Política e afetividade: a importância das relações de irmandade na sobrevivência das mulheres negras

Se é verdadeiro que nada fazemos sós, qual é o papel dos grupos e coletivos na manutenção da existência saudável e verdadeira de suas/seus componentes? Penso que, se é necessário que se pense e atue em grupo para a existência dos coletivos, é também função coletiva apoiar, dar suporte e encorajamento às diversas necessidades pessoais apresentadas pelas pessoas que constroem e compõem essa coletividade. Vou me ater especificamente à necessidade de apoio afetivo nas relações de construção política entre mulheres negras.

Por Raíssa Gomes para as Blogueiras Negras

Existir coletivamente dentro de espaços políticos é uma necessidade dentro dos espaços de militância dos mais diversos segmentos. A máxima de que não se faz nada sozinho é verdadeira dentro dos espaços de luta social. No entanto, algumas separações entre o pessoal e o coletivo tornam difícil a coexistência da intimidade e a sororidade nas lutas. O pensamento liberal de que o “pessoal e profissional não se misturam” muitas vezes é realocado para os grupos de resistência, mas como podemos resistir enquanto grupo se não pudermos existir enquanto pessoas?

Se é verdadeiro que nada fazemos sós, qual é o papel dos grupos e coletivos na manutenção da existência saudável e verdadeira de suas/seus componentes? Penso que, se é necessário que se pense e atue em grupo para a existência dos coletivos, é também função coletiva apoiar, dar suporte e encorajamento às diversas necessidades pessoais apresentadas pelas pessoas que constroem e compõem essa coletividade. Vou me ater especificamente à necessidade de apoio afetivo nas relações de construção política entre mulheres negras.

O mundo todo passa, nos últimos anos, por discussões relacionadas à chamada humanização das relações. Isso passa pelo atendimento em Saúde, Educação, pelas relações de trabalho e tantas outras. Humanizar é, como o próprio nome diz, enxergar o paciente, cliente, colega de trabalho, estudante e professor como ser humano, carregado de todas as suas humanidades.

Como se humanizar e humanizar a outra coletivamente quando temos nossa humanidade negada e renegada diariamente pelo racismo e pelo sexismo? Mais do que um desafio, essa me parece uma necessidade premente para a nossa sobrevivência. Amar e enxergar como irmã e humana outra mulher negra é a corrida em busca da reconquista da nossa própria autoestima e amor.

O afeto e, principalmente, as relações de amizade não me parecem coisas postas e dadas a priori. Suavizar diante das demandas diárias, das lutas, dores e dissabores da existência enquanto mulher negra é necessário. Não como uma forma de entrar num mundo de Poliana que não nos coube nem cabe, mas como uma forma de construir uma outra realidade propositiva, positiva e plural, que tanto queremos e desejamos. Deste modo, existir enquanto grupo afetivo é resistir politicamente.

O aquilombamento de mulheres negras não é novidade. Desde que nos constituímos nas mais diversas sociedades, boa parte delas com atribuições definidas a partir do sexo feminino ou masculino, a união entre mulheres existe.

Como estamos ou não estamos transferindo essa prática para a realidade de agora? A partir de quais pressupostos? Ainda carregamos conosco o apreço pela existência plena e feliz das nossas companheiras de caminhada?

Sou feliz em dizer que ainda que sejamos poucas, espalhadas e muitas vezes não saibamos da existência de todas nós, de grão em grão, de espaço em espaço estamos caminhando na construção de uma coletividade feminina, negra e afetiva.

Meu agradecimento às Pretas Candangas, que me abrem, diariamente, a perspectiva de sermos mais por sermos juntas.

Ubuntu!


Por Raíssa Gomes, integrante do Pretas Candangas, coletivo de mulheres negras do DF.


Acompanhe nossas atividades, participe de nossas discussões e escreva com a gente.

RssGrupo de discussãoPágina no facebookTwitterGplusEmail

You May Also Like
Leia mais

Ah, sim, dentro da caixa? Uma banana!

Mas eu nasci machista? Não. Ninguém nasce machista. Antes eu era até bem crítica. Eu posso ir até onde minha memória consegue se lembrar de quando eu era criança, e dizer que nem sempre minha visão foi assim esquisita. Ela foi moldada por uma concepção machista não só de mulher, mas de ser humano mesmo. Eu sentia calafrios quando alguém, mecânica e originalmente, completava com um infame “cravo e canela?” quando eu respondia que meu nome era Gabriela. A parte de mim que se encantava momentaneamente por ser comparada a uma personagem de novela sorria e dizia, meio sem graça, “sim!”.