Responsabilidade emocional e racismo: só queria dizer o óbvio, pessoas pretas têm sentimentos!

Gente branca não tem responsabilidade emocional conosco, pessoas pretas. É evidente que todo relacionamento tem seus conflitos, mas quando envolve um contexto racial a coisa fica mais séria ainda. Com certa frequência, deparo-me com uma atitude irresponsável, emocionalmente falando, das pessoas brancas que eu convivo e com certa frequência falam ou fazem coisas comigo sem se preocupar como que eu vou me sentir com aquilo, porém quando manifesto a forma como me sinto em relação à ação, logo vem a indiferença medrosa e também a ausência do pedido de desculpas, embora se desculpar não diminua os impactos do dito/feito.

Não importa o espaço: trabalho, escola ou faculdade. Quando interajo com pessoas brancas sempre é possível observar como que elas conseguem ter responsabilidade emocional com pessoas do próprio grupo racial do que comigo. Ressalto que não estou dizendo que a branquitude tem que ter “pena” de mim, apenas digo que me tirar a condição do sentir, certamente, é desumanizar-me. Houve uma ocasião da minha vida, quando tinha conflitos de ordem racial com uma (ex) amiga (aquela floco de neve que eu falei em outro texto meu), que essa pessoa branca, diante do meu questionamento, o qual apontava o seu racismo e também o quanto que aquilo me doía por vim de uma pessoa tão próxima, ficava em silêncio e deixava-me ali sozinha com a tristeza que a mesma tinha provocado. E, depois de um tempo, aparecia como se nada tivesse acontecido e eu que lutasse para lidar com aquilo que ela me provocou sem sequer receber um abraço e um “sinto muito”.

Recentemente, foi no âmbito de trabalho, a pessoa branca ao se comunicar por e-mail comigo parecia uma sinhá ordenando algo, então eu percebi que até em relações de trabalho, a branquitude também é irresponsável emocionalmente (Ah, hierarquia é diferente de opressão). Sempre quando uma situação assim me ocorre, eu penso “se eu fosse branca isso não ocorreria”. Aliás, o branco nunca se coloca na pele do outro, pois a pele do outro é a desprivilegiada, então, empatia é algo que não quer realizar.

Outra coisa, o branco sempre exige de nós, pessoas pretas, responsabilidade emocional diante do que falamos. Inclusive, quando se questiona o racismo de uma pessoa branca, imediatamente aparece das profundezas do privilégio, uma ou mais pessoas branca dizendo: “Ela tem depressão! Coitada! Você não pode a chamar de racista” ou algo do tipo “É uma pessoa boa, só não está passando por um bom momento”. Primeiro, gostaria de dizer que para depressão é necessário um acompanhamento psicológico e, quem vem justificar a atitude de uma pessoa branca por causa disso, deveria ser mais prestativo e orientar essa pessoa a procurar um atendimento psicológico. Aliás, é impressionante como que  nossa questão psicológica nunca é levada em conta e quando temos um  momento de ira com o contexto social, que nos violenta sempre, é visto como algo da nossa personalidade/caráter, nunca percebem  nossos corpos pretos como corpos com mente e com sentimentos.

Como diz aquele livro que a branquitude ama, “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” (PEQUENO BRANCO PRÍNCIPE, 1943). Então, trago essa frase de branco, só para ver se a branquitude compreende: sim, vocês tem que se responsabilizar emocionalmente com a forma que me tratam, ou como tratam outras pessoas pretas, nas relações do cotidiano!  Se afastar e deixar com que eu lide com o lixo colonial que lançam em nós, só mostra que o racismo está longe de desaparecer das práticas sociais da whitelândia brasileira. Infelizmente, até na esfera afetiva, o sinharismo e o sinhorismo sempre se manifestam, por isso é bom pensar mil vezes antes de dizer a uma pessoa branca que a ama, pois parece que a única acepção do verbo cativar que a branquitude conhece é a da ordem do colonial. Amizade com cheiro de engenho, não é amizade! No mais, prazer, eu sou Juliana Sankofa.


Imagem destacada Andrea Piacquadio from Pexels

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