13º Encontro Feminista Latinoamericano e do Caribe

Juntas Blogueiras Negras, Blogueiras Feministas e a Universidade Livre Feminista, estaremos na XIII EFLAC, registrando o momento de diálogo dos diferentes feminismos, das diversas mulheres e suas criações, seus anseios e memórias. Fechando o novembro com esperança, com coragem e outras histórias.

“É em nossos corpos, como primeiro território, onde operam os múltiplos mecanismos de dominação e se evidenciam nossas resistências, a insubordinação, a liberação em ações que conduzem à transformação com justiça e resgate do prazer e da criatividade.”

É novembro. Um tempo turbulento. Dizem que esses dias tem sido regidos por forças da natureza que não poupam os viventes de justiça. Há quem diga que as cabeças e corações precisam se proteger, corpos precisam se fechar.

É novembro. Temos assistido a reações duras no que diz respeito a nossa opinião de mulher negra: falamos de representatividade, de empoderamento e direito aos nossos corpos. Somos tratadas como ignorantes.

É novembro de 2014 e ainda somos retratadas na TV como as mulatas hipersexualizadas ou domésticas resignadas, as “boas selvagens” que precisam ficar gratas e condescendentes ao que o machismo, o sexismo, o racismo e o patriarcado nos oferece em forma de migalhas.

É novembro e nossas mães ainda choram sobre caixões que abrigam corpos negros, exterminados pela política sangrenta do genocídio da nossa juventude, dos nossos Claudias,Davis, DG’s,Geovanes, Joels, Amarildos.

É novembro, mas as campanhas de descriminalização e legalização do aborto se quer mencionam Jandira, Elisângela ou dão voz a tantas outras mulheres negras – que passaram ou souberam de histórias de morte por aborto ilegal, histórias de sofrimento e dor nos hospitais públicos institucionalmente racistas que se negam a tocar nossos corpos.

É novembro e cansamos!

Parafraseando Oléria, precisamos de outras histórias, precisamos de outros sentimentos e sentidos e o faremos. Falaremos!

***

A voz será nossa, a escrita, a memória e os corpos; tudo será nosso e será para agora, pois cansamos da invisibilidade e prisão a que estamos submetidas. Estamos já escrevendo juntas outras possibilidades, produzindo outras imagens, reivindicando nosso direito a vida com dignidade e a saúde dos nossos. E é por isso que estaremos juntas com outras mulheres afrolatinas e caribenhas. Queremos ouví-las e dar voz a suas histórias, suas falas.

O que instantaneamente remete as poesias de Shirley Campbell Barr, as emoções no cinema de Viviane Ferreira e o texto e a fala com o corpo de Vera Lopes: mulheres afrolatinas e caribenhas que fazem seus caminhos, levando junto a memória e vida de tantas outras nós.

O XIII Encontro Latino Americano e Caribenho realizado em Lima clama por novos olhares, novos desafios:

Socializar o poder é o desafio chave para a construção da democracia radical. Aprender a aceitar e a controlar os conflitos,os projetos e as visões discrepantes.

O poder simbólico e o poder concreto. Mas sobre tudo o poder de falar por nós e por isso sermos respeitadas. O poder de construir nosso feminismo diverso, negro e interseccional. O poder de reger nossas ideias e construir a liberdade dos nossos corpos.

Em O corpo negro como local de discurso, Débora Ferreira nos fala que

O corpo negro não é um corpo único, individual, mas sim um corpo participativo, humanitário. (…) Esses corpos negros que, durante o período da diáspora africana, ressignificaram suas tradições levando consigo escritas performáticas, e sendo utilizados como ferramenta e linguagem, tornam-se receptáculo simbólico e expressivo transcendente neste deslocamento

E como tais, reivindicamos a tomada dos nossos corpos negros e invisíveis para nós e os consolidaremos na diáspora como ferramentas de revolução, emprestando às artes, a política e luta nossas expressões.

Juntas Blogueiras Negras, Blogueiras Feministas e a Universidade Livre Feminista, estaremos na XIII EFLAC, registrando o momento de diálogo dos diferentes feminismos, das diversas mulheres e suas criações, seus anseios e memórias. Fechando o novembro com esperança, com coragem e outras histórias.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You May Also Like
Leia mais

28 de setembro, Cortejo da Mulher Negra Morta em Aborto Clandestino – Ato pela legalização do aborto – São Paulo

Nós, feministas autônomas e organizações feministas, convidamos a todas as mulheres e lésbicas a participarem do “Cortejo da mulher negra morta em aborto clandestino”, onde velaremos o corpo que representa todas as clandestinas que abortaram e morreram, desapareceram, foram maltratadas, extorquidas e julgadas. Nosso clima é de LUTO quando nossos direitos são moeda de troca. Portanto, pedimos que venham vestidas com uma roupa que represente luto.
Feminismo Negro
Leia mais

Luíza Mahin: o feminismo negro e o mito

Considerada uma das figuras de maior representatividade na memória do movimento negro, Luíza Mahin – mãe do poeta, advogado e abolicionista Luiz Gama – teria sido uma das líderes do Levante dos Malês, bem como participado de inúmeras revoltas de escravos ocorridas em Salvador nos anos de 1830. Luíza Mahin tem sido exaltada como referencial de luta pelo Feminismo Negro, que lhe tem dedicado homenagens diversificadas nas últimas três décadas, sendo portanto o principal responsável por sua difusão e manutenção no imaginário afrobrasileiro. Como forma de propagar a figura de Luíza Mahin, o Feminismo Negro utilizou inúmeros recursos, entre eles a literatura através de poesias publicadas nos Cadernos Negros e mais recentemente do romance Um defeito de Cor (2006) de Ana Maria Gonçalves. A primeira menção a Luíza Mahin foi feita na carta autobiográfica de Luiz Gama datada de 1880. Em 1933, Pedro Calmon publicou o romance Malês a insurreição das Senzalas situando Luíza Mahin como protagonista da Revolta dos Malês condição pela qual ela passou a ser reconhecida.