12 Anos de Escravidão, a história de um homem livre

Sim, essa é a história de um homem livre, e é ao mesmo tempo a história de todos nós, descendentes de tantos outros escravizados. Essa história, no entanto, não fala apenas da escravidão. Steve Mcqueen é um diretor interessado em desvendar os indivíduos, quer entender como funcionam, que força os impulsiona, que grilhões os aprisionam.

Aviso: esse texto fala sobre o filme „12 Anos de Escravidão“ (2013) de Steve Mcqueen e pode conter spoilers.

 „Eu queria fazer um filme sobre a escravidão, mas encontrei a história de um homem livre.“

 Foram estas as palavras escolhidas por Steve Mcqueen para descrever o seu mais novo filme Doze Anos de Escravidão. Eu já conhecia Steve Mcqueen, e sou sua fã desde seu filme de estréia „Fome“. Um homem negro, diretor de cinema, dono de uma sensibilidade incrível e tão respeitado internacionalmente, não é coisa que se vê todos os dias.

Doze Anos de Escravidão baseia-se no livro homônimo e autobiográfico de Solomon Northup, um homem negro e livre que vivia em Saratoga, no norte dos EUA, onde o fim da escravidão já tinha sido decretada. Solomon era violinista e era assim que sustentava sua família. Um dia ele recebe uma oferta de emprego de dois homens brancos, que o enganam, sequestram e o vendem ao sul do país, onde a escravidão ainda não tinha sido abolida.

Sim, essa é a história de um homem livre e é ao mesmo tempo a história de todos nós, descendentes de tantos outros escravizados. Essa história, no entanto, não fala apenas  da escravidão. Steve Mcqueen é um diretor interessado em desvendar os indivíduos; quer entender como funcionam, que força os impulsiona, que grilhões os aprisionam.

Ele não se interessa meramente em criar personagens empáticos, com quem possamos nos identificar; uma prova disso é seu filme anterior „Shame“, que retrata a vida de um viciado em sexo. Ao fim do filme não odiamos o protagonista, não sentimos empatia pelo mesmo; apenas um alívio imenso por não termos mais que suportar sua agonia. Talvez seja essa a maior marca dos filmes do diretor, fazer com que sintamos um grande alívio por sermos obrigados a „apenas“ entender seus personagens como seres humanos.

Humanidade e escravidão… Todos os personagens de 12 Anos de Escravidão são seres humanos… Mas por que tem-se mostrado tão difícil, para a indústria cinematográfica, mostrá-los dessa maneira? Porque teme-se tanto que esses seres humanos falem por si? Praticamente todos os retratos da escravidão, que conhecemos, vêm daqueles que a implementaram, que a infligiram e que só a muito custo e por razões de custo a abandonaram.

O medo dessa fala foi tão grande, que na Itália, durante a apresentação do filme, os cartazes, que em outros países mostram o ator Chiwetel Ejiofor (que interpreta Solomon Northup), foram subtraídos e somente os dos atores Brad Pitt e Michael Fassbender foram mostrados. A possibilidade dessa fala parece ter que ser calada, nem que seja através da omissão de cartazes.

Ver e entender como Solomon Northup torna-se passo a passo um escravo é entender o que tantos livros de história nos têm negado até hoje. A usurpação de nossa humanidade ao invés da imagem subserviente e congenita com que continuam nos retratando. Solomon mostra-nos esse processo, de luta pela manutenção da humanidade e por fim, sua impossibilidade.

Sua condição anterior de homem livre, contudo, possibilita-o perceber e documentar precisamente o sistema que sustentava a escravidão. Desvendar cada tipo de escravizado, cada estratégia desenvolvida e necessária para sobreviver o sistema. E é isso que o racismo faz de cada um de nós, homens e mulheres negras: sobreviventes. Porém, assim como o próprio Solomon afirma, nós também não queremos apenas sobreviver, nós queremos viver. Solomon aprende a duras penas o que é ser um escravo, aprende que nunca se deixa de chorar um filho perdido, que a consciência da injustiça, do próprio cativeiro e do sistema que o possibilita não faz de ninguém um homem livre, e que as mulheres negras são as que mais sofrem nessa hierarquia da dor.

Por muito tempo ele luta por sua humanidade, crê poder convencer seus senhores de sua diferença e vê-se de alguma maneira desligado dos demais escravos. Reluta em perceber que sua liberdade era apenas uma ilha num mar imenso de podridão… A morte de um escravo marca a passagem de Solomon Northup de homem livre a escravizado, e o seu canto de dor unindo-se ao dos demais durante o enterro, o conscientiza que, na hora da dor, somente os que a conhecem na carne o apoiarão. A partir desse momento ele aceita sua condição de escravizado. Um homem, porém, ainda que escravizado, jamais deixa de sonhar com a liberdade…

Lupita Nyong’o é a atriz revelação do filme e comove no papel de Patsey, a „favorita“ do senhor de escravos Edwin Epps, que é extremamente sadista e obcecado pela escrava. Impossível não comover-se com as cenas em que a escrava visita uma amiga e toda a humanidade e doçura que a escravidão tenta apagar desse ser humano, transparece.

Steve Mcqueen devolveu à cada escravo retratado, sua complexidade, sua humanidade e mostra a origem de cada trauma contra o qual, nós, descendentes de homens e mulheres escravizados, temos que lutar durante toda nossas vidas. Toda negação e confusão identitária são consequências das estratégias de sobrevivência num sistema, desumano,  injusto e letal.

A cena em que Solomon é espancado por seus traficantes é uma cena crucial, pois deixa claro, que perspectiva Mcqueen escolheu para essa narrativa: a perspectiva do oprimido. E é infelizmente incomum a filmes dessa categoria, que tem como fetiche mostrar a carne dilacerada da vítima. O ângulo mostrado é o de Solomon, o nosso olhar é o da vítima, a nossa dor é a dele.  E essa dor é ainda mais dolorida, se você vive ainda hoje na pele, a herança da escravidão.

Dentre os tantos sentimentos que Doze Anos de Escravidão despertou em mim, o que mais me incomodou e que me fez chorar a cada nova cena foi o „reconhecer“. Reconhecer a mim mesma, reconhecer minha mãe, minhas irmãs e tantos outros que cruzaram meu caminho. Foi reconhecer cenas cotidianas, de novelas, noticiários e que se repetem a cada novo carnaval… Eu esperava conhecer uma parte desconhecida da minha história, mas vi também retratado ali o meu dia-a-dia…

Sankofa é um  pássaro da mitologia Ashanti e significa „recordar o passado para aprender para o futuro“; significa não esquecer, para não cometer os mesmos erros. Mas minha pergunta é, como relembrar o que não podemos esquecer? E que se repete a cada novo dia, na vida de uma pessoa negra brasileira? Para a maioria da população preta, e na sua maioria pobre, o direito a sobrevivência ainda é a única coisa que lhes resta.

Que o filme de Steve Mcqueen seja o começo de uma série de relatos, que parte da perspectiva da vítima, para que se apague essa memória construída de servilismo negro e misericórdia branca à la „Sinhá Moça“ ou „A Cabana do Pai Tomás“. Obra, aliás, que retrata a vida de um escravo numa fazenda da mesma região, onde Solomon Northup viveu todas as atrocidades descritas no filme.

Somente quando a verdade do passado vem à tona podemos construir para o futuro. Nós mulheres e homens negros queremos que Sankofa pouse em nossos peitos, queremos que o presente se torne passado.

Que o filme de Steve Mcqueen seja uma oportunidade de reflexão não só para nós negros, mas também para mulheres e homens brancos.

A atriz Lupita Nyong"o em cena de "12 Years a Slave", um dos favoritos na corrida para o Oscar Divulgação/Fox Pictures
A atriz Lupita Nyong”o em cena de “12 Years a Slave”, um dos favoritos na corrida para o Oscar Divulgação/Fox Pictures

 LINQUES

Trailer do filme „12 anos de escravidão“, legendado.

Matéria sobre a troca de cartazes.

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