Será que eu vou morrer?

Minha mãe disse sim. Todos vão morrer um dia, então que essa energia de preocupação seja  resignifcada. Ela disse também que nesse momento é mais importante pensar nas redes de saberes coletivos que nosso povo se apoiou pra chegar até aqui, do que pensar a morte.

Porque a morte é certa minha cara, disse-me ela com a certeza ancestral que lhe é peculiar. A gente que se fortaleça e disse mais, que nós mulheres negras podemos ser O impacto determinante pra permanecermos vivos!

É a ancestralidade que transborda dela, que me garante conforto e, sobretudo fôlego diante do quadro dantesco que se desdobra diante dos meus olhos, quando eles se deparam com a quantidade de vidas que se esvaíram pelas mãos de um estado irresponsável e com a permissão de uma sociedade adoecida pelo ódio e pela ignorância.

A configuração astrológica do céu apresenta seis planetas retrógrados, tal período faz com que tenhamos a impressão de que os planetas estão “andando para trás” e andar pra trás só caranguejo, então como dizem as previsões, cale-se.

Concordei a principio, mas, a vida e o seu, mas, a pandemia trouxe dados que precisam ser levados em consideração sempre que pensarmos em nos calar. Vamos a eles: são 1.193.609 casos confirmados, 649.908 casos de recuperação e 53.895 mortes, números que tem nomes, famílias e que um dia, tiveram sonhos.

Já começou a acontecer, o medo anda pari passu conosco e vai se infiltrando em nossos sentimentos, quanto aos passos limpa-se a sola dos sapatos com paninho embebedado em álcool 70◦,  já os sentimentos se apequenam diante das impossibilidades e da  impotência que a morte trás na sua origem.

A pandemia, o covid-19, o des governo chegaram numa fase em que a sequência de lutos, como disse uma amiga, será devastadora.  Ela vai atingir a gente, gente muito perto da gente e a gente que é gente, vai sentir a dor dos de perto, dos de longe e do que está escondido atrás da frieza dos números. A falta de ar vai chegar a nossos pulmões e talvez não estejamos preparados pra ela, mas vamos sentir tudo, como se tudo fosse nosso, porque a gente sente ou pelo menos parte nós.

Minha memória vai até os navios negreiros, até os campos de concentração, já fiz essa viagem em outro texto, mais aqui meu pensamento vai além do sofrimento de quem perdeu a identidade, a casa, os amigos, o referencial daquilo que nos constitui como gente. Aqui me deparo com a força da travessia, aquela que mesmo ultrapassada pela dor, atravessa a vida e desembarca no desconhecido pra continuar.

Percorrer o desconhecido e profundo mar da existência que precisa ser navegado com coragem e destemor. São nessas águas revoltas povoadas por tubarões e seres místicos que a vida lançou a Humanidade. Estamos nos debatendo numa tempestade sem fim, sob um céu sem estrelas e cada braçada, outra onda mais forte que a anterior nos abate e nos afoga, nos asfixiando.

Calmamente ele acordou se dirigiu a proa do barco e acalmou os ventos, dizendo aos discípulos: “Por que vocês estão com tanto medo? Ainda não têm fé?” (Marcos 4:40)

Não ainda não a temos, somos pequenos e ignorantes diante dos desígnios de Deus, Olórun, Brahma, Yu Huang Shang-ti ou a manifestação Divina que mais lhe tocar o coração,  com muito esforço nos debatemos com as incertezas da realidade, com revolta caminhamos em busca de justiça e com violência defendemos os nossos.

Volto os olhos para o oceano e sinto a força que emana em cada Abyomin costurada com placenta e pedaços de pano. Reconheço ali à resistência e o vigor que emana dos nossos braços, que dá sentido a vida ainda que doa.

Nesse turbilhão de realidade que se abate sobre a humanidade, nessa morte que anda a espreita, nos convoco a preencher todos os espaços, inclusive os já preenchidos com a força que brota dos coletivos, das favelas, das periferias e de todas as iniciativas que constroem uma rede de mãos entrelaçadas e pensamentos coletivos, não para vencer a morte, porque ela é inexorável, mas pra garantir a vida dos nossos.

Convoco-nos a ser mar. Profundos, abundantes, capazes de romper muralhas, levar, para além dos corpos, as esperanças de novas e azuis travessias.


Imagem destacada – A imagem nos remete aos caminhos do mar que são muito parecidos com os caminhos dos nossos sentimentos neste momento em que vivemos tão profudamente abalados com o mundo e conosco. Crédito: Nat Geo

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