28 de abril: Greve Geral pelo futuro do povo negro

A atual conjuntura política do país tem sido marcada por grandes e duros ataques aos direitos dos que lutam pelo pão de cada dia. O Congresso Nacional, o Governo Federal e a elite brasileira lutam para aprovar medidas que retirem os direitos historicamente conquistados pelos movimentos sociais do país.

Enquanto alguns batalham para sobreviver, essa elite, que se criou e se fortaleceu às custas de trabalho escravo, luta para endurecer o chicote que açoita o primeiro grupo.

Terceirização e Reforma Trabalhista

O Presidente Michel Temer sancionou, no último dia 31, o projeto de lei que prevê a terceirização irrestrita da mão de obra. Isso significa que não apenas as atividades-meio, mas também as atividades-fim das empresas, poderão ser terceirizadas, diminuindo o número de postos de trabalho com carteira assinada.

Além do já sancionado PL da terceirização, tramita no Congresso Nacional a Reforma Trabalhista, que “joga no lixo” as conquistas da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e aumenta a flexibilidade de negociações entre empregadores e empregados em detrimento das previsões legais, ou seja, aqueles que estão acostumados à – literalmente – arrancar o couro dos trabalhadores poderão passar por cima das leis para retirar, um a um, os direitos trabalhistas.

As negras e os negros ocupam historicamente postos de trabalho bastante precários e com poucos direitos garantidos. Não é novidade, por exemplo, que as mulheres negras são maioria no trabalho doméstico remunerado. O último estudo realizado pelo DIEESE demonstrou que 61% das empregadas domésticas são mulheres negras.

No jogo de ataques aos trabalhadores, não há dúvidas de que a corda arrebentará do lado daqueles que vivem e trabalham com menos direitos garantidos, as negras e os negros.

Reforma da previdência

Também tramita no Congresso Nacional o projeto da Reforma da Previdência (PEC 287/16). Se aprovada, profundas mudanças no regime previdenciário brasileiro serão observadas e, uma das principais delas é a mudança da idade mínima para aposentadoria. De acordo com as últimas negociações entre Governo e parlamentares, os homens se aposentariam aos 65 anos e as mulheres aos 62 anos.

O que parece uma mudança pequena, já que as mulheres atualmente têm os 60 anos como idade mínima para se aposentarem, na verdade não é. A título de exemplo, os estudos do Mapa da Desigualdade 2016 demonstraram que na cidade de São Paulo, um morador do bairro de Pinheiros, que concentra apenas 7,3% de negros, tem expectativa de vida média de 79,67 anos, enquanto um morador de Cidade Tiradentes, que concentra 55,4% de negros, tem expectativa de vida de 53,85 anos, ou seja, 25 anos a menos.

A expectativa de vida mais baixa em bairros essencialmente negros está relacionada à quase inexistência de direitos básicos nas regiões periféricas, mas também à crescente violência policial. Usando os mesmos exemplos acima elencados, enquanto em Pinheiros a média de homicídios juvenis foi de 0/10.000 habitantes em 2014, em Cidade Tiradentes o número subiu para 7,43/10.000 habitantes.

Diferenciar a idade mínima para aposentadoria de homens e mulheres é uma tentativa de amenizar a dupla jornada de trabalho assumida pelas mulheres que, além do trabalho remunerado, assumem o trabalho doméstico dentro de suas residências.

Na lógica invertida que visa o lucro de poucos com o trabalho de muitos, aumentar a idade para aposentadoria sem aumentar a expectativa das mulheres negras é determinar que uma parcela importante da sociedade morra sem ter o direito à aposentadoria.

Resistência

O período de tantos ataques exige ainda mais resistência de um povo que não só vive, mas resiste. As centrais sindicais e os movimentos sociais estão organizando uma Greve Geral para parar o país e barrar os ataques no dia 28 de abril.

Em um país no qual falar de classe trabalhadora é falar sobre a vida de negros e negras, essa é uma luta pela vida e pelo futuro do nosso povo, o que faz com que devamos fortalecer as paralisações nos locais de trabalho, estudo, e participar das manifestações que estão sendo organizadas em cada cidade.

Pensando nisso, o movimento negro da cidade de São Paulo está organizando um bloco para a manifestação do dia 28 de abril, que se concentrará a partir das 14h00min na Praça Benedito Calixto.

Vamos, juntas, organizar a luta e a resistência em nossos bairros, locais de trabalho e de estudo!

You May Also Like
Leia mais

Fragmentos do descobrir-se negra

Será que eu era “negra o suficiente”? Minhas neuroses gritavam pra mim dizendo que a universidade seria o lugar que nos olhariam e nos apontariam o dedo dizendo: você é negro, você não é negra… próximo! Ao entrar na entrevista para candidatos cotistas minhas dúvidas começaram a se diluir aos poucos. Lá estavam negros de todos os tons de pele e, para minha surpresa, de pele até mais clara que a minha.

Gratidão Lupita Nyong’o

Não sei vocês, mas para mim, usar cores já foi difícil, houve um tempo em que usar um batom colorido era impossível, achava que as cores não combinavam com pele preta. O que pode parecer besteira, não é, essa minha insegurança (e acredito que seja de outras mulheres também) reflete o quanto nós, negras, infelizmente ainda sofremos com a falta de referências, essas que crescemos sem.