Rompendo com o pacto racista: Colocando o branco em questão

Levanto pela manhã e sei que sou negra, todos as minhas conversas, apelidos, são fruto da minha identidade de mulher negra, que logo cedo foi despertada, talvez por pensar que todas as minhas memorias são advindas das pessoas que me chamaram de cabelo duro, sarará, ou até mesmo tentaram me elogiar falando que meu cabelo é bonito e exótico. Conclusão, nós negros nunca partilhamos o campo da normalidade, somos sempre apontados como o outro, o diferente.

Sempre somos objetos de estudos, nunca sujeitos, nunca o normal, pois o que é normativo é ser branco, nos deparamos com a ideia de que não ter a pele branca, cabelo liso, olho claro é algo ruim, feio, ou melhor, EXÓTICO, nos somos sempre tidos como diferentes. A branquitude está posta em todas as nossas relações sociais, somente não admitimos que ela exista e que vivemos em um mundo em que compartilhar da branquitude é partilhar de privilégios materiais e simbólicos.

“A maioria dos brancos tem vantagens tanto com a opressão racial quanto com o racismo, pois são os mecanismos racistas que fazem com que a população branca tenha vantagem no preenchimento das posições da estrutura de classes que comportam privilégios matérias e simbólicos mais desejados.” (SCHUCMAN, 2014, p. 61).

Privilégios que estão presentes nas nossas relações cotidianas, pois um homem branco andar sozinho no período da noite não é nada suspeito, mas um homem negro na mesma situação é digno de um constrangimento policial… Outro exemplo em que a branquitude se faz presente, é quando nos deparamos com um morador de rua, branco, de olhos claros e logo nos espantamos em vê-lo naquela situação. Entretanto, compartilhamos da mesma reação quando nos deparamos com um morador de rua negro? Creio que não.

Além de espaços cotidianos, a branquitude se mostra presente dentro de espaços que, pelo menos em tese, são de esquerda, como ocorrido recentemente no ciclo de debates organizado pela editora Boitempo, sobre Violência Policial, tema de extrema importância para o povo preto, tendo em vista que no Brasil 70% das vitimas de assassinatos são negros, mas como na maioria dos debates promovidos por meios academicistas, não houve uma pessoa negra sequer presidindo o debate.

Somos nós que estamos estampados nos índices de mortes por violência policial, somos nós que somos sempre os suspeitos, vivemos submetidos sobre a lei do atira primeiro depois pergunta, estamos sempre do lado anormal da sociedade. Fatos esses que exemplificam a permanência da branquitude dentro de nossas relações sociais.

Assumir que a branquitude está posta em nossas relações, é trazer à tona construções históricas que se tornaram normativas, é tentar destruir preceitos escravistas. Não se limpa a sujeira jogando a por debaixo do tapete! Não se rompe com o pacto racista sem colocar o branco em questão, sem que esses assumam que partilham de privilégios, e busquem desconstruí-los .

Referências:

BELCHIOR. Negros são 70% das vítimas de assassinatos no Brasil, reafirma Ipea. Disponível em: <http://negrobelchior.cartacapital.com.br/2013/10/18/negros-sao-70-das-vitimas-de-assassinatos-no-brasil-reafirma-i>. Acesso em: 24 jul. 2015.

SCHUCMAN, Lia. Entre o encardido, o branco e o branquíssimo: branquitude, hierarquia e poder na cidade de São Paulo. 1°.São Paulo: Annablume, 2014. P.192.

Imagem destacada: Blog Frya Skédnis

4 comments
  1. Certa vez escutei que não se discute racismo com branco, e sim com negros. Pois o nero que precisa saber que ele irá sofrer sim discriminação, várias injustiças ao longo da vida, todavia ele pode ser o que quiser! Deve lutar pelos seus direitos. Porque “branco” nunca sofreu nada por isso esse assunto RACISMO não lhe compete. Mas lendo esse texto vejo que é necessário conscientizá-los da condição que eles vivem, e da diferença gritante entre a condição de vida deles e do negro. É necessário despertar um novo olhar, criar uma corrente onde negros e brancos lutem juntos pelos seus direitos.

    1. Obrigada, Rosângela pela reflexão feita sobre o texto, e partilho também da mesma opinião que vc, temos que conscientizar os nossos e lutar por nos, pretos e pretas , mas os brancos tem também a tarefa de assumir e tentar desconstruir o pacto racista.

  2. Excelente análise, só faltou explicitar que a falsa democracia racial ou cordialidade entre as raças sustenta este pacto racista. Não se pode falar da branquitude como dominador que logo há a inversão de papeis de oprimidos passamos para o lugar de opressores quando problematizamos o racismo.

    1. Obrigada Rosa, pela contribuição, coloquei a questão da branquitude e principalmente de se assumir que partilhar da mesma, é partilhar de privilégios, com intuito de expor que assumindo a branquitude e tentando desconstruí- lá, é um grande passo para romper com o pacto racista, não menos prezando as outras esferas que alimentam esse pacto como vc mesma citou, foi apenas uma forma de discutir essa esfera de maneira um pouco mais aprofundada.

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Diametralmente oposto a esse padrão aceitável se encontra, por lógica, o corpo negro. O corpo negro, seus traços, sua genética, seu fenótipo e a infantil tentativa de negar a construção social que tem o gosto. Somos, todos nós – negrxs e brancxs – expostos desde crianças a propagandas, programas infantis, desenhos, revistinhas em que predomina um padrão de beleza europeu. “Gosto não se discute” porque a mídia já deliberou sobre ele por nós, apresentou-o e nós, como o esperado, compramos não só o gosto mas também o slogan. Continuemos sorrindo!