Bem-vindos ao Espaço Senzala VIP!

Basta uma busca em qualquer desses sites buscadores pelo termo “Restaurante Senzala” e encontrará vários resultados. A versão paulista é famosa. Está aberto há desde a década de 70, se gaba o site do lugar, em pleno Alto de Pinheiros, bairro nobre paulistano. Encontrei também um em Ubatuba, outro em Boa Esperança – MG… Em comum, a banalização da nossa dor.
Fui passar as festas de fim de ano em Salvador. E dei de cara com isso a notícia da inauguração do Espaço VIP – que promete ser climatizado com ar-condicionado e vista da piscina para almoçar com tranquilidade.
Eu fiquei algum tempo sem conseguir digerir essas imagens e a notícia que um clube de associação de funcionários do Banco do Brasil, que representa o país, estaria em plena Bahia tripudiando da nossa história. Mas daí me recordei de onde estamos, afinal. E o quanto há de reparação real e de estudo do que foi, de fato, o tráfico negreiro, a manutenção de negros escravizados por mais de três séculos.
Claro, os responsáveis por essa lindeza são, como só poderiam ser, brancos. Provavelmente virá algum aqui me dizer que o cozinheiro/chef, os garçons, sei lá o designer que fez a logo é negro. Já viu mulher reproduzindo machismo e dizendo em alto e bom som que mulher nasceu mesmo pra ser submissa? Apois…
O que eu sinto é raiva, indignação. Estive no clube e haviam várias famílias negras lá, e eu com um incômodo que não descia, preso na garganta. Chorei, me indignei ainda mais com o ar de que o incômodo era só meu. Conversei com alguns, com meus pais inclusive. E, sem trazer nenhum consolo, o incômodo parece ser maior, mas no final das contas, não sabemos muito o que fazer. Cabe processo? Caracteriza como o quê? Vale fazer textão no Facebook e marcar os amigos? Eu fiz. E estou vindo aqui também.
O que me dá mais medo não é (só) a existência de bares e restaurantes chamados Senzala. É a não indignação. A sensação de que estamos acomodados e tão acostumados a vermos racismo todos os dias, que já não temos forças, pois parece que falamos só aos nossos. Para todos os lados vemos descaso.
Só gostaria de perguntar: se o espaço vip se chamasse Campo de Concentração, ele estaria funcionando?
Imagem: arquivo pessoal.
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Diametralmente oposto a esse padrão aceitável se encontra, por lógica, o corpo negro. O corpo negro, seus traços, sua genética, seu fenótipo e a infantil tentativa de negar a construção social que tem o gosto. Somos, todos nós – negrxs e brancxs – expostos desde crianças a propagandas, programas infantis, desenhos, revistinhas em que predomina um padrão de beleza europeu. “Gosto não se discute” porque a mídia já deliberou sobre ele por nós, apresentou-o e nós, como o esperado, compramos não só o gosto mas também o slogan. Continuemos sorrindo!