O que duas eleitoras de gerações diferentes poderiam escrever juntas sobre o evento mais importante do ano? Essa foi a primeira inquietação que nos atravessou ao buscarmos um tema sobre Eleições. 14 anos de diferença nos separam enquanto representantes da Geração Z e Millennials. No entanto, o desejo de viver num Brasil melhor para meninas e mulheres é, sem dúvidas, nosso principal elo. O mundo não é o maracatu cantado por Nação Zumbi. Mas nas nossas costas, são tantas as dificuldades, que ele parece pesar, facilmente, muito mais que uma tonelada. Estudar, trabalhar com igualdade salarial, ser julgada pela aparência, andar na rua com medo. Até a carga tributária suportada por nós mulheres é maior que a dos homens. Tudo isso precisa ser ainda mais lembrado em ano eleitoral e se você seguir nos lendo, vai entender por quê.
Para continuarmos essa conversa, é preciso lembrar também que a participação política das mulheres não foi um presente dado por ninguém. Foi, sim, uma conquista fruto de luta e perseverança. Julia Santiago que o diga, ela foi a primeira mulher eleita vereadora no Recife, em 1947. Cada voto feminino carrega a memória das mulheres que desafiaram normas sociais, reivindicaram cidadania e abriram caminhos em espaços dos quais estiveram ausentes por muito tempo. Para jovens mulheres negras, indígenas e periféricas, esse movimento possui um significado ainda mais profundo. Durante décadas, nossas vozes foram marginalizadas e ainda somos minoria nas cadeiras do congresso nacional. Votar, nesse contexto, é também um ato de continuidade histórica e de reivindicação de outros cenários. Em pleno 2026, jamais toleraremos a violência de termos o nosso direito ao voto questionado.
Neste sentido, as urgências do nosso tempo não serão solucionadas sem políticas públicas de qualidade. Elas precisam ser interseccionais, capazes de enxergar as mulheres em seus diferentes contextos, e contar com orçamento garantido. E para isso é preciso representantes comprometidos(as) com uma visão de sociedade onde as pessoas mais vulneráveis não carreguem nas costas quem está em posições confortáveis, rompendo assim com uma velha história sangrenta conhecida desde 1500. O cotidiano das mulheres brasileiras ainda é marcado por desafios que exigem respostas urgentes. As violências de gênero continuam limitando vidas e oportunidades, especialmente nas periferias. Nesse cenário, o voto torna-se uma ferramenta de reação e resistência. É por meio dele que nos pronunciamos sobre o Brasil que a gente quer viver.
O voto é uma das ferramentas que podem transformar expectativas em ação política. Acreditamos que a democracia se fortalecerá quando nós mulheres compreendermos todas a dimensão do nosso papel e responsabilidade. Por isso, participar das eleições significa muito mais do que escolher representantes: significa ocupar um espaço que durante muito tempo nos foi negado e afirmar que nossas vidas, nossas demandas e nossos projetos para o país importam.
Neste segundo turno, é preciso levar às urnas a nossa história, o nosso presente e os nossos sonhos. No próximo domingo dia 25 de outubro, o Brasil que você estará ajudando a construir, amplia oportunidades ou reforça desigualdades? Segundo Carolina Maria de Jesus, “o mundo modifica para os que reagem”. Que essa reação venha no coletivo, com estratégia e protagonismo feminino.
