De Carolina Maria de Jesus à Adriel Bispo de Souza

Notas sobre o racismo e a sabotagem na produção de conhecimento e memória negra

Recentemente, acompanhamos através das redes sociais o racismo sofrido por Adriel Bispo de Souza, um menino negro de 12 anos, que tem uma conta no instagram @livrosdodrii, onde ele compartilha o amor e o prazer pela leitura, incentivando centenas de crianças e adolescentes a buscar a leitura, no entanto, mesmo com todo o carisma e inteligência, Adriel foi vítima de um ataque racista e divulgou o print que dizia: “Eu achava que preto era pra ta cavando não lendo”.

Sabemos como o racismo, especialmente na infância, pode ser um fator determinante na formação da identidade e auto-estima das crianças negras. Os currículos escolares não priorizam as narrativas de pessoas negras, e os livros didáticos em sua maioria seguem reproduzindo o racismo ao mesmo tempo que enaltecem a branquitude e seus símbolos.

A sabotagem à nossa capacidade criativa e à nossa confiança começa muito cedo, ainda na infância, percebida na sociabilidade na escola, não somos escolhidas para protagonizar em datas festivas ou como boas alunas. A sabotagem segue por quase toda a trajetória escolar e nos cobra caro na universidade. A sensação de insuficiência é uma velha conhecida para muitos de nós, negros e negras, passamos a vida nos exigindo tanto, críticos com nós mesmos, muitos começam a ler de forma desenfreada numa busca cruel por legitimidade, duvidamos do nosso conhecimento e intuição, porque nos é colocado o branco no centro do conhecimento e como referência intelectual.

Grada Kilomba no livro “Memórias de uma plantação”, expressa bem essa dicotomia quando aborda que muitos estudantes brancos, em sua sala de aula, se sentem seguros para falar de assuntos mesmo sem ter lido, ou apenas lido a orelha de um livro, porque a branquitude garante a eles a confiança para isso, a estética assegura a legitimidade sem que o conhecimento seja contestado, então, para quebrar essa norma ela trazia leituras de intelectuais negros para a sala que os estudantes negros tivessem identidade para que pudessem se colocar e intervir.

 Essa insegurança é fruto do racismo estrutural, que sustenta toda uma produção de conhecimento eurocentrado e branco, ao mesmo passo que garante o apagamento de nossa memória enquanto povo afrodiaspórico e produtores de conhecimento, assim, a escola e a universidade são responsáveis pelo nosso desconhecimento em relação aos nossos intelectuais negros/as e as nossas histórias. Na contramão do apagamento, o livro “Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis” da escritora negra Jarid Arraes, nos brinda com histórias valiosas sobre nossas ancestrais e suas lutas, histórias essas que tem o poder de transformar crianças negras em reis e rainhas, são espelhos que refletem força, beleza, inteligência, coragem e pioneirismo. 

Quando olho para minha trajetória, consigo identificar quantos boicotes aconteceram, por exemplo, pesquisar a mulher negra na mídia, para alguns era um tema muito “pessoal”, logo, concluiam que era pouco científico, já fui acusada de fazer da pesquisa um espaço de militância, como se fosse algo ruim. Essa ferida só foi curada depois de encontrar uma orientadora que se tornou amiga e incentivadora, reafirmando a  importância da minha pesquisa e de me afirmar enquanto pesquisadora negra. 

Mas são inúmeras as histórias que se repetem de desvalorização e apagamento, Carolina Maria de Jesus, mulher negra e periférica de Minas Gerais, foi a primeira escritora negra brasileira a ter seus livros traduzidos e vendidos em diversos países, no entanto, morreu muito pobre e sem o reconhecimento merecido, assim como outras e outros intelectuais negros, a exemplo de Manoel Bomfim ou Luís Gama.

O caso de Adriel tem sua estrutura no racismo, e por isso, um ataque à sua intelectualidade, não é um discurso de ódio qualquer, mas, parte de todo um processo de boicote e silenciamento da nossa produção de conhecimento. É parte da estratégia da branquitude em perpetuar a sua hegemonia através do apagamento das nossas vozes. É também, forma de boicotar nossa ascensão social e luta por uma vida com dignidade. Não permitiremos isso!


Imagem destacada: Beco Literário

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