Um país em chamas

As estátuas continuam queimando sob o céu do Brasil. E o fogo tem sido o elemento de destaque nesse cenário caótico, pandêmico e mortal. Como queimam as histórias racistas e coloniais do passado, também queimam nossas florestas, num fogo destruidor.

Esse é um chamado à imprensa negra, indígena e autônoma de todo mundo para que ouçam as vozes. São as vozes de indígenas que clamam por um uníssono NÃO ao Marco Temporal. Vozes que pedem pela conservação da vida e cultura que restaram após centenas de anos de destruição e de ódio. São vozes que resistem. Ouçam nossas vozes.

“Não sou um ancião e ainda sei pouco. Entretanto, para que minhas palavras sejam ouvidas longe da floresta, fiz com que fossem desenhadas na língua dos brancos. Talvez assim eles afinal as entendam, e depois deles seus filhos, e mais tarde ainda, os filhos de seus filhos. Desse modo, suas ideias a nosso respeito deixarão de ser tão sombrias e distorcidas e talvez até percam a vontade de nos destruir” (Davi Kopenawa, xamã Yanomami).

Ouçam, sintam e vejam o fogo que destrói a flora e a fauna do Pantanal. Não se trata de um fogo natural, que até – em certa medida – revigora a floresta. Esse é um fogo diferente. Ele cala as vozes da ‘Véu de Noiva’ e amplia o barulho das motosserras e da verborragia do evangelismo nos territórios indígenas e também quilombolas. Está tudo relacionado. 

Queimaram a estátua do bandeirante Borba Gato. Depois, disseram que ele não teve tamanha importância na história. Mas deram a ele um monumento que lhe confere uma importância. Queimando essa imagem, dizemos que queremos outra história. Para nós, esse é um fogo legítimo. É um fogo que nos revigora a alma e acende a estrada para seguirmos adiante. 

Na contramão disso, a conjuntura pega fogo com manifestações contrárias ao presidente em exercício, que todos os dias desafia a nossa inteligência num jogo cheio de significados e símbolos de morte. As ruas vazias de uma suposta “terceira via” nos faz pensar em qual projeto político o Brasil está, mais uma vez, apostando.

Na unanimidade contra um governo genocida, queima o fogo da esperança por dias melhores, por comida barata e por dignidade de viver. A radicalidade das mulheres negras é pungente, aquecida por um fogo de justiça e vida que não mais aguenta esperar pelo que virá. Um 2022 que começa agora está se desenhando com a brasa que queimou pneus nas mortes das crianças e adolescentes negros em cada rua das cidades brasileiras.

O nosso anseio coletivo está flamejando em detrimento dos carros de som estridentes dos fascistas que teimam em reivindicar o fim das instituições e a volta da ditadura militar. A única saída, desde que temos consciência racial, é lutar. Lutar e continuar a pressionar uma comissão parlamentar de inquérito que tem tudo para virar fumaça, cinza. Lutar e continuar denunciando os racismos sistemáticos desde dentro das organizações até o racismo que prende os nossos intelectuais, como Raoni Lázaro Barbosa.

Nós, as mulheres negras, propomos botar fogo não só nos racistas e fascistas, mas em toda ideia que nos subalternize, nos diminua e silencie. A nossa intenção continua sendo fomentar desejos coletivos de mudanças radicais, transformações reais que retire do poder os que queimam a nossa imagem e fingem ser nossos aliados, às custas da nossa eterna gratidão e submissão. Fogo, assim como as mulheres e povos indígenas atearam no caixão da morte na frente do Palácio do Planalto. Fogo em todas as regras e planos disfarçados de princípios e políticas desenhadas para nos calar e nos afastar dos espaços de poder. Fogo da justiça.

Sangó, que seu fogo nos aqueça, nos ilumine, nos dê segurança, nos fortaleça e nos una. Sangó nos proteja. 

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Não é de se estranhar, portanto, que crianças negras sejam retratadas pela mídia como “não tão crianças assim”. Entram numa categoria diferente do “ser criança”, assim como mulheres e homens negros são vistos como mais resistentes à dor, por exemplo, meninos e meninas negros são percebidos como pessoas que não necessitam de colo, aconchego, de carinho.