Autonomia, identidade e narrativas de resistência: decolonizando a produção de conhecimento

O termo decolonial expressa a produção de um pensamento sob o ponto de vista dos subalternizados, em contraposição a perspectiva eurocêntrica hegemônica na universidade, em relação ao conhecimento histórico e social. A luta é para que povos negros e indígenas sejam não apenas receptores de conhecimento, mas produtores. E eu sou uma desta pessoas dentro dessa perspectiva decolonial.

Meu nome Cintia, tenho 31 anos, sou negra, professora da rede federal de ensino e estou em vias de defender minha tese de doutorado, que trata da análise dos discursos sobre a decolonização do corpo negro e do cabelo crespo. Os textos que analiso em minha tese foram todos retirados deste blog. Como acompanhei a página por anos para minha pesquisa. É chegada a hora de eu me tornar uma autora.

A importância de escrever uma tese que trate do viés étnico-racial para mim é imensurável academicamente e pessoalmente. Como pesquisadora negra, e que faz parte de um grupo historicamente invisibilizado, esta produção aponta para uma mudança de percurso.

Djamila Ribeiro, certa vez disse em uma entrevista algo que motivou a escrita de minha tese. A autora afirmava o seguinte: “É melhor a gente falar, senão o peso do silêncio vai acabar nos engasgando”. A fala de Ribeiro pode parecer banal para quem nunca teve sua voz sufocada, e precisou gritar para ser ouvido. Por outro lado, também representa o sentimento de uma grande parcela de brasileiros e brasileiras que são vítimas do feroz racismo opressor e silenciamento do colonizador.

Chimamanda Adichie já nos alertou que precisamos romper com os silêncios e as histórias únicas. Grupos marginalizados dificilmente encontram um lugar de fala, de amplo alcance social. Por outro lado, as palavras que nos ferem e desumanizam podem se constituir em resistência, engendrando novos discursos e outros mundos possíveis.

Considerando a multiplicidade de discursos e sítios virtuais que atravessam o tema feminismo negro e estética negra, e as diferentes concepções sobre o tema, optei pelo site Blogueiras Negras como foco de interesse. Este espaço virtual é tomado como um campo privilegiado, no qual podemos verificar como, na contemporaneidade, os discursos produzidos nesse sítio reproduzem criticamente enunciados preconceituosos naturalizados, e uma gama de ideias produzidas por um viés ideológico. O diferencial desse site está no fato de aceitar contribuições textuais de leitoras de todo o Brasil. O que fomenta, a meu ver, uma política descentralizadora do conhecimento e da produção, inserindo-se, então, em uma perspectiva decolonial, ou seja, do conhecimento produzidos pelos grupos que durante muito tempo foram oprimidos.

Além disso, os textos veiculados neste sítio virtual caracterizam-se como decoloniais, por problematizarem a condição do colonizado e por buscarem, por meio desses potentes discursos a emancipação de todos os tipos de opressão e dominação.

A raiz das relações raciais no Brasil, assim como de outros países colonizados e com o regime de escravidão, é oriunda de raízes históricas. E para compreender como estas relações se estabelecem hoje é necessário se voltar para o passado. Achille Mbembe (2019), traz em sua obra Crítica da razão Negra uma fala marcante, e que acredito estar estreitamente relacionada a este tema. Segundo o teórico, os escravos operavam do fundo dos porões e foram os primeiros foguistas a alimentar as fornalhas da modernidade. E, se há algo que desde sempre assombra a modernidade, é justamente a possibilidade da “revolta dos escravos”, que assinalaria não apenas a libertação dos subjugados, mas uma reformulação, se não do sistema de propriedade e trabalho, ao menos dos mecanismos de redistribuição.

As lutas e transformações que observamos no mundo de hoje são a libertação e revolta dos sujeitos negros, que ainda têm grilhões da escravidão a serem quebrados. E espaços de militância virtual e de produção do conhecimento por estes sujeitos que foram colonizados asseguram um lugar de fala e visibilidade para questões de raça no mundo moderno.

Durante toda a etapa da pesquisa e leitura do blog, remontei à minha infância. Ao ler os textos sobre os conflitos com o corpo negro e o cabelo crespo lembrei de uma menininha negra, que não se enxergava como tal, gordinha, sentada durante muito tempo em uma cadeira e sentindo dores ao ter os cabelos desembaraçados e penteados por minha mãe. O pente ao desembaraçar meu cabelo provocava uma dor alucinante. Naquela época, infelizmente, ainda não existiam pentes especializados para cabelos crespos, o que tornava o momento de pentear os cabelos uma tortura. Naquele momento da minha vida, sem que eu soubesse, minha identidade de mulher negra estava em construção sob o estigma de beleza e dor. Essa é uma associação muito comum entre mulheres negras, beleza e sofrimento andam de mãos dadas.

O problema não está no cabelo crespo em si, mas nas representações negativas construídas em torno do negro, no contexto cultural brasileiro e das relações sociais. Conforme afirma Gomes (2019), o cabelo crespo na sociedade brasileira funciona como uma linguagem e como tal, comunica e informa sobre as relações raciais.

É necessário, então, desconstruir essa imagem social do negro e para isso, uma mudança profunda se faz necessária e que só será possível alterando radicalmente a forma como se estruturam as relações sociais no Brasil, e espaços de reflexão como o Blogueiras Negras são fundamentais nesse processo. Assim como mais negros na universidade produzindo e fomentando o conhecimento sobre estas questões.

Imagem de destaque: Matheus Leite, HP

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