Eu comecei o ano de 2026 decidida de que este seria o ano da colheita. O ano em que eu faria questão de desfrutar, de me permitir viver com mais leveza e, ainda assim, seguir firme no propósito de construir a vida que almejo para mim e para os meus.
Aláfia!
Tive, e ainda estou tendo, um ano de descobertas, desafios, quedas e decepções, mas também de muita proximidade com a minha espiritualidade. De encontro com uma força ancestral que não começa em mim e tampouco termina em mim; uma força que vem do coletivo, das mulheres que vieram antes, das que caminham ao meu lado e também daquelas que ainda nem conheço, mas que, de alguma forma, me lembram que eu não caminho sozinha.
Tenho encontrado pessoas que adoçam o caminho, pessoas que dividem o peso quando a caminhada fica difícil, que ajudam a enxergar a saída quando a gente já não consegue vê-la e que, quando é preciso, estão prontas para guerrear ao nosso lado.
Uma das coisas que mais tenho aprendido neste ano é que a marcha nunca foi sobre caminhar sozinha! Dias atrás, estive em um evento de mulheres negras e comentei com uma amiga: “Quando estou em lugares assim e escuto essas mulheres, eu sinto que posso fazer qualquer coisa! Que sou capaz de realizar coisas imensas!” É significativo olhar pra isso, né?
Quando penso no dia 25 de novembro de 2025, penso em quantas mulheres negras caminharam juntas carregando histórias que eram individuais, mas que, quando colocadas lado a lado, revelavam uma história coletiva. Havia força, havia indignação, havia memória, e havia também desejo… o desejo de futuro, de liberdade, de uma vida em que nós pudéssemos não apenas sobreviver, mas experimentar a alegria de existir.
Quase um ano depois, percebo que continuamos marchando (mesmo as que, como eu, não estavam fisicamente em Brasília). Mas a forma como caminhamos mudou.
Em alguns momentos ao longo desse tempo, marchar foi avançar, foi tomar decisões, ocupar espaços, dizer não, desejar mais, me colocar em movimento em direção à mulher que quero ser. Em outros, marchar foi aceitar que nem toda travessia precisa ser feita correndo. Por isso, foi também reconhecer o cansaço, lidar com frustrações, rever planos e entender que algumas coisas que eu imaginava colher em 2026 ainda estavam sendo plantadas.
Em outros momentos, marchar foi simplesmente não desistir.
Porque nós, mulheres negras, aprendemos muito cedo a seguir, a dar conta, levantar, continuar. Mas tenho me perguntado: o que significa marchar quando continuar não é sinônimo de suportar tudo?
Minha marcha deste ano também tem sido aprender a escolher o que merece o meu esforço. Por isso, quando olho para 2026, não vejo apenas o que conquistei ou o que ainda não consegui alcançar, consigo ver caminhos, encruzilhadas, pessoas, perdas e encontros.
Eu também consigo enxergar uma mulher que ainda está aprendendo a confiar na própria caminhada porque colheita não é apenas o lugar onde chegamos, é tudo aquilo que nos tornamos enquanto caminhávamos.
Edição: Larissa Novaes
Arte: Helida Costa
