Estamos vivendo o fim do mundo? Ou o mundo em que vivemos (e conhecemos) está ruindo, desmoronando em nossa frente? A pandemia do coronavírus, a COVID-19, expõe as fragilidades do neoliberalismo e evidencia as desigualdades de gênero, raça e classe em todo o planeta e, em especial, no Brasil. Entretanto, o objetivo do presente ensaio não é analisar as relações entre o COVID-19, globalização e capitalismo, mas refletir brevemente sobre a nossa forma de estar no mundo, próprio das sociedades capitalistas, que coloca-se como a única possibilidade de existência na terra.
Em Ideias para adiar o fim do Mundo, o ambientalista Ailton Krenak nos apresenta três aspectos da resistência indígena – brasileira – na sociedade moderna: a negação da igualdade entre os sujeitos e do reconhecimento do humano com ser superior aos demais (animais, rios, montanhas, entre outros) e o respeito à diversidade.
Em 22 de abril de 1500, Pedro Álvares Cabral e sua tripulação ancoraram na nova terra. Ali, além da bela fauna e flora, avistaram os povos que naquela região viviam. Na história “oficial”, a data é reconhecida como o dia do “Descobrimento do Brasil”, assim como os povos originários da nova terra tornaram-se os índios. Embora existissem diversas etnias com culturas e línguas diferentes, ficaram todos os grupos étnicos englobados numa única categoria: os índios. Pelo olhar do Outro, os povos originários foram “construídos” como selvagens. No primeiro momento, as populações indígenas deveriam ser catequizadas. Com o iluminismo, os índios eram chamados à civilização. Sendo assim, “a ideia de que os brancos europeus podiam sair colonizando o resto do mundo estava sustentada na premissa de que havia uma humanidade esclarecida que precisava ir ao encontro da humanidade obscurecida, trazendo-a para essa luz incrível” (KRENAK, 2019, P. 11), além de explorar as riquezas naturais da nova terra e transformá-las em bens de consumo.
Nesse sentido, com o século das luzes, segundo Ortiz (2015), surge o humanismo centralizado na categoria abstrata do homem, sublinhada na racionalidade humana e na dicotomia entre a natureza e a razão. Nas palavras do autor (2015, p. 14), “É preciso compreender esse momento inaugural, a faísca que separa o ser humano da animalidade quando sua universalidade se exprime de maneira inquestionável”. Assim, a ideia de humanidade torna-se universal, apesar das diferenças históricas, sociais e culturais entre os tais humanos.
Entretanto, Ortiz enfatiza que os pensadores das luzes tinham interesse pela diversidade dos povos, sendo leitores dos relatos de viagens escritos pelos exploradores, que traziam informações (algumas distorcidas) sobre “Outros humanos” das novas terras, como os povos dos continentes africano e americano. Embora os iluministas reconhecessem as diferenças de raças, crenças religiosas e culturais, os diversos povos faziam parte de um único gênero, o humano.
No século XXI, Krenak explica que vários pensadores de diferentes cosmovisões começaram a refletir criticamente sobre a ideia europeia de humanidade. “Somos mesmo uma humanidade?” (KRENAK, 2019, p. 12). Povos com diferentes formas de estar no mundo estão realmente incluídos na categoria universal de humano? Se ser humano é separar-se da natureza, podemos incluir as populações indígenas ou quilombolas brasileiros nessa categoria universal, por exemplo?
Compreendemos que a ideia iluminista de humanidade está centralizada na racionalidade humana e na dicotomia entre a natureza e a razão. Racionalidade instrumentalizada para a lógica da reprodução do capital (ADORNO, HORKHEIMER, 1985). Com a industrialização no século XX no Brasil, acentua-se ainda mais no país a exploração dos nossos “recursos” naturais, ampliando a luta e a resistência das populações indígenas e quilombolas pelo seu território contra os fazendeiros. Além da defesa à terra, eles precisam resistir para manter sua forma de estar no mundo, interligada e interagindo com a natureza e a vida coletiva, que está dissonância o pensamento humanista (KRENAK, 2019, KOPENAWA, ALBERT, 2015).
Nesse sentido, todas as formas de estar no mundo que não estão integradas ao mundo das mercadorias são excluídos, assim como colocam em risco a sua existência, como as dos povos indígenas ou dos quilombolas, os subumanos, que estão conectados aos outros seres que a ideia de humanidade excluiu, como os rios, as montanhas, os animais. “Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial” (idem, p. 49). Para as populações indígenas brasileiras ou alguns povos africanos, existir separado da natureza. Somos parte da natureza.
Já outros os “humanos” deixaram suas vidas nas zonas rurais ou florestas para viver nas periferias e nas favelas nos centros urbanos, transformando-se em mão de obra (barata) com a única finalidade de manter a engrenagem do “mercado” funcionando. No capitalismo, tudo é mercadoria (KRENAK, 2019, KOPENAWA, ALBERT, 2015).
Em Nova Iorque (EUA), para pedir apoio dos estadunidenses em relação às invasões e os saqueamentos dos garimpeiros às florestas do país, o xamã yanomami Davi Kopenawa refletiu sobre as desigualdades sociais de uma das maiores cidades do mundo, mas a observação poderia ser sobre os principais centros urbanos brasileiros, como São Paulo, Rio de Janeiro, onde a realidade dos quase humanos não é muito diferente.
Disse a mim mesmo que aqueles brancos deviam ter construído suas casas como penhascos depois de terem derrubado todas as suas florestas e começado a fabricar, pela primeira vez, mercadorias em enormes quantidades. Com certeza pensaram: “Somos muitos, sabemos guerrear com valentia e temos muitas máquinas! Vamos construir casas gigantes para enchê-las de mercadorias que todos os outros povos vão cobiçar!”. No entanto, se no centro dessa cidade as casas são altas e belas, nas bordas, estão todas ruínas. As pessoas que vivem nesses lugares afastados não têm comida e suas roupas são sujas e rasgadas. Quando andei entre eles, olharam para mim com olhos tristes. Isso me deu dó. Os brancos que criaram as mercadorias pensam que são espertos e valentes. Mas eles são avarentos e não cuidam dos que entre eles não têm nada. Como é que podem pensar que são grandes homens e se achar tão inteligentes? Não querem nem saber daquelas pessoas miseráveis, embora elas façam parte do seu povo. Rejeitam-nas e deixam que sofram sozinhas. Nem olham para elas e, de longe, apenas as chamam de pobres. Chegam até a tirar delas suas casas desmoronadas. Obrigam-nas a ficar fora, na chuva, com seus filhos. Devem pensar: “Moram na nossa terra, mas são outra gente. Que vivam longe de nós, catando sua comida no chão, como cães! Nós, enquanto isso, vamos aumentar nossos bens e nossas armas, sozinhos!”. Fiquei assustado de ver aquilo!
(KOPENAWA, ALBERT, 2015, p. 230).
A ideia de humanidade, enquanto “humanos”, sem respeitar as diversidades de culturas, raças e formas diferentes de estar no mundo do que a capitalista não é universal, sendo apenas uma “metáfora” para a dominação de um grupo específicos de humanos. Ribeiro (2009, p. 12) destaca que “Sob o guarda-chuva de um único atributo humano (cultura), as diferentes culturas precisam ser compreendidas em sua pluralidade e em sua capacidade de comunicar-se entre si. Cultura existe apenas através de culturas”.
Com a globalização, as diferenças étnicas e culturais são expostas, explicitando que, embora conectado, a “humanidade” é um conjunto diverso de nações, etnias, raças, culturas e cosmovisões (RIBEIRO, 2009, ORTIZ, 2015). Ribeiro ressalta que o tema da diversidade cultural tem sido politizado dentro dos países e globalmente. No entanto, é importante perceber que a diversidade cultural é um tema contemporâneo, entretanto, o problema persiste nas relações entre particularismo e universais. Sendo assim, a diversidade torna-se uma ideia universal, utilizada pelas agências de governança, Estados-nação, corporações, ou seja, é cooptado pelo capitalismo, com a intenção de reorganizar as demandas das tais minorias dentro da lógica da reprodução do capital (ORTIZ, 2015, RIBEIRO, 2009, KRENAK, 2019).
Por fim, Ribeiro (2015, p. 11) argumenta que as lutas pela diversidade cultural podem ser “uma ferramenta para a reprodução do capital ou para a contestação da hegemonia”
Para a humanidade emergir, outros seres devem ser sacrificados e deixar de existir. Quem sobreviveu, o existir se tornou resistir. Resiste a floresta, o cerrado, a mata atlântica, a onça, o jacaré, o rio, o mar, os quilombolas, os yanomamis, os guaranis, os pataxós, os jovens negros, as mulheres negras.
Os subumanos morrem, resistem e sobrevivem apegados à natureza enquanto garimpeiros e fazendeiros (com a anuência do Estado) avançam em seus territórios, para explorar os recursos naturais e transformá-los em bens de consumo. Já os quase-humanos, agoniados, sentem na pele as desigualdades nas grandes metrópoles ou nas pequenas cidades do país.
É essa normalidade que queremos de volta, após o fim da pandemia da Covid-19? Ou podemos aproveitar esse momento para refletir sobre outras formas de estar no mundo, que não o do pensamento de humanidade iluminista?
Referências bibliográficas
CUNHA, Manuela Carneiro da. Relações e dissensões entre saberes tradicionais e saber científico. In: Cultura com aspas e outros ensaios. São Paulo: Cosac Naify, 2009.
KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. Na cidade. In: A queda do céu: palavras de um xamã Yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
ORTIZ, Renato. A polissemia das palavras. In: Universalismo e diversidade: contradições da modernidade-mundo. São Paulo: Boitempo, 2015.
RIBEIRO, Gustavo Lins. Diversidade cultural como discurso global. In: Outras globalizações: cosmopolíticas pós-imperialistas. Rio de Janeiro: Editora UERJ, 2014.
