À mulher que queria ser branca, aquela que eu fui

Durante muito tempo eu tive tanto medo que não conseguia me reconhecer, me via num ideal embranquecido, que tinha como promessa chegar em um lugar onde tudo seria melhor. E durante toda a minha vida eu só ouvi que ser melhor era ser branco. Ninguém dizia que ser negro era ruim, mas também não era dito nada sobre ser negro. Um silêncio que era quebrado em alguns momentos que tinha um gosto de intimidade. Parecia quase um segredo falar sobre aquilo.  

E naquela época eu não fazia a mínima ideia de que aquilo era uma questão importante e compartilhada por muitas pessoas negras. Sabia que as pessoas negras estavam em um determinado lugar e as brancas em outra e, por algum motivo, eu não podia entrar lá ou se estivesse num espaço branco me sentiria desconfortável, arrancada de um lugar que eu nem sequer entendia direito qual era, eu só sabia que era branco e se é branco é melhor, né? 

E foi assim que durante um tempo eu acreditei que era branca. Nascer no Brasil tendo fenótipos negroides e pele clara me colocou sempre em um lugar violento e confuso. Muitas vezes fui chamada de mestiça, de bugre, de mulata que hoje compreendo que foi formando esse “não-lugar” que fui me inserido – você não é branca, você não é negra. O projeto político de branqueamento no Brasil tinha um objetivo, perdão pelo trocadilho, muito claro.

Em 1911 aconteceu em Londres o Congresso Universal das Raças que reuniu vários países, sendo o Brasil o único país da América Latina, representado pelo intelectual branco João Baptista de Lacerda, que sempre deixou muito claro as suas ideias sobre raça. Na comunicação que fez nesse encontro, entre várias falas eugenistas, Lacerda comemora que o Brasil seria constituído por uma “raça latina” e branca, enquanto as pessoas negras e indígenas iriam desaparecer do país em 100 anos. 

    O discurso eugenista sobre a “raça latina”, vangloriando a ideia de ser mestiço e eliminar pessoas negras e indígenas foi se modificando para a certeza de que somos uma democracia racial. O discurso é sempre impressionante porque, como disse Michel Foucault, ele regula populações nomeando as massas para que seja mais fácil governar sobre esses corpos. E como disse Achille Mbembe, não só regulam, mas também escolhem quem vão matar. Governar é matar, é colonizar e quem tá no meio do tiroteio são as pessoas negras. É mais bonito para cultura brasileira dizer que é todo mundo mestiço, de uma raça só, filhos desse Brasilzão aí cheio de carnaval e samba, mas sem o povo preto. Fica mais fácil matar as pessoas negras se elas nem existem, né? Vida que nem são passíveis de luto porque não são consideradas vidas, como disse a Judith Butler. 

E essa é a ideia que nos afasta da nossa identidade racial, com apagamento, violência e muita morte – é como se não existíssemos. Eu achava que seria aceita se eu me comportasse, me vestisse, mudasse minha aparência, achava que só a partir disso chegaria no ideal prometido sem me preocupar com o fato de que eu sou negra. Tem um clipe do Jay-Z chamado Moonlight que representa um pouco disso, em que fazem uma “versão negra” do seriado Friends, um dos atores se dá conta do que está acontecendo e vai embora do estúdio. 

Essa sensação que relatei aconteceu no dia que li Lélia Gonzalez pela primeira vez, foi numa daquelas tardes ensolaradas do Rio de Janeiro, estava quente demais para estar em casa, mas quando comecei a ler o texto Racismo e sexismo na cultura brasileira, eu simplesmente não consegui mais parar de ler. Naquele momento eu já sabia que não era branca, mas estava em um “não-lugar” que achava que não era algo que precisaria me preocupar no Rio de Janeiro. Eu realmente não entendia direito como o racismo funcionava, eu só achava que entendia. 

Por isso que ler Lélia Gonzalez foi tão importante para mim, ela estava escrevendo sobre a neurose cultural brasileira, sobre o silêncio que eu sempre ouvi sobre a negritude, sobre o quanto esse Outro que ouço na psicanálise é branco, é um homem branco. E nós somos o que? Ela fez com que eu me enxergasse de um jeito absurdo e aos poucos fui construindo um outro lugar para mim, com meu rosto, como marcou a Neusa Santos Souza. 

Lélia Gonzalez pensa no recalque do racismo na cultura brasileira, um recalque que se dá porque há algo traumático que ocorreu. O recalque serve como uma forma de defesa diante dessa grande experiência afetiva e daí que nasce o sintoma. É como se esquecêssemos de lembrar que o racismo existe na nossa sociedade, isto é, pensando a cultura brasileira dentro da neurose como a autora fala, o sujeito neurótico não quer saber, por isso repete seu sintoma e ainda se queixa dele. É nesse sentido que Lélia Gonzalez pergunta o que é que o mito da democracia racial se oculta, para além do que ele mostra. 

Esse texto me desmontou. Não tinha mais condições de ainda acreditar que o ideal era branco, que a brancura era a saída. Por isso, escrevo essa carta para a mulher que fui, a mulher que não queria ouvir o racismo que sofria, que não queria ter que sentir raiva de tanta gente que foi violenta com ela. Eu quase os protegia enquanto eu me machucava. Escrevo essa carta para dizer que você fez o que podia ser feito com as ferramentas que você tinha. 

Escrevo também para dizer que é possível se curar das violências racistas, mas antes disso tem muita raiva. Que Audre Lorde sempre esteve certa, a raiva é uma ferramenta impressionante, que por vezes me impulsionou – não ter mais medo de sentir raiva é um alívio. O melhor é saber que a raiva pode ser combustível. 

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