parece erro deles: a colonialidade da tecnologia

As redes todas – de afeto, sociais, grupos de mensageiros – estão assanhadas a respeito da mais nova (para alguns) expressão do racismo: o Racismo Algorítmico. Essa modalidade de expressão do sistema mais antigo de exploração e exercício de poder tem raízes mais profundas do que as tretas de internet podem apresentar. 

A gente bem sabe como o racismo mina toda a nossa experiência de humanidade: na educação, na vida afetiva ou num simples comprar pão, e por isso não seria diferente imaginar que ferramentas, códigos e dispositivos escapariam disso. Ainda não estamos enviando pedidos de desenvolvimento de plataformas pra Marte, e nem Elon Musk (ainda) é capaz de detectar a existência de racismo em outro planeta. 

Pois bem, isto posto, vamos conversar um pouco sobre isso: não sobre o boy branco, mas sobre a inescapabilidade do racismo e sua face mais tecnológica – o racismo algorítmico –  apresentando inclusive estudiosas, intelectuais em todos os níveis que têm discutido, experienciado e problematizado tudo em torno do que entendemos por tecnologias e racismos.

O [FALSO] DILEMA DAS REDES

Minha grande amiga, mulher preta da bahia, militante e enfermeira, me explicou com todas as letras e números do que se trata o filme, como o facebook é manipulador e porque que todas nós devemos sair das redes. Nisso, penso que esses filmes com script batido cumprem seu papel: o de ao menos despertar a curiosidade e alcançar pessoas que – não fossem o tom catastrófico aplicado – as nossas conversas talvez não alcançariam. Curiosa e sem querer fazer a hipócrita de escrever este texto sem ao menos ter visto, baixei o app, coloquei a senha de outra amiga e enquanto cozinhava desesperadamente e comecei a “passar o olho” no filme. 

De cara, fui (nem um pouco) surpreendida com os takes iniciais onde homens alvos como a neve preenchem um cenário confortável, quase hippie, daqueles dignos de propagandas descoladas. Aliás, filmes como esses sempre me deixam fascinadas com a  possibilidade de conseguir agrupar uma quantidade muito grande de homens bancos que se parecem uns com os outros. E aí, logo fui arrebatada com a pergunta que parece permear todo o documentário: mas qual é mesmo o problema?

É bem verdade que a resposta logo veio na ponta da língua: O PROBLEMA SÃO VOCÊS! Por mim podia acabar o filme ali, já que o resto todo mundo já sabe. Mas enquanto continuava, assistia embasbacada a sequência de elaborações de cunho científico [pseudo] e totalmente marketeiro sobre o funcionamento das redes sociais. Brancos de dread, mulheres brancas e uns poucos negros aparecem num discurso quase que melodramático sobre como eles mesmos ajudaram a construir isso que seria a ruína depressiva do século 21.

Como diria a Bahia: me poupe, me economize! 

O falso dilema das redes não é só porque os homens brancos arrependidos aparecem dando conselhos absurdos e fazendo um papel de redentores quando se tornam palestrantes e criadores de organizações da sociedade civil. O falso dilema das redes na verdade cria um antagonismo que não resolve o problema que eles mesmos criaram: não é sobre abandonar os aplicativos e plataformas (e aqui nem de longe estamos defendendo ninguém, que dirás os misóginos do CaraLivro), mas as questões que estão postas nesse modelo econômico padronizado por esta turma que se acha inventor da internet é:

  1. existem possibilidades outras além dessa que nos apresenta como meros consumidores;
  2. o problema não se resolve olhando pra nós, mas sim pra indústria;

O fato de encarar a nossa presença nas redes como mero consumidores mostra a total desconsideração desses gurus (sic) por outras formas de uso, apropriação e reapropriação dos espaços por eles criados. Se isso é bom ou ruim, é outra história, mas é fato que a comunidade negra, as mulheres negras trans, a população LGBTQI+ e tantos outros grupos minorizados foram capazes de realizar feitos – ouso dizer – impossíveis não fosse a reapropriação desses espaços. Desconsiderar isso é perceber o quão massificador pretende ser o discurso e quão colonizador é o olhar de quem fez do vale do silício seu lar.

Pra não dizer que não tem nenhuma referência negra no tal filme – sim Whoopi Goldberg aparece logo no início -, o (falso) Dilema das Redes faz sua primeira menção metodológica comparando o desenvolvimento da tecnologia de modulação de comportamentos a um boneco vodu! Em 1h16min eles dizem: “Do outro lado da tela, é quase como se tivesse um boneco vodu de nós”

Tão chocante quanto essa afirmação, são os artifícios que eles usam pra demonstrar isso na prática: como se de fato existisse algo no nível Minority Report dentro dos centros de desenvolvimento dessas empresas bilionárias. Bem, sem entrar em todos os detalhes de todos os especialistas trazidos no filme, o fato é que o tom alarmante do Dilema nas Redes apenas comprova o que nós já sabemos há um time: este modelo econômico gerido pelas grandes empresas GAFAM (Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft) tem suas bases mais colonialistas e racistas possíveis, de maneira que conseguem apagar o fato de que as consequências desastrosas dos seus investimentos estão nos países do Sul Global e que seus danos vão para além da deterioração da nossa saúde mental.

E aí, parceria, ninguém nem é capaz de mencionar o estrago que estas e outras empresas fazem na extração de lítio e outros metais, cheia de exploração e trabalhos análogos a escravidão; o próprio Netflix não se coloca como parte dessa indústria que também compete pela nossa atenção e que consome nossos dados; nenhum branco de dread foi capaz de elaborar quais são os impactos na vida de uma sociedade como a brasileira – ah, mas eles falaram de Myanmar! – sem ser de um jeito colonizado e racista.

Por isso mesmo, cabe aqui uma conversa mais profunda que apenas essa dicotomia e falso dilema, onde, de verdade, importa a colonialidade da tecnologia e o racismo algorítmico.

COLONIALIDADE TECNOLÓGICA E RACISMO ALGORITMO

Aprendemos com Simone Browne que as tecnologias de vigilância não são novidades para as pessoas negras. Graças a seus estudos, entendemos que o conceito de panóptico, tão usado pelos braquildos é tão antigo quanto o tráfico transatlântico – ali sendo sua expressão máxima de vigilância e dominação. A partir disso, Browne coloca a baila outras questões para comprovar sua hipótese: a de que as tecnologias de vigilância são especificamente prejudiciais para pessoas negras e que sim, as tecnologias são racistas, já que recebem inputs de padrões brancos. Isto posto e trazendo pra conversa Ricuarte Quijano, percebemos que tanto o filme quanto outros conteúdos/ de tecnologia a que temos acesso, se conectam com o que ela chama de epistemologia de dados e culturas algorítmicas que são sistemas de conhecimentos impostos a partir da superioridade epistêmica do agente e que contribuem para reproduzir racismo, sexismo e colonialismo através de verdades algorítmicas

Traduzindo em miúdos, esse sistema ao qual estamos expostas e que o tal do filme fica o tempo tentando exemplificar, parte de um pressuposto onde aqueles que constroem as ferramentas, plataformas e dispositivos são superiores a nós que somos consumidores e estamos apenas recebendo o que eles desenvolveram. E é aí que emergem os conceitos e práticas de Racismo Algorítmico e Colonialidade Tecnológica, essa última que “Se materializa através de sistemas sociotécnicos como a oposição ontológica sistêmica e material de uma forma ociedental/moderna de ser, pensar, fazer, sentir.” (Ricuarte, 2019). 

Veja bem, a conversa ficou cabeçuda, mas tudo isso pra dizer que a forma como as coisas se desenham – inclusive o tal doc da netflix – fazem com que essa colonialidade esteja ali, posta, onde o pensar, sentir, fazer que importa é tão somente dos ex vale do silício, que agora inclusive fazem dinheiro dando palestras estilo TedX pra continuar disseminando seus modos de pensar as tecnologias de rede sociais.

O que as ideologias californianas da vida continuam arrotando e que não faz sentido nenhum é que a internet, como conhecemos, passa por uma ressaca e manifestos como o Tim Berners-Lee, onde há uma suposta devolução às pessoas do poder sobre a internet, podem ser facilmente questionados quando alianças com os mesmos gigantes continuam sendo feitas. Até aqui, o que me faz seguir querendo discutir e que pode – e irá – se tornar mais uma outro motivo para nossos textos é, sem dúvida, o que passa quando a gente descobre que a internet está de ressaca para alguns, e que outros ainda nem beberam; e que há um esforço enorme de outras pessoas em pensar e fazer, o que os teóricos tem chamado de resistência algorítmica. 

Acho que vai ser um papo pra outro textão: entender o que é que esses brancos de dread tem chamado de ressaca e porque pra eles, assim como aparece no tal filme, a solução está em abandonarmos os espaços. Será que isso faz sentido pra gente? Acho que essa é a pergunta, já que o problema eles sabem, já que foram eles mesmos que criaram.

Nosso lugar está então em, não apenas (como se fosse pouco) entender como as coisas funcionam, mas em também continuar criando esses espaços resistência – seja na vida off, seja na vida online. E aí, parcerias, vamos trocar umas ideias também sobre porque e como descolonizar os desejo aí e falar um pouco sobre usabilidade, colaboração e alguns outros princípios que permeiam as conversas sobre uma tecnologia livre e não proprietária. Bora que bora?

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