Isto é apenas o começo. Naomi Ndifon fala sobre os protestos na Nigéria.

A grande mídia no país não está cobrindo o que acontece na Nigéria, por isso é tão precioso ouvir você.

Blogueiras Negras – Muito obrigada por seu tempo conosco. É muito importante para nós conversar com mulheres fora do país, especialmente na África. A grande mídia no país não está cobrindo o que acontece na Nigéria, por isso é tão precioso ouvir você. Nós sempre começamos pedindo para que as mulheres nos contem quem são. Então, você poderia nos contar por favor que é Naomi Ndifon is? Poderia nos dizer sobre a cidade onde vive, sua família e experiências?

Naomi Ndifon – Obrigada por me receberem. Fico feliz que vocês estejam interessadas em chamar a atenção para nossos problemas. Isso é tão importante. Bem, eu sou Naomi Ndifon e sou uma feminista de 20 anos, escritora, aspirante a bióloga de dados, basicamente uma mulher multifacetada. Eu sou da Nigéria, cresci em várias cidades aqui, mas atualmente moro em Abuja (a capital) com meus pais. Tenho uma dinâmica familiar muito interessante, tenho 4 pais; 2 pais biológicos e 2 padrastos com uma grande família expandida espalhada por todo o mundo. Gosto de pensar que sou globalmente cercada por muito amor e apoio. Crescendo, nunca tive que me sentir de escanteio por causa do meu gênero. Sempre disseram às meninas da minha família que podíamos ser o que quiséssemos e nossos sonhos foram apoiados. Acho que isso realmente cimentou a base da minha jornada feminista.

Blogueiras Negras – Você poderia nos contar o que é são os protestos #EndSARS e porque isso é uma questão importante para a sociedade Nigeriana hoje? O que a brutalidade policial tem a ver com as mulheres nigerianas? Como vocês estão lutando contra a violência policial?

Naomi Ndifon – Os protestos #EndSARS organizados ao redor do mundo são em grande parte lideradas pela juventude porque é a população mais jovem da Nigéria que é gravemente violada pela unidade SARS. Homens e mulheres jovens são perseguidos, extorquidos, presos ilegalmente por acusações tiradas do nada e, na maioria das vezes, até assassinados por esses policiais. No início desses protestos, quando histórias foram compartilhadas e casos levantados novamente, um vídeo antigo de uma garota de 21 anos vítima da brutalidade da SARS ressurgiu no Twitter. Aos 17 anos, ela foi apanhada com outros transeuntes na estrada (outro exemplo de simplesmente existir naquele espaço e naquela época) e transportada para a estação SARS onde foi acusada de assalto à mão armada e passou 3 anos presa por alguma coisa sobre a qual não sabia nada. 3 anos de tortura. 3 anos de tratamento impensável. 3 anos de agressão sexual. E essa é apenas uma história em um mar de milhares de histórias de vítimas.

Todos nós sabemos como o estupro e o assédio sexual são facilmente usados como arma e, especialmente contra  mulheres, esses policiais não perdem tempo em empregá-los para mostrar poder e controle. As mulheres nigerianas lutam constantemente contra o assédio sexual e o fato de que esses policiais encarregados do dever de proteger se converterem em perpetradores de violência sexual contra as mulheres é, honestamente, muito frustrante.

Ao longo dos anos, aprendemos a usar também as mídias sociais como ferramenta para aumentar a conscientização e exigir justiça para esses casos. Um mês atrás, quando Ifeoma Abugu, uma mulher de 28 anos foi levada da casa de seu noivo em Abuja por agentes da SARS para ser detida, estuprada e assassinada, as feministas nigerianas no Twitter estavam na linha de frente da ação. No ano passado, também tivemos 65 mulheres presas pela polícia durante uma operação e elas foram espancadas e assediadas. Alguns também foram estupradas. A partir da ação nas redes sociais, as mulheres também foram para a rua, revoltadas contra o tratamento desumano que recebem e, posteriormente, levando o governo a agir. Os crimes contra as mulheres são, infelizmente, banalizados na Nigéria, mas as mulheres nigerianas perceberam o poder da mídia social na promoção de justiça e mudança e temos usado isso incessantemente. Agora, com o movimento #EndSARS, não estamos apenas fazendo campanha online, mas temos levado pessoas às ruas em massa.

Blogueiras Negras – Você escreveu um texto muito importante, publicado pelas Black Woman Radicals (Mulheres negras radicais, em tradução livre) sobre as mulheres Nigerianas e a SARS. Você também salientou o papel de mulheres com e sem nome liderando os protestos. Gostaríamos de perguntar o que é a Coalizão Feminista e o que jovens feministas nigerianas estão pensando, fazendo e dizendo para o mundo.

Naomi Ndifon – A Coalizão Feminista foi formada em julho de 2020. É um grupo de jovens mulheres nigerianas apaixonadas por lutar pela igualdade e pelos direitos das mulheres em todas as áreas da vida nigeriana. Antes do nascimento da Coalizão Feminista, é importante notar que as mulheres jovens nigerianas, especialmente no Twitter, têm falado muito sobre as injustiças contra as mulheres. Em um país profundamente patriarcal e religioso como o nosso, onde as vozes e opiniões das mulheres são negligenciadas, é verdadeiramente revolucionário como estamos usando a mídia social como uma ferramenta para amplificar nossas vozes. Como era de se esperar, isso vem com muita reação e rotulação de misóginos – de serem chamadas de “Filhas da Desobediência” a serem chamadas de “Bruxas em um coven”. Mas isso nunca nos deteve e nunca nos deterá. 

A Coalizão Feminista como organização entrará para a história da Nigéria pelo papel fundamental que desempenhou no movimento #EndSARS. As pessoas estão começando a ver o verdadeiro poder das mulheres. Estão começando a compreender a necessidade das mulheres se infiltrarem nos espaços políticos e influenciarem a formulação de políticas e reformas constitucionais. Estão vendo o que as mulheres com voz alta e influência podem mobilizar em tempo real, e isso nos dá esperança, não apenas como mulheres, mas também como nigerianas. E tudo isso começou com as feministas no Twitter.

Blogueiras Negras – Você pode nos dizer quais mulheres são referência para sua luta por direitos? Além dos protestos #EndSARS, quais outros temas mobilizam as feministas Nigerianas?

Um dos pilares do movimento feminista nigeriano é a muldialmente aclamada autora e feminista, Chimamanda Ngozi Adichie. Mesmo antes de as mídias sociais se tornarem uma ferramenta para feministas, Chimamanda falava abertamente sobre as questões relativas à igualdade para as mulheres. Para a maioria de nós que lemos seus livros enquanto crescíamos, foi a primeira vez que nos representadas na nossa literatura. Foi a primeira vez que pudemos nos relacionar totalmente com personagens que não apenas se pareciam e falavam como nós, mas também experimentaram as mesmas coisas que aqueles adolescentes de cabelos louros e olhos azuis nas histórias de Mills e Boon. Portanto, Chimamanda sempre foi uma parte significativa de nossas vidas, desde a infância e agora na idade adulta como feministas. Entre os muitos nomes que jovens feministas nigerianas foram rotuladas, ser chamadas de ‘Filhas de Chimamanda’ é definitivamente um símbolo de honra para nós.

Além disso, antes de #EndSARS, tínhamos também #MeTooNigeria, #SayHerNameNigeria, #ChurchMeToo, #MarketMarch e #StandToEndRape. Estes são apenas alguns movimentos importantes contra questões de agressão / assédio sexual e violência de gênero contra tantas mulheres nigerianas. Tanto online quanto offline, continuamos a chamar a atenção para esses problemas. Estamos dizendo que basta e lentamente mas certamente chegaremos a um ponto em que os crimes contra as mulheres não serão mais banalizados mas receberão punições adequadas.

Blogueiras Negras – Muito obrigada por conversar com a gente. Esperamos continuar esse diálogo. Nossa última pergunta é sobre os coletivos feministas em seu país. E como é importante quando falamos sobre os protestos #EndSARS e o combate à pandemia,

Naomi Ndifon – Temos também a Stand To End Rape Initiative por Ayodeji Osowobi – outra das fundadoras da Coalizão Feminista. Esta organização tem sido inabalável em sua defesa contra a violência sexual e também oferecendo suporte à sobreviventes de violência sexual.

Estes são apenas alguns exemplos e, como você pode ver, seus fundadores também ampliaram seu impacto na mobilização de recursos para os protestos #EndSARS por meio de sua participação como membros da Coalizão Feminista. Usando sua plataforma e influência, eles falaram, forneceram assistência e financiamento e trabalharam incansavelmente para sustentar esses protestos e também dar a eles a atenção mundial de que precisam. Os protestos #EndSARS podem ser atacados pelo governo, mas a Coalizão Feminista e todos esses coletivos de mídia nos deram suporte e um vislumbre de como seria um mundo governado por mulheres. Isto é apenas o começo.

Blogueiras Negras – Obrigada Naomi. E antes de terminarmos, deixa pra gente suas redes sociais, assim a gente acompanha suas discussões. Obrigada!

Vocês me encontram no Twitter como @siije_ e no Instagram como @siije__

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