O soneto que você me pediu e o que você não ouviu

Quatro
Quatro
Três
Três
Eu sei fazer essa merda de vocês!
Mas meu povo preto
precisa de muito mais do que versos de um soneto
pra gritar toda dor que vem do gueto.
Pra falar de cada bala que vocês metem no peito
do nosso homem preto.
Pra denunciar todas as vezes que vocês rasgaram e quebraram nossas nêga
das formas mais cruéis,
Enquanto as brancas ganhavam anéis.

2006, sexta série: Ganhei o concurso de redação.
Na escola, só meu irmão fez a comemoração.
No mesmo dia, ganhei outra votação:
Pela quarta vez, eleita a mais feia da sala.
Hoje, a presidente quer dar uma palavra…

Cansei de ser calada
por burguês
que teu sucesso, o pai que fez.

Hoje, eu observo a fila de quem diz “não sou racista”
Com meu sangue – e de tantos outros – na camisa.
Minha tia preta que lava essa camisa,
enquanto chora a morte do meu primo
Gay, espancado e violentado
Porque “não existe essa de preto viado”.

Presta atenção nesse círculo vicioso
desse ciclo que você chama de amigo.
O racismo ainda tá acontecendo
E esse crime, tua família tá cometendo faz tempo.

Presta atenção nesse ciclo de vícios
desse circo que você chama de amigos.
Lá em casa, tenho uma pretinha que tá crescendo
E me pergunta por que já nasceu perdendo.

– Rachel JB

Imagem de destaque: Scary Mommy

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Quando já não há palavras que deem conta de expressar o que sentimos quando vemos nossas irmãs sofrerem, ou mesmo quando vemos em seus olhos o brilho de satisfação de alguma conquista (que nos é tão caro e precioso), quando não nos cabe no peito a dor que sentimos pelas nossas irmãs ofendidas, ou a alegria imensurável que nos toma o corpo quando uma outra preta chega onde muitas de nós não conseguiremos porque diariamente os grilhões do racismo tende a nos aprisionar, só nos restará a sororidade negra, laço este de irmandade que servirá como o nosso amuleto de sorte, e a bala de canhão necessária para proteger umas as outras, e nos protegermos do mundo.