HARLEM WEEK e a realização do sonho de comer asinhas de frango

Neste segundo texto do especial Convergências Diaspóricas SSA-NYC, Daisy Santos descreve suas observações sobre a 48° edição do HARLEM WEEK, um dos principais eventos da comunidade negra de Nova Iorque.

Recém-chegada em Nova Iorque, peguei o celular e fui fazer o que uma boa cientista social faz: fuçar. Fui ao Instagram e digitei “Harlem” e “Brooklyn”, bairros de Nova Iorque conhecidos por serem de maior concentração de pessoas pretas e, logicamente, focos principais da minha pesquisa neste doutorado sanduíche. E foi assim que descobri o Harlem Week, um evento de final de verão em NYC. 

Segundo o Guia Oficial da cidade de Nova Iorque, o Harlem Week é um festival anual que destaca a rica herança do bairro e as pessoas que chamam esse bairro de lar. O evento, que esse ano ocorreu entre os dias 12 e 21 de agosto, apresentou atrações virtuais e presenciais, mostrando a herança africana, caribenha e hispânica presentes no território. Com o intuito de demonstrar a força econômica, política, cultural e histórica da comunidade, o festival começou em 1974 como Harlem Day. Fomos dois finais de semana seguidos. O primeiro, fomos totalmente sem noção do que encontraríamos. No segundo já fomos esperando muito mais do que encontramos no primeiro dia.

O evento cresceu de apenas um dia, para se tornar um evento de quase um mês, com 10 dias de ações presenciais e virtuais. O tema da 48° edição foi “Inspiração, impacto e legado”. No primeiro final de semana que fomos o evento estava acontecendo no U.S. Grant National Memorial Park, um dos muitos parques da cidade de Nova Iorque. O Central Park, tão conhecido por nós, é mais um no meio de uma multidão de parques (o maior de todos por sinal e o mais turístico). Nesse dia, logo na chegada nos deparamos com uma infinidade de marcas vendendo produtos para pessoas pretas: livros, cosméticos, roupas, acessórios, massagens. E o cheiro das comidas pairando no ar. Foi impossível resistir. Claro que o prato escolhido foi a tão sonhada asinha de frango, acompanhada de batatas fritas e um refresco de frutas vermelhas. Minha gente, que delícia. O paraíso na terra. Tô aqui escrevendo e sentindo o gostinho dessa maravilha em forma de comida. Foi o ponto alto do dia.

O público desse dia era mais velho. Muitos casais, muitas famílias. Muito bom poder ver homens negros de meia idade, com seus cabelos grisalhos, suas roupas esporte fino e seus tênis do Michael Jordan nos pés com suas famílias. Parecia um ponto de encontro, uma forma de encontrar velhos amigos e colocar o papo em dia, com muita música e muita comida. Não vi muitas pessoas comprando produtos, mas a comida vendeu muito e vendeu fácil.  

Em seu livro Listening to Harlem, David Maurasse (2006) fala sobre o Harlem Week: “(…) Ainda predominantemente povoado por afrodescendentes, o bairro ganha vida particularmente no verão. Agosto, na verdade, é conhecida por sua Semana do Harlem [Harlem Week] – uma vez que durou apenas uma semana, agora dura um mês inteiro – quando vários eventos locais trazem os moradores e visitantes igualmente. (…)” (p.06). 

O segundo dia, uma semana após a primeira experiência, foi em uma das ruas principais do bairro do Harlem: na rua 135, entre Boulevard Malcolm X e a 5 Avenida. Assim que descemos do metrô já nos deparamos com um palco onde novos talentos se apresentavam. O festival se estendia por toda rua, com três palcos, vários stands dando brindes e os mesmos stands de produtos da semana anterior. Algumas aglomerações com pessoas dançando ou pulando corda. Uma cena que poderíamos ver no “Todo mundo odeia o Chris” (mesmo a série não se passando nesse bairro) ou no clipe Hold Up da Beyoncé. Um típico dia de domingo no Harlem!

Dois artigos sobre turismo referem-se ao Harlem Week como parte da Política afro-americana para o empoderamento cultural e o empreendedorismo. No seu artigo sobre turismo em comunidades, Lili M. Hoffman afirma que : “Por atores locais, o turismo tem muitas vantagens como estratégia de desenvolvimento, porque combina objetivos culturais e econômicos.” (HOFFMAN, 2003, p.296). Já o artigo de Bert P.Highet e Walter H.Johnson, que traz reflexões sobre a contribuição econômica e de vitalidade trazida pelo turismo para o bairro do Harlem, destaca a importância da ampliação da programação do Harlem Week, que em 1997 passou de um dia, para uma semana inteira. Aquele segundo dia era o Dia do Harlem, o Harlem Day, o que deu origem a todo aquele festival. Por isso, estava completamente lotado.

Apresentações musicais bastante esperadas e muita mais muita gente preta de diversos outros lugares, não só do Harlem. Esse é um festival feito por pessoas pretas, para pessoas pretas e isso ficou muito claro a cada fala dos organizadores, a cada interação com as pessoas na festa e a cada cheirinho de comida de vó que sentimos a cada esquina. Um final de verão definitivamente imperdível em Nova Iorque, difícil de encontrar nesses sites e vlogs de dicas (e nós sabemos porque). Até o próximo encontro do especial Convergências Diaspóricas SSA-NYC!

Me procure nas redes @daisy.osunduni. Quero saber o que você achou!!!

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Para quem se interessar, segue minha bibliografia de apoio para esse texto:

HARLEM WEEK (1996) A tribute to Ron Brown.The Economic Development Conference and exposition, anonymous speaker. Seminars. New York.

HIGHE, JOHNSON, Bert P, Walter H. Harlem—tourism market assessment and potential. Tourism Management. Volume 5, Issue 2, June 2002 , Pages 142-148.

HOFFMAN, L.M. The Marketing of Diversity in the Inner City: Tourism and Regulation in Harlem. International Journal of Urban and Regional Research. Volume 27.2 June 2003 286-99.

HOFFMAN, L.M. (1999), “Tourism and the revitalization of Harlem”, Hutchison, R. (Ed.) Constructions of Urban Space (Research in Urban Sociology, Vol. 5), Emerald Group Publishing Limited, Bingley, pp. 207-223.

1 comment
  1. Que experiência turística maravilhosa. Uma preta, em um ótimo destino para pretos, sendo acolhida por pretos. Quero experimentar também.

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