As opressões envolvem um olhar sobre corporeidades, tanto no que tange o racial, quanto ao tamanho, “beleza”, performatividade de gênero, mobilidade, etc. O corpo é o elemento visível das identidades e é ele que é alvo das leituras sociais, isto é, interpretações que mobilizam referências ideológicas que foram consolidadas ao longo do tempo em nossa sociedade e que estabelecem uma rede discursiva, historicamente transmitida, que enxerta no imaginário uma série de noções estereotipadas, assim como naturalizadas, através das interações sociais (Costa, 2018, p. 45).
O corpo marca nossa existência no mundo e são inúmeras as violências que recebe. Antes de verbalizarmos qualquer coisa, o corpo já vai dizendo ou sendo lido pelo outro que o vê. Sinistro, né!? Eu, enquanto mulher negra gorda, deparo-me constantemente com leituras que buscam definir a minha saúde, o meu humor, a minha forma de relacionar, por exemplo. Uma coisa é certeira, se eu apresentar um problema de saúde, logo dizem “é porque é gorda”. Se eu como menos do que esperam, assustam, porque isso não condiz com a leitura que se faz de um corpo. Aliás, há espíritos devoradores com shape definido e que têm problemas de saúde que eu nunca tive.
Nas redes sociais, observa-se muito isso. A “opinião” sobre o corpo alheio se manifesta cruelmente nesse meio. Se repararmos, o fato de uma pessoa ser padrão já é o suficiente para ela ter inúmeros seguidores. E o padrão de empoderamento, inclusive o preto, nunca é representado por um corpo fora dos padrões. A dançarina e coreógrafa Thais Carla lançou uma música que fala sobre corpo, algo que não se deve opinar, principalmente quando ninguém lhe pergunta. As críticas que ela recebeu foram em sua maioria gordofóbicas, ninguém sugeriu que ela poderia investir mais em um preparo vocal. Seu corpo foi ironizado, embora a letra da música seja de tamanho bom senso.
As leituras sociais do corpo atrapalham demais a escuta do outro e provocam adoecimentos. Interagir com respeito às corporeidades que se aproximam, talvez, possibilite uma evolução cultural, a nível principalmente de costumes. Não estou querendo, com este texto, oprimir corpos padrões, eles cabem na ideia do diverso. Normalmente, quando as pessoas leem os meus textos, literários ou não, sem conhecer a minha fisionomia corporal e a minha personalidade humorada, imaginam-me de mil modos.
Nenhuma percepção do outro é tão fácil assim, somos sujeitos complexos, nosso corpo é um recipiente de muitas coisas. Precisamos aprender a encontrar o outro às cegas de toda construção ideológica que vise homogeneizar corpos sem a menor intenção de compreender que todo corpo tem sua trajetória que o faz ser da forma que é. Meu corpo, minhas regras, meus sentimentos, minhas possibilidades ou necessidades. Não importa o tamanho, a forma ou a cor, corpos não são objetos, nem abjetos, são algo que não cabe e não é possível de se descrever em nenhum texto que eu escrever. Corpos são múltiplos, assim como as opressões a que estão sujeitos.
Ah, o meu hit para a vida sempre vai ser “SE NÃO É SEU CORPO, VOCÊ NÃO TEM QUE OPINAR”.
