Adeus dará

Em reverência à Dona Maria Gregória e nossas matriarcas.

Escrito em 18 de maio de 2016

Somente há pouco tempo, pude conhecer sua estória. Ela sempre foi muito quietinha. Não reservada, não indisponível, mas distante. Seus cabelos estão cada vez mais brancos, num corte bem curto. Os olhos atentos, um sorriso discretamente acolhedor. Por uma dessas afinidades que se constroem nas adversidades, se tornou parte da família que vez em quando ganha novos membros quando mais alguém deixa a terra em busca de uma vida um tantinho menos pior.

Me foi contado que seu rosto recuperou o viço agora que não mais trabalhava de sol a sol como ambulante. Aqueles dias ficaram para trás, me alertou minha mãe, salientando que sua pele agora estava muito melhor. Um dos seus filhos, o primeiro a mudar de cidade, estudou. Recentemente adquiriu casa e carro próprios, eventos narrados com uma alegria simples e delicada. Se a conversa tivesse parado por aí, tudo estaria muito bem obrigada. Mas acontece que os nossos antigos literalmente se tornam mais velhos e tudo muda de figura. 

Mais ainda quando os anos de intensa labuta exsudam dos ossos, das carnes e da mente e dos corações. Há muitas palavras para isso, nesse caso podemos resumir em uma palavra. Fibromialgia. Ao saber, quase caí para trás. Nossa personagem, mal lembrava o nome do que tinha. Era fi… fibra o que mesmo? Passei a me perguntar como é possível viver com dor aguda, forte e crônica em todo o corpo e ainda sorrir. Da onde vem tanta força? 

Ainda havia mais, porque tudo isso lhe parecia ser um simples fato da vida. O que doía mais era contar, e portanto reviver, a experiência como empregada doméstica no escritório de um advogado. E quantas vezes não ouvimos estória parecida? Também trabalhava na residência do seu empregador, exercendo toda e qualquer tarefa braçal. Se entendi direito, chegou a limpar até mesmo a casa da mãe do chefe. Tudo isso por um salário mínimo, mas com carteira assinada. Pelo menos de boca. Porque não foi bem assim. 

Quando foi despedida, sua carteira de trabalho lhe foi devolvida em branco, tão lisa quanto as camisas que deixava impecavelmente engomadas. Sua indignação ganhava contornos ainda mais vividos ao reviver o momento em que percebeu que todo o carinho recebido nada mais era uma mentira conveniente. A mágoa desenhava cada contorno do seu rosto quando me disse que, por ser honesta, era a única que tinha acesso aos bens que o patrão guardava em casa, como uma numerosa e reluzente coleção de relógios importados. 

Apesar da raiva, há muito mais dentro dessa mulher. Talvez seja sua fé, que apesar de tantos problemas para si e para os seus, organiza sua existência. Esperava pela providência divina. No seu universo, não nada mais haveria de ser feito. A dor da mentira era a que doía mais, mesmo com tantos anos de direitos trabalhistas perdidos, vividos sob um regime de trabalho escravocrata… 

Jamais entenderia quem nunca teve sua humanidade ferida de morte. Gente para quem a liberdade nunca foi uma completa e absoluta falta de oportunidades, de escolha, de serenidade. Gente para quem a reafirmação da condição de coisa que se descarta, remove e silencia, é muito mais que um anunciado. 

Agora imagine você.

O plano nunca foi outro além do adeus dará para quem um dia já foi da família.

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