Sobre Falas-belas de Lucinda, sexo, as negas, corações e suburbanos

 “Vem ser meu folclore, vem ser minha tese sobre nego malê.”¹

A série Sexo e as Negas estreou essa semana, mas críticas se anteciparam à transmissão do primeiro episódio em decorrência do seu caráter evidentemente racista e machista. Se sentindo acuado, seu autor, Miguel Falabella, resolveu se pronunciar sobre a polêmica e conseguiu deixar ainda mais evidente porque uma discussão sobre o programa havia sido iniciada tão antecipadamente: cometeu uma série de contradições e ratificou todas as críticas recebidas (veja aqui). O corporativismo das classes artística e empresarial, jamais permitiria que ele enfrentasse um turbilhão de questionamentos sozinho, quanto mais quando a acusação é de racismo. Nesse ínterim, eis que surge Elisa Lucinda com seu texto Coração Suburbano (veja aqui).

A Folha de São Paulo quando fez o seu anúncio contra as cotas, o fez a partir de uma mulher negra. Ao racismo não faltam estratégias para se perfazer e perpetuar, uma deles é criar um ponto de conflito, desestabilizar nossas relações internas pra legitimar seu discurso em cima de nossa suposta fragilidade orgânica. Elisa é o ponto do dissenso da vez, eles sempre escolhem um. Se não fosse ela, seria outra. A frustração é por ter sido escolhida justamente a mulher que escreveu o poema Mulata Exportação. Mas como eu disse, ia ser alguém. Em algum momento iam escolher quem provasse (como se fosse um fato) que nós estamos perdidos na discussão racial e feminista.

O que tenho a dizer é simples: NÃO, NÃO ESTAMOS!

Diante da dinâmica dos contextos históricos e conjunturas político-sociais, no máximo podemos ter dificuldade em especificar demandas e eleger prioridades, mas se tem uma coisa que bem sabemos é O QUE NÃO QUEREMOS. E não queremos a perpetuação da lógica ultrajante da objetificação, seja no conteúdo ou apenas na embalagem.

Fomos acusados de oposição ao desconhecido. Ledo engano. Primeiro por que isso não nos é tão desconhecido assim. O fato de não termos assistido ao programa e desde já tecermos críticas não foi mera leviandade, justifica-se precisamente pelo arcabouço simbólico que ele carrega, arcabouço este que nos remete a tudo que nos espezinha desde sempre. Segundo por que a Rede Globo de Televisão e a tão enaltecida experiência de Falabella, não permitiriam um conteúdo tão discrepante da embalagem, a não ser que fosse proposital,  com intuito eminentemente crítico e politizado, o que não acredito ser possível sair da cabeça de um homem que passou anos mandando Magda calar a boca e dizendo que odeia pobre. “Ahh, mas era caricato…” Era! E isso não reduz sua nocividade, talvez até a potencialize.

Não sei de que lugar Elisa está falando, causar essa confusão também é importante para que ela seja o fidedigno ponto de dissenso por que eles lhe atribuem uma identidade e nós tendemos a não reconhecê-la. Diante dessa minha limitação em reconhecer de onde ela fala, também não entendo como ela pode reduzir toda a discussão suscitada a apenas duas questões: mercado de trabalho e senso de humor.

Quanto ao mercado de trabalho, todos nós concordamos que há poucos/as negros/as na televisão, muito menos em situação de protagonismo. Entretanto, e, ao contrário do que ela disse, há muito não estamos silentes a esse respeito. Não sei por onde ela anda nem que viseiras a tem impossibilitado de notar nosso descontentamento. Afora essa realidade óbvia, afirmo categoricamente o desserviço de Miguel Falabela: não queremos sair da invisibilidade para a exposição aviltante. É, não só irritante, como lesa nossa dignidade, essa mania de sempre falar como quem está nos fazendo um favor que não pedimos. Aconselho a Lucinda resgatar sua fala-bela em Mulata Exportação:

“Não vai ser um branco mal resolvido

que vai libertar uma negra:

Esse branco ardido está fadado

porque não é com lábia de pseudo-oprimido

que vai aliviar seu passado.”

Agradeceremos!

Se o coração do Loiro Importação fosse, de fato, suburbano, faria a coisa certa: construiria uma dramaturgia isenta de estereótipos ou estigmas e que, além de continuarem nos massacrando, já estão retrógrados e enfadonhos. Se não quer fazer pelas mulheres negras, que faça por ele, pelo seu ego, pela sua carreira: SEJA CRIATIVO, FALABELA!!!

Quanto ao senso de humor, insisto na criatividade, reitero que essas piadas já não tem graça e, para além disso, só permanecem sendo contadas por que há uma naturalização dessas ofensas. Estamos sisudas, sim, Elisa! Não estamos mesmo achando graça de muita coisa. Não estamos também tendo uma regressão na discussão da liberdade sexual. Temos plena consciência da autonomia dos nossos corpos e isso engloba a nossa independência dos valores moralistas e conservadores, nosso empoderamento nos permite viver, também no sexo, quaisquer relações que pretendamos. O problema é caricaturar, criar moldes duros e estáticos acerca disso. O PROBLEMA NÃO É O SEXO, o problema é esse processo de naturalização de que somos e devemos continuar sendo SÓ O SEXO e o nosso sexo ser sempre mercantilizado.

Em últimas observações, sou obrigada a destacar um detalhe que não é tão detalhe assim: Falabela em seu texto se compara a Spike Lee² e Elisa no dela nos compara a Ku Klux Klan³. Isso é só pra ressaltar, mais uma vez, que ela foi escolhida para ser o ponto de dissenso: típica jogada ensaiada. Por isso mesmo, não entraremos nesse jogo, não vamos desvirtuar a discussão, não vamos mudar o alvo das críticas.

Todas as minhas pedras continuam voltadas pra ele. Não ignoro o papel a que Elisa está se prestando, mas estou focada nele e na deslegitimação do programa, não vou centrar nela nem em nenhuma outra mulher negra que venha a ser escolhida como testa de ferro.

O coração de Miguel Falabela ainda é muito príncipe dinarmarquês* para alcançar uma realidade Cordovil.

 ¹Elisa Lucinda em Mulata Exportação

²Cineasta, escritor, produtor e ator negro norte-americano.

³Organizações dos Estados Unidos que apoiam a supremacia branca e o protestantismo.

*Bordão utilizado pelo personagem Caco Antibes, interpretado por Miguel Falabela no extinto programa Sai de Baixo.

Imagem: Ana Thaís Oliveira, Designer Gráfico, Salvador-Bahia. Boicote ao programa “Sexo e as Nega” da Rede Globo.

2 comments
  1. O triste disso tudo é que por falta de oportunidades e tendo que “pagar as contas” grandes atrizes brasileiras negras ainda se submetem a fazer papel de empregadas domésticas nas novelas dessa rede de tv nefasta (em alguns lugares apelidada de rede gloebbels). Dois exemplos recentes: a excelente cantora e atriz Eliana Pittman numa novela juvenil do ano passado; outra grande cantora e excepcional atriz Zezé Motta numa novela que ainda que está no ar no momento(setembro/2014). Ainda mais a Zezé que tem histórico de luta no movimento negro. Os jovens que assistem essas novelas não tem idéia da história dessas mulheres na cultura brasileira. Esse nosso Brasil tem me deixado muito triste

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