) e juntas elas contribuem para que outras mulheres possam votar no dia 25 de outubro. Quanto mais mulheres recebem apoio para serem lideranças em seus territórios, mais de nós vão alcançar o direito de votar e escolher um país democrático que acolha e ouça as demandas de mulheres negras, pessoas LGBTQIA+, pessoas com deficiência, mães solo e tantas outras minorias sociais (mas maiorias históricas) do país. Seja uma líder #ElasVotamJuntas clicando aqui.
Em tempos de “psicose política”, é muito bom perceber que é verdade mesmo que os nossos passos vêm de longe. Respondo ao convite do Blogueiras Negras com orgulho de uma trajetória bonita, continuando a conversa que tivemos em 2018, quando trouxe para este espaço pensamentos sobre Como é difícil viver o que se prega na internet, só que fora dela. Naquele momento, eu trouxe ao debate a necessidade urgente de levarmos para fora das redes o apoio concreto às minorias, fazendo com que o suporte fosse além dos likes e comentários online. Hoje tenho o privilégio de revisitar a Lívia oito anos mais jovem e encontrar uma escrita da qual me orgulhe. Em tempos de ataques aos direitos das mulheres negras, da população LGBTQIA+ e de outros grupos minorizados, este foi o tom da minha marcha ao longo deste ano: me orgulhando das que vieram antes, inclusive eu mesma, e construindo coisas legais pras que vierem depois.
E assim como há oito anos fiz questão de trazer até o Blogueiras Negras, espaço pelo qual tenho tanto carinho e respeito, a provocação de que “Não devemos esquecer que a internet é uma ferramenta, não um fim”, convido hoje a todas nós a irmos além e usar a internet como a ferramenta que vai nos conectar para (finalmente) cancelar esse cenário de apocalipse democrático que estamos, mais uma vez, avistando logo ali na esquina.
Edição: Larissa Novaes
Arte: Helida Costa
