Tintas negras nos escritos de liberdade

Trecho de uma entrevista originalmente publicado=a em “Tintas negras nos escritos de liberdade” em Dossiê Temático “Ecos das narrativas: ego-história e biografias intelectuais – um repertório de (das) historiadoras negras no Brasil (1990-2020)”.  Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as).

ABPN – Seus estudos sobre as escritas e intelectuais negros e negras são referências. Você poderia falar um pouco sobre a construção deste objeto e estrutura da sua pesquisa?

Acho importante registrar que minha maneira de analisar as experiências articuladas de intelectuais negros e negras muito tem se valido de pesquisas anteriores focadas em boa parte dos indivíduos específicos presentes nas minhas narrativas. A maneira de reconhecer os sujeitos pesquisados muda, mas inegavelmente alguns deles já eram nossos velhos conhecidos. Na tese que, assim como a dissertação, virou livro, o conteúdo foi organizado em oito capítulos, distribuídos em três partes, orientadas a partir de recortes cronológicos. Essas divisões remetem a estratégias metodológicas e narrativas, que podem ajudar a responder à pergunta.

Na primeira parte “Entre nós e laços”, concentro-me em episódios da vida de Ferreira de Menezes, Luiz Gama, José do Patrocínio e Machado de Assis, passados majoritariamente até o início dos anos de 1880 e que ilustram as conexões diretas e indiretas existentes entre eles e outros sujeitos negros integrantes de uma abrangente rede de atuação política e cultural. As fontes utilizadas nos quatro primeiros capítulos permitem perceber o quanto essas trajetórias não foram necessariamente excepcionais, mas que se tornaram possíveis, até mesmo, em virtude da convivência entre indivíduos com perfis e trajetórias semelhantes, ainda que repletas de especificidades.

Eventos transcorridos ao longo da década de 1880 se tornaram assunto da segunda parte, “Livres e pela liberdade em tempos de incerteza”. No quinto capítulo, retomo o debate sobre a Revolta do Vintém como porta de entrada para as formas de participação das populações pobres e negras livres nas disputas políticas a partir do final da década de 1870. Há também ali uma observação sobre como a questão da raça era politizada positiva e negativamente naqueles anos finais da escravidão a partir das experiências dos indivíduos pesquisados. O sexto capítulo é dedicado a pensar a pluralidade do movimento abolicionista, dando-se destaque à atuação articulada de abolicionistas negros, tanto em defesa da liberdade dos ainda escravizados quanto a favor do respeito à cidadania de homens e mulheres “livres e libertos de cor”

Por sua vez, a terceira parte “Sonhos de ordem em meio à desordem” é voltada às questões do pós-abolição. Os dois capítulos incorporam lances das trajetórias de Ignácio de Araújo Lima, Arthur Carlos e Theophilo Dias de Castro − continuadores negros da ação abolicionista de Luiz Gama e envolvidos na publicação dos primeiros jornais da imprensa negra de São Paulo −, enquanto, por certo, os passos de Machado e Patrocínio seguem sendo acompanhados. Para tanto, a existência de um conjunto de organizações político-culturais negras criadas, em ambas as cidades, entre os anos finais da escravidão e que alcançaram o avançado dos anos 1890; e os esforços para o exercício do direito político do voto promovidos por cidadãos negros e pobres paulistanos na Primeira República servem como um subsídio a mais para a discussão.

Ao promover esse percurso, penso ter demonstrado que, indo de encontro às cotidianas práticas de “preconceito de cor” e apostando na viabilidade de seus próprios projetos individuais, os sujeitos centrais da narrativa da tese/livro não apenas colaboraram para as discussões travadas em jornais diários, abolicionistas, negros, literários, como também protagonizaram a criação de mecanismos e instrumentos de resistência, confronto e diálogo, o que pode ser entendido com uma dinâmica peculiar de “politização da cor”, como observou Hebe Mattos durante sua arguição à tese.

Nesse e em outros trabalhos, tenho feito um esforço de pensar a liberdade negra como porta de entrada estratégica para a historicização do racismo na sociedade brasileira. A escravidão explica muito das dinâmicas de exclusão, mas certamente não explica tudo o que foi vivido no século XIX. Da mesma forma que a classe não é uma categoria que permite pensar toda a complexidade das relações de trabalho remunerado no pós-abolição.

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