Representatividade e somente isso?

Acredito na importância da representatividade e gosto muito deste slogan: “Representatividade Importa”. Gosto de Beyoncé, gosto de Lupita N’yongo, Azealia Banks e gosto da ideia de ter uma mulher como presidente do país. Gosto de mulheres em posição de destaque, ainda mais sendo esta negra.

Mas, nossos gostos muitas vezes limitam um pouco nossas visões, não é por estar cantando e atuando e fazendo milhões vibrarem pelo seu talento que aquela moça estará trazendo nossas pautas de mulheres negras oprimidas no dia- a-dia. Por mais que doa, muitas destas moças até se perdem um pouco nas luzes ofuscantes da fama. Cooptadas para a indústria artística, impositora de padrões e para sentirem-se aceitas, alisam seus cabelos, disfarçam um pouco a negritude, sensualizam pras revistas e para os flashs, mas se esquecem (ou não querem) reafirmar sua luta diária. Digo luta, porque o fato de você pertencer aos altos escalões sociais, no olimpo da fama não te exime dos insultos racistas, misóginos etc. .

Ter uma mulher negra na Globo é bom? Pode ser, o mais correto na minha concepção, é que os meios de comunicação revolucionassem completamente, do seu conteúdo às pessoas que atuam, dirigem, roteirizam etc. Mas, se acreditamos que seja positivo para nossas filhas ver uma mocinha negra na novela das 8, ótimo!, mas que esse “ver” seja reflexivo. Não podemos nos contentar somente com as moças menos retintas e com os cabelos alterados quimicamente.

Não estou atacando minhas irmãs, por mais que reproduzam os moldes burgueses, não quero de forma alguma depreciá-las. Só queria que nos atentássemos que somente a representatividade por si só não traz todas as pautas que necessitamos, não traz uma mudança de fato. Podemos gostar delas, mas vamos também nos lembrar daquelas que são “invisíveis”, aquelas que não são magras, não possuem esse corpo padrão, não são meio “clarinhas”, aceitáveis , que não possuem jóias e nem os  talentos que a burguesia se apraz.

Saindo um pouco do âmbito artístico, nos deparamos agora com mulheres na política. É uma conquista pras mulheres? Pode ser… mas pra qual mulher? Talvez a branca, de classe média baixa? É… talvez. Não quero ficar discutindo eternamente sobre as mancadas dos partidos brasileiros que se dizem voltados as causas populares, quero aqui deixar apenas meu descontentamento com o descaso com a questão que mais nos toca: Mulher Preta.  Êxtase nas eleições por parte de diversos segmentos militantes, mas vemos que causas cruciais não são pautadas quando vemos que a Polícia ainda está  no morro, nas periferias matando mães de família preta… Vi campanhas interessantes de partidos, diversas propostas para a causa negra que ainda não vi se concretizarem. E a questão do aborto, nossa saúde, nossa segurança e nós? E nós? Estamos sendo representadas de fato?

É claro que muitas moças fazem valer suas posições, do alto dá pra fazer grandes coisas sim, mas e nossas mães,  nossas irmãs nossas colegas de classe pretas? Será que temos as admirado como admiramos aquela “modelo de ébano”? Será que veneramos suas pequenas militâncias? Será que a reconhecemos também como o símbolo de luta que queremos nos espelhar?

Longe de mim querer falar que não podemos superar nossas pobrezas, mas isso não deveria ser pensado de uma forma mais coletiva, inclusiva, etc? Lembremos que ser aceito pela sociedade não deve ser pelo que fazemos, mas sim pelo que somos, devemos antes de tudo ser respeitadas e aceitas por sermos mulheres pretas e não só por cantar bem, atuar bem ou presidir. Por um mundo onde não precisemos provar nada pra ninguém para sermos ouvidas.

 

Imagem destacada: Thalma de Freitas, site E! Online Brasil.

3 comments
  1. Querida, parabéns por esta reflexão, vai ao encontro de muito que tenho pensado ultimamente.
    Infelizmente me peguei diante da tevê quando num debate sobre assédios nas ruas, e havia uma mulher expondo a questão desde uma perspectiva feminista. Uma das convidadas era uma atriz negra, que ponderou os comentários numa postura que, no meu entender, não avançou em nada na discussão do problema (o famoso “nem sempre”, “nem todo homem”). Na hora pensei: “puxa…” e bateu uma tristezinha de ela não ter se posicionado de maneira mais combativa em relação a essa questão. Não somos perfeitas e, vale lembrar, estamos sempre em construção, o que significa que esta atriz em específico não está “desgraçada” por isso.
    Enfim, a questão é toda muito complexa, e não teria espaço para eu dizer tudo o que penso sobre, mas tbm fico me perguntando até que ponto esses espaços de poder vão aceitar incorporar um discurso crítico, entende? A música pop, os meios de massa… é ótimo que Beyoncé, como mulher negra, se levante para defender o feminismo, mas até que ponto a sua crítica pode ser realmente subversiva desta ordem capitalista/racista/patriarcal? Tenho dúvidas… e achei ótimo seu texto ter me permitido expor um pouquinho delas! Parabéns! Um beijo!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

You May Also Like
Leia mais

Ah! Branco, dá um tempo! Carta aberta ao senhor Miguel Falabella.

Repudiamos suas palavras porque fomos estupradas nas senzalas e continuamos a ser na dramaturgia feita por brancos sobre nós através de imagens estereotipadas em seriados, novelas e minisséries. Esse é um dos mecanismos que a aliança entre o racismo usa para se perpetuar: hipersexualizando a mulher negra que se torna desprezível para outros papéis sociais. Você fala da mulata quente, gostosa, fogosa. Somos muito mais que isso. Precisamos ser mostradas como as mulheres do dia-a-dia, que trabalham, dançam, fazem festa e querem sexo sim, mas que não são apenas isso.