O afeto como um sinônimo de liberdade

“Se eu não me definisse por conta própria, seria esmagada nas fantasias alheias sobre mim e comida viva”

AUDRE LORDE

A mulher negra sofre diferentes tipos de preconceitos, e se tratando de mulher negra e lésbica nos deparamos com mais um marcador violento: a lesbofobia. A trajetória de quem é preto é permeada de opressões. A escritora caribenha-americana, lésbica e ativistivista social, Audre Lorde, no artigo Não há hierarquias de opressão”  relata que “dentro da comunidade lésbica eu sou negra, e dentro da comunidade negra eu sou lésbica”. Prática que ainda é recorrente na comunidade negra LBT. Pensando nesta frase, resolvemos contar nossas histórias a partir das nossas perspectivas.

Conversamos bastante se o tema deveria girar em torno da dor, chegamos a conclusão que não é possível fugir dela, mas esperamos que de algum modo forma a nossa escrevivência chegue a você como forma de afeto, pois acreditamos muito que ele é um agregador importante de cura entre nós, pessoas negras.

Quando nos referimos ao afeto, essa palavra muitas vezes é apagada do nosso vocabulário, assim como o apagamento de nossa humanidade enquanto mulheres negras e lésbicas. Nossa construção de identidade acontece pela dor, pela rejeição e pela quebra de nossa autoestima.

Nas palavras de Vilma Piedade, Dororidade contém “as sombras, o vazio, a ausência, a fala silenciada, a dor causada pelo Racismo. E essa Dor é Preta” (p.16) questiona a noção de Sororidade que pretende unir, igualar, mas que “Não basta para Nós – Mulheres Pretas, Jovens Pretas” (p.17).

Pensar na presença da afetividade em nossas vidas como um direito e um convite à valorização de nossos corpos é definitivamente fazer as pazes com nossa ancestralidade.

Refletir sobre o afeto nesse sentido não é tarefa fácil. Tendo em vista toda estereotipação de nossos corpos, independente de gênero, a hiperssexualização que recebemos nos leva a lugares de negação de nossa própria identidade, recusando a presença desse corpo negro. Encaramos o ideal branco como referência de como devemos ser e agir desde os tempos da colonização. Por outro lado, também vemos a dessexualização de corpos fora de padrões normativos dentro da sociedade. Sempre há “criminalidade, malandragem, preguiça e fuga ao trabalho” relacionado a nossos corpos e a cada dia mais nos encontramos dentro do paradoxo da crueldade.

 O apagamento da nossa existência é evidente, principalmente quando a gente focaliza esse assunto para mulheres negras e lésbicas. Diante disso, realizamos pequenos extermínios de como nos apresentamos no mundo, por conta da sociedade patriarcal e preconceituosa ancorada nas bases do racismo, machismo e outros tipos de opressões que estamos inseridas. As vezes é necessário que a gente tome certos cuidados em nossa expressão de  afeto com outra pessoa em lugares públicos: andar de mãos dadas, beijar, gestos considerados simples, mas que nos fazem sentir vulneráveis a ataques e  a violências. Ser negra e lésbica é lutar contra a invisibilidade em diversos níveis, principalmente sobre a opressão, a solidão afetiva e intelectual.

Falando da representatividade, a falta de visibilidade e reconhecimento é um ponto importante a ser discutido, principalmente quando se trata de movimentos sociais. É evidente que diante de toda a militância, ainda é possível observar que existem milhares de opressões e privilégios dentro desses espaços. Nossa inserção nesses movimentos muitas vezes não garantem com efetividade nossos direitos. Mulheres negras e lésbicas ainda são alvos de lesbofobia e racismo em locais de luta.

Estruturalmente o branco é visto como ideal de humanidade, sendo assim, nós, pessoas negras, temos os nossos corpos sempre à margem. Logo, como uma mulher negra e lésbica vai se amar, visto que o padrão de beleza da mulher sapata é extremamente branco?

O ensino médio foi a fase que eu comecei a me fechar cada vez mais para o mundo. Foi ali que tive a real percepção que eu não era vista e nem desejada como as outras meninas do colégio. Hoje, já adulta, eu busco através da terapia a (re)construção da minha autoestima. E esse é um processo permanente de autocuidado na minha vida e nas minhas relações de afeto.

Um dos efeitos mais violento do racismo foi implantar na nossa mentalidade o sentimento de inferioridade. Frantz Fanon em sua obra “Pele negra máscaras brancas” alerta que o embranquecimento, em linhas gerais, é uma tecnologia de genocídio da nossa estética.

E ser uma mulher negra e lésbica neste mundo é ser um corpo político, justamente porque somos tudo que a sociedade não quer, por isso a importância de pensarmos maneiras de seguir existindo e resistindo diante das opressões. Acreditamos que um dos caminhos possíveis é o reconhecimento e o afeto entre nós, pessoas negras.

Imagem destacada – Blogueiras Negras

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