Não cabe a mim o poder de decidir sobre a união civil igualitária

Na semana passada a Irlanda decidiu, por meio de voto popular, ceder às pessoas de mesma orientação sexual o direito de se casarem. Acompanhem comigo, de forma bem didática: as pessoas que, majoritariamente, possuem uma formação pautada no conservadorismo social e religioso, no preconceito, no etnocentrismo, foram às urnas decidirem por algo que em nada lhe dizia respeito.

Por isso quando alguém me pergunta se eu sou a favor do casamento entre pessoas de mesma orientação sexual, eu respondo sonoramente: Você acha mesmo que eu tenho esse direito? Essa decisão não me pertence. Seria muita pretensão minha achar que eu posso dizer NÃO ou SIM para algo que eu nem deveria ser questionada, que não me é de direito. Afinal, eu, mulher, heterossexual, privilegiada, tenho que direito em decidir o que fazem outras pessoas com suas vidas afetivas-sexuais-financeiras?

O estado deveria implantar a legislação de garantias de direitos e ponto. Essas pessoas deveriam poder se casar e ponto. Elas deveriam poder se beijar em praça pública e ponto. Elas deveriam poder ficar ao lado de suas respectivas companheiras ou companheiros em momentos de internação hospitalar sem passar por constrangimentos e ponto. Elas deveriam ficar asseguradas financeiramente e emocionalmente quando seu companheiro morrer e ponto. Isso, as pessoas heterossexuais, não deveriam ter o direito de decidir, no gozo de suas posições religiosas e preconceituosas, pois isso deveria ser encarado como uma situação intrínseca às vidas de todos os indivíduos sociais, independente do que fazem com seus orifícios ou protuberâncias.

Agora eu, que possuo uma consciência em relação a esses direitos, que ainda não foram efetivados, luto sim lado a lado, para que eles sejam colocados em prática. Mas nunca como protagonista, pois só essas pessoas podem falar por si e de si. A mim cabe, enquanto ser social, entender quais são suas pautas e buscar que todas essas injustiças sociais sejam sanadas. E sobre uma injustiça que um grupo sofre não pode decidir um grupo que não sofre, que é privilegiado, que é aceito, que não tem problema nenhum em exibir “Sua Família de Comercial de Margarina” todos os domingos em locais públicos. É muita pretensão heterossexual achar que pode determinar isso.

A Irlanda, ainda que tenha dado um passo à frente, não escapou de sua formação conservadora, na qual precisa agradar todos, inclusive os ortodoxos, que pensam ou pretendem ter o direito de dizer SIM ou NÃO para o que as pessoas fazem ou deixam de fazer com os seus desejos, planos, sonhos, amores. Pois, para eles, tudo é uma questão de sentar-se em seus imaculados tronos, em posse de ofícios religiosos e legislais, e berrar que são contra esse casamento e que para sempre não se calarão. Eu espero, genuinamente, que a morte nos separe do despautério de gente assim.

 

Imagem destacada: Amor Sapatão Page.

1 comment
  1. Nossa, eu pensei exatamente isso quando vi as notícias sobre o plebiscito na Irlanda. Por que alguém que em nada é afetado por determinada questão tem que decidir sobre ela? E o pior, o direito sobre essa questão já existe e só precisa ser afirmado por meio de decisões políticas, como é por exemplo, o caso das cotas raciais que buscam afirmar o que está escrito na constituição que é a igualdade. A união civil é um direito. Cabe ao Estado apenas afirmá-la para todas as pessoas e não submeter a votações absurdas.
    A nossa mídia fez questão de divulgar essa notícia da Irlanda como um exemplo a ser seguido. Por que será?

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