Eu creio ter vivido o dia mais feliz da minha vida estando rodeada de mulheres negras que movem o mundo.
Em 25 de julho, foi Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha. Dia de Tereza de Benguela. A data foi criada em 1992, no I Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, em Santo Domingo, na República Dominicana. O encontro foi organizado pela Rede de Mulheres Afro-Latino-Americanas, Afro-Caribenhas e da Diaspora (RMAAD), a qual Blogueiras Negras faz parte. É válido destacar que a República Dominicana foi palco da primeira revolta organizada de escravizados em 1521.
No Brasil, a data se tornou lei com a presidenta Dilma Rousseff, que sancionou o dia como Dia Nacional de Tereza de Benguela. Líder nata, nosso maior exemplo de gestora do impossível. Tereza liderou o Quilombo do Quariterê, no século XVIII, localizado no Mato Grosso. Foram 20 anos de resistência contra o comando de portugueses e bandeirantes. Quando era impossível se pensar de forma concreta em uma organização fora do engenho, o quilombo mostrou que era possível. Foi possível que a fome de mudança fizesse com que ela liderasse um grupo pelo bem-viver e dignidade da época.
A história de Tereza de Benguela serve de motor para o que nós, movimento de mulheres negras fazemos hoje.
Em 2026, sob os olhos da continuidade
Neste ano, 2026, o dia 25 de julho aconteceu num sábado, dia em que, nas religiões de matriz africana, é reservado às Yabás Oxum, Iemanjá e Nanã. Orixás femininos que representam fertilidade, maternidade, sabedoria, força e estratégia.
O pós-Marcha carrega as simbologias dessas Orixás, quando precisamos pensar no mundo que estamos construindo, os projetos que geramos, a sabedoria das mais velhas que recorremos e a força e estratégia de caminhar e criar dia após dias. O projeto do bem-viver e da reparação é continuidade do que Tereza de Benguela criou para os seus, um local seguro, protegido, gerido coletivamente, sob as bênçãos dElas.
Marcha das Mulheres Negras da Bahia
As mulheres negras do Brasil se organizaram para ir às ruas no final de semana do dia 25. Houveram marchas e eventos em Salvador, no Recife, em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, e nós, de Blogueiras Negras estivemos na Marcha de Mulheres Negras da Bahia. O trajeto feito teve concentração na Praça da Piedade e finalizou na Praça da Cruz Caída, no Pelourinho.
Mulheres Negras que movem o mundo
Eu, Larissa Novaes, que estive representando o BN em Salvador, sinto que minha vida nunca mais será a mesma depois desse dia. Logo pela manhã, antes mesmo de pegar a estrada, já vi o poder de mulheres negras que movem o mundo. Tive alguns percalços até seguir viagem com o grupo que fui, e naquele momento, pude ver a força das mulheres que estavam fazendo o possível e o impossível para que nós pudéssemos viajar. A força era marcada pela fé na coletividade e na importância de nós, mais novas, ocuparmos e fazermos parte dos movimentos. Agradeço, publicamente, à Martha Rosa e Denize Ribeiro.
Ao chegar em Salvador, a energia das mulheres negras já podia ser sentida da Fonte Nova. Ao chegar à Praça Castro Alves e ouvir as vozes dos discursos e gritos de ordem como:
“MULHERES NEGRAS NO PODER
CONSTRUINDO O BEM VIVER”
Era possível sentir um arrepio, graças a energia de revolução que existia naquelas ruas. Mulheres da Bahia, de diversos movimentos juntas, com placas, camisas, adesivos, folhetos, era brilhante assistir as movimentações. Eu queria poder pegar todos os papéis possíveis e ser um grande adesivo humano, pois era tudo muito lindo e potente. Mulheres jovens, idosas e à frente da caminhada, àquelas pelas quais queremos o bem viver: meninas negras. Foi emocionante.
Nós, mulheres negras, somos 28% da população brasileira. Somos a maior parcela. Muitas de nós, chefes de família e presas à escala 6×1. Ao cruzar esses dados na minha mente, pensei: as ruas cheias por mudanças. Nós sabemos o quão nossas rotinas são cansativas, duplas jornadas, correria, mas estávamos lá, nas ruas, acreditando no poder da articulação coletiva. Isso me emociona pois, em muitos momentos, tudo que a gente quer é ficar em casa, dormir até mais tarde, mas nós estávamos lá, marchando por liberdade e dignidade.
Eu creio que esse é o maior sinal de continuidade da luta de Tereza hoje. O que ela sofreu em sua época, nem se compara ao que sofremos hoje, mas ela foi uma líder nata, com maestria, estratégia e força. Hoje, com todas as injustiças que sofremos, vamos à luta e honramos sua memória. Ela fez do impossível, possível e hoje, fazemos o mesmo. O mundo que queremos sempre foi impossível para aqueles que nos oprimem, no entanto, vivemos em outro tempo e passo após passo, caminhamos até ele.
Costumo dizer que não há caminho errado quando se busca o fortalecimento de mulheres negras. O futuro que queremos é coletivo e não há outro possível que não seja esse. Me sinto renovada ao estar ao lado dessas mulheres que movem o mundo e perceber que também movo o mundo. Todas nós, mulheres negras comprometidas com a reparação, o bem-viver e a coletividade, movemos o mundo.
Edição: Larissa Santiago
Arte & Design: Larissa Novaes
