O feminismo negro é absolutamente incompatível com a transfobia

Que fique enegrecido: nós Blogueiras Negras entendemos que o feminismo negro, mesmo em suas diversas manifestações, é absolutamente incompatível com a transfobia. Acreditamos que não seja complicado entender que nossas mulheres são atingidas por ela, tem sua existência negada, sua humanidade diminuída simplesmente por serem transexuais e por serem negras, uma superposição de identidades que cria um eixo único de violências. Às mulheres negras cis só existe uma possibilidade nesse sentido: sermos aliadas.

Nós,

Blogueiras Negras,

somos um grupo diverso de mulheres negras.

Cada uma de nós com sua vivência, sua trajetória de vida, suas opiniões. Muitas vezes em diversos tons de pele, textura de cabelo. Nunca pretendemos ser um grupo em uníssono, muito pelo contrário. Nosso propósito sempre foi de contribuir para o entendimento de que também somos a própria diversidade assim como qualquer outro grupo de mulheres. De outro modo estaríamos contribuindo para reforçar o estereótipo racista de que seria possível que apenas uma de nós falasse por todas, de que todas somos iguais.

Estaríamos negando a nossa própria existência ao invés de a celebrar.

Apesar de todas essas diferenças, existe um norte que nos direciona: a luta contra toda força, ação, ideia ou movimento que tem como objetivo nos subjulgar. Sim, estamos falando de mulheres negras especificamente, mas não somente. Nos colocaremos ao lado de toda mulher branca atingida pelo patricarcado, ao lado de todo homem negro que sofra racismo, por exemplo. Nos colocaremos ao lado daquelas que são alvo de gordofobia, capacitismo, classismo. De lesbofobia, bifobia, objetificação, heteronormatividade. E não nos compactuaremos com tais manifestações.

Nesse sentido, entendemos que o combate à transfobia é uma das pautas mais que urgentes dentro do feminismo, inclusive entre feministas negras. Por isso que prestamos nossa solidariedade e respeito ao transfeminismo, ainda mais quando seu olhar é voltado para a mulher negra trans*. Não há discussão possível nesse sentido. Agir de outra maneira, num país notório por suas taxas de transfeminicídio, seria incoerente com aquilo que acreditamos. Entender que uma mulher trans* é um homem é negar nossa própria diversidade. Seria agir de acordo com aquilo que nos massacra também. Não nos interessa conviver com isso.

Todo discurso de ódio contra mulheres negras cis ou trans* não deve ser tolerado dentro e fora daquilo que se entende por feminismo, sob pena de termos sangue em nossas mãos. Sangue que sai do corpo ou da alma, que de um jeito ou de outro acaba por matar concreta ou simbolicamente. Seria como atirar em nosso próprio peito fazendo com que o objetivo primeiro de nossas ações, extinguir todo tipo de opressão contra a mulher, jamais seja obtido. Não seremos exitosas enquanto um grupo de mulheres gozar de privilégios por meio de alianças com a branquitude acrítica e a cisnormatividade.

Que fique enegrecido: nós Blogueiras Negras entendemos que o feminismo negro, mesmo em suas diversas manifestações, é absolutamente incompatível com a transfobia. Acreditamos que não seja complicado entender que nossas mulheres são atingidas por ela, tem sua existência negada, sua humanidade diminuída simplesmente por serem transexuais e por serem negras, uma superposição de identidades que cria um eixo único de violências. Às mulheres negras cis só existe uma possibilidade nesse sentido: sermos aliadas.

Por fim, gostaríamos de convidar mulheres negras trans* a escrever nesse espaço. Não apenas durante uma semana ou um dia especiais. Feminismo não é apenas aquilo que feministas brancas ou cisgêneras acríticas promovem, não é aquilo que acontece na grande mídia branca, racista, cistemática. Feminismo é sobre acabar com “sexismo, exploração sexista e opressão” seja quais forem suas causas ou consequências. Seja quais forem seus agentes, movidos por ação ou reprodução de ideias.

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Nas décadas de 1970 e 1980 feministas negras como Angela Davis, bell hooks e Lélia Gonzalez já apontavam que a luta antirracista é indissolúvel da luta de classes. A recusa de feministas em reconhecer outras experiências de mulheres (que não as brancas, universitárias e de classe média) suprimiu a conexão entre raça e classe, escamoteando a situação de privilégio de um seleto grupo de mulheres forjado pelo discurso da “opressão comum”.