É possível sonhar, seja, deitada na grama ou na cama, degustando o mais saboroso prato, com os olhos fixados ao horizonte, em pé, dentro de um ônibus lotado, tomando um banho gelado, desfrutando de sua própria companhia, de seus próprios pensamentos,é possível pensar em Wakanda.
Do mais simples, ao mais complexo pensamento, nas mais distintas formas, é possível pensar em Wakanda.
Reis e rainhas provavelmente estavam sendo escravizados; mães, mulheres, idosas fizeram-se presente, de corpo e alma. Muitas vezes mais de corpo do que de alma, pois a alma tinha ficado no seu lugar de origem, onde existia e era dada a alegria e felicidade de viver junto aos seus. Homens robustos, grandes aos olhos de Deus e de sua gente, também foram trazidos, anulados, subtraídos de seus povos.
Imagine-se em um porão de um navio por um instante, junto a seus irmãos. De repente, em meio ao frio, ao medo, às doenças psíquicas e físicas existentes, devido à toda uma realidade imposta, da forma mais sórdida e animalesca, você se pega pensando em seu companheiro, em sua companheira, em seus filhos e filhas, em seus descendentes que compartilharam com você as belas horas de sua vida, vividas há tempos atrás, os aprendizados perpassados por gerações, o ponto de luz chamado lua, o brilho do sol, o correr das águas, o pisar na terra, a contemplação e valorização das coisas mais simples que a ancestralidade te ensina e proporciona, em meio a tais pensamentos, é possível pensar em Wakanda.
Perpassa gerações, a “liberdade” (que não é a de Wakanda) vem, mas vem para atender interesses da branquitude, que antes tinha interesses em escravizar, apesar do tempo passar, o sentimento e vontade de escravizar, continua, numa roupagem diferente e atual. Não mais escravizado, oficialmente, não serve mais e fica jogado, sem ter para onde ir, sem começo nem fim, ao Deus dará, à mercê da sorte, ainda com direitos violados. Agora dono de sua própria vida, “desalmada” ou não. “Desalmada”, fala-se devido ao sofrimento entranhado. Essa herança, digo, as cicatrizes, as dores, as perseguições, estendem-se até os dias atuais, regado de muita dor e de um passado histórico, roubado e escondido, propositalmente. A dor é atemporal, os maus tratos, olhares e posicionamentos, também.
Quanto a Wakanda, bem!
O pensamento, por muitas vezes, nos leva ao nosso Wakanda pessoal, nos melhores ou piores momentos de nossa vida, mas a viagem é inevitável.
O sonho coletivo, de um povo que já viveu e conviveu com o chicote, nos faz imaginar uma Wakanda, coletiva, com pilares antirracistas, reconhecendo lugares de direitos a todos, todas e todes.
Sigamos em busca da Wakanda que queremos, porque nós fomos, somos e sempre seremos resistência, em qualquer lugar que estejamos.
Olinda/Pernambuco
