#ArmadasDeInformação: luta, legado e combate a violência no mês de março

Escrever no dia 14 de março significa falar de uma perspectiva muito importante para nós Blogueiras Negras, como algo essencial, parte de quem somos e como pensamos o mundo em um momento em que pessoas negras de toda a diáspora estamos empenhadas em afirmar nossos territórios de vida.

Muito foi feito para que no dia 8 de março de 2013, Larissa Santiago (e em seu nome agradecemos a todas as mulheres que construíram e constroem esse espaço) fosse a primeira de nós a se colocar como expressão de uma voz que sempre se pensou coletiva, atraída pelo desejo de estarmos juntas e motivada pelas datas de 8 e 21 de março como Dia Internacional da Mulher e Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial.

E se pensamos nos meses de trabalho que imediatamente precederam essa publicação, também temos em mente o trabalho de gente anônima que construiu nossas estradas, trabalharam em « casas de família », repartições públicas, escolas, nas roças e nos igarapés, tocando e ouvindo tambores. Em respeito também àquelas que pavimentaram e pavimentam o caminho, dentro e fora das universidades, em aliança contra o racismo, (cis)sexismo, classismo e violências afins.

Hoje, em que a execução de Marielle Franco completa um ano e exigimos ações e respostas e responsabilidades, também lembramos os 105 anos de Carolina Maria de Jesus (Sacramento, Minas Gerais) e Abdias do Nascimento (Franca, São Paulo), nascidos em um sábado do ano de 1914. Trajetórias que se cruzam e dialogam, através de sua escrita e seus pertencimentos, projetos de mundo.

Gente que se colocou de pé, com olhar para um futuro que não foi interrompido pelos 13 disparos de fogo, pelas políticas públicas de morte, um insistente e presente histórico de violência que se materializa agora em diversas frentes, como a flexibilização do porte de armas através do Decreto nº 9.685, por meio de uma assinatura.

Agora, praticamente qualquer pessoa pode ter acesso a arma no território nacional no campo, nas áreas urbanas de Estados cuja taxa de homicídios seja superior a 10 por 100 mil habitantes, militares e agentes públicos da área de segurança ativos e inativos, quem é dono ou responsável por estabelecimentos comerciais ou industriais e colecionadores de armas, atiradores e caçadores registrados. Sem a necessidade de renovação de registro por dez anos.

O que isso significa numa sociedade que pune os corpos e mentes dissidentes, que trata a vida como dispensável, que se alimenta do racismo e do (cis)sexismo, que nos mastiga segundo as lógicas capitalistas enquanto esfarela direitos que ainda precisavam se tornar abrangentes? Os números que temos apontam muito mais que uma franca tendência, atualizam práticas violentas de ordem racista, machistas, predatórias sob todos os aspectos.

Um sistema que devora, cospe e excreta a nossa vida.

Não por acaso, 70% de mulheres não quer mais armas, junto com 61% de toda a população.

É com esse olhar que as Blogueiras Negras em parceria com Instituto Patrícia Galvão, Marcha das Mulheres Negras de São PauloMídia Índia, Ação Educativa e Nós, Mulheres da Periferia construímos a campanha #ArmadasDeInformação que acredita na produção e circulação de conhecimento e informação como instrumento de luta, à exemplo de Carolina, Abdias e Marielle.

Mas também inspiradas no trabalho de Olivia Oliboni e toda sua reflexão sobre as travestis armadas « para proteger as mana tudo ». Lembrando que a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) na diretoria de Keila Simpson Sousa denuncia que 163 pessoas trans foram assassinadas no Brasil em 2018. Uma breve pesquisa em qualquer buscador revela uma realidade assustadora. O transfobia mata, em muitos casos, com uma arma de fogo e punho.

Temos denunciado historicamente a morte de gerações por sua existência dentro e fora dos lares, nas praças públicas e virtuais, nos espaços de poder que decide como a história é contada e por quem, quem vive e quem pode ser condenado a uma cidadania inconclusa e pedem para ter paciência, Nina Simone.

Como fazer isso diante de notícias tão assombrosas sobre a execução de Marielle, aquela que em primeiro lugar é de significado e presença para sua família, seu território, mas também para todas nós mulheres negras? Que tem sido alvo de expoliação, através da venda de sua imagem e do desrespeito com a dor da família Franco? Como não se indignar com a falsidade e cinismo de parlamentares escrotos que seguem fazendo carreira em cima de um assassinato de mulher negra?

Quem mandou matar? E a quem interessa responder essa pergunta? Como? Quando? Quem herdará cada risada e comentário de ódio escrito sobre seu legado? Quem mais?

« A flexibilização da posse de armas poderá impactar diretamente a vida das mulheres indígenas por meio das violências cometidas contra nós historicamente, nas invasões dos territórios indígenas e na agressão cometida na cidade. As mulheres indígenas ficarão mais vulneráveis à  violência cometida por não indígenas, ou mesmo nas próprias aldeias, pois pode ser associada ao uso de bebidas alcoólicas e de armas. », coloca em perspectiva Márcia Mura, liderança Mura e doutora em História Social.

Considerando apenas aquilo que acontece entre «quatro paredes», os  números elencados pela campanha Armadas de Informação, apoiada pelos Diálogos Nórdicos, refletem a ponta do iceberg – « 4.645 mulheres foram assasinadas no Brasil em 2016, uma taxa de 4,5 homicídios para cada 100 mil brasileiras. Os dados revelam ainda o peso do racismo estrutural: uma diferença de 71% entre a taxa de mortes de mulheres negras (5,3) e a de não-negras (3,1) », segundo o Atlas da Violência de 2018 elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

E o que dizer do vizinho que agora grita dizendo que sua irmã deve apanhar por viver sobre o mesmo teto que seu agressor? Se ele tivesse uma arma, ainda que « bem » intencionado, como terminaria essa discussão? E mais, quando ouvimos a ameaça de que mais uma será morta, ecoa bem baixinho uma cortante pergunta: Como? Quando? Quantas hoje, agora?

Hoje temos poucas respostas.

Mas seguimos como aqueles que vieram antes de nós e escrevemos. Quando em amor, quando em revolta e levante, quando em paixão, quando em saudade e lamento. Até mesmo em silêncio. 

Queríamos ter escrito sobre muitas coisas, mas agora… Veio a emoção.

Que a escrita seja informação, formação. Que a gente também possa banhar nossas armaduras com o amor uma das outras, como aquelas que mesmo de longe fazem toda a diferença em dias tão atribulados. Que a escrita seja registro, seja sentimento de alegria mas também de raiva quando preciso. Que seja amor para todas as que precisam, que diante de tanta tristeza ainda encontram forças para serem por todas as demais. 

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