Nunca vivemos em uma democracia racial

… e não podemos agir como se estivéssemos em uma. A compreensão da racismo como algo estrutural é fundamental para agirmos de forma organizada: não apática, individualizada ou puramente moralista. Não precisamos de mártires pela causa, precisamos estar vivos.

Nas últimas semanas tem circulado nas mídias e estarrecido muitas pessoas acontecimentos que não trazem novidade para quem de fato vive ou acompanha os dilemas das relações étnico raciais brasileiras. Os casos de assassinatos de João Pedro, George Floyd, Ágatha Félix e Marcos Vinícius, se interligam também as razões dos 80 tiros em Evaldo Rosa, ao assassinato de Marielle Franco, “sumiço” de Amarildo, suicídio de Demétrio Campos e a Pedro Henrique estrangulado por segurança de supermercado. O mesmo motivo do tiro na nuca de Josué Nogueira, de 16 anos. É também o que fez unir grupos de mulheres chamadas “Mães da Baixada” e “Mães da Maré”, que tiveram seus filhos assassinados pela violência policial. O mesmo motivo que fez Rafael Braga e Rennan da Penha serem presos e que acarretou a negligência na morte do pequeno Miguel (5 anos). Se relaciona também as centenas de denúncias de fraudes das cotas raciais das universidades federais. E ainda, as motivações que fazem a população negra encabeçar as piores estatísticas de índices relacionados a desigualdade social, encarceramento em massa, acesso a serviços básicos de saúde, moradia, educação, alimentação e lazer.

A surpresa e choque de alguns é que agora está sendo filmado e divulgado nas redes sociais, mas a explicação de tudo isso é o fenômeno histórico do racismo estrutural.

Falamos aqui de racismo estrutural por compreender as relações raciais não sob a ótica de ações puramente individuais, desvio de caráter ou uma patologia. Nem mesmo como algo novo dessa geração: é uma violência sistêmica (1). O racismo estrutura todas as esferas de funcionamento da sociedade (instituições, economia, política, cultura) desde a invasão dos portugueses no nosso país. Manifestando-se para além de constrangimentos individuais e/ou coletivos: age diretamente no extermínio da população negra, desigualdades sociais e epistemicídio (2).

Por epistemicídio falamos aqui de um assassinato da cultura e psiquê afro-brasileira e africana. Se configurando na prática pela negação de sujeitos negros da condição de produtores de conhecimento: desvalorizando, negando, marginalizando e ocultando suas produções em prol do embranquecimento cultural. O epistemicídio se estabelece como um dos instrumentos duradouros da dominação étnica/racial e prol da legitimidade das formas de conhecimento eurocentrado. O que é preciso ressaltar desse fenômeno, é da impossibilidade de desqualificar a produção de conhecimento sem anular também os indivíduos, ferindo a autoestima e suas relações sociais. O que ocorre é a destituição do sujeito negro da racionalidade, como se fosse um ser não pensante ou incapaz de se organizar sozinho ou de se manter (produtivamente ou intelectual) sem a adoção de um conhecimento “legítimo”. Esse é um braço fundamental a se pensar o racismo estrutural.

É esse racismo estrutural que fez uma blogueira branca de classe média alta nos últimos meses reproduzir o discurso em suas redes sociais (com alcance milhões de seguidores) dizendo que “o racismo só existe porque são os negros que mais cometem crimes e por isso, ser ‘normal’ as pessoas teme-los”. Esse tipo de fala (com argumentos distorcidos) não é uma novidade.

Os discursos racistas sempre foram embasados por teorias pseudo-científicas de eugenia e darwinismo social, fundamentando a crença de uma superioridade daqueles sujeitos que mais se aproximam (fisicamente e intelectualmente) aos europeus. A partir disso, necessitando silenciar, desapropriar, marginalizar e até mesmo dizimar “O Outro” (3). A concepção que temos de raça como categoria social é construído por um sistema político-econômico exploratório que categoriza sujeitos para viver e deixar morrer (negando acesso a questões básicas de sobrevivência) ou o próprio extermínio direto.

Mesmo com a luta travada por movimentos negros nas esferas públicas, jurídicas e educação, o racismo ainda está enraizado na mentalidade popular e nas instituições devido a sempre reinvenção desse sistema a fim de manter as estruturas de poder e hierarquias sociais. Os atos racistas que estampam notícias e manchetes não são exceções, eles confirmam a regra que estrutura o sistema em que vivemos.

Nunca vivemos em uma democracia racial.

Compreender as relações étnico raciais no Brasil é compreender nosso histórico de formação, relações econômicas, políticas e por fim sociais. Só a partir daí seremos capazes de medidas efetivas para a justiça social e mudanças nas estruturas sociais no país.

Esse processo de compreensão passa por escuta, estudo e leitura. Escuta no sentido de conversar e ouvir nossos mais velhos, nossa ancestralidade. E isso não resume apenas escutar acadêmicos ou letrados, mas aquelas que como meu avô diz “foram formadas pela escola da vida”, que precisaram criar estratégias próprias de sobrevivência e acesso dentro de uma sociedade extremamente racializada, que a cor da pele antes de qualquer coisa é um fator determinante.
Ressalto também, a importância de leituras e estudos. A importância disso é no sentido de contextualizarmos e situarmos todo o percurso já percorrido por pessoas negras organizadas, pelos movimentos negros do nosso país. Isso evita a reprodução de falas como “o movimento negro do Brasil é desorganizado, só o dos EUA que é efetivo” ou então a crença de que somos “pioneiros de tudo”. Ora, para estarmos aqui hoje, lendo esse texto e escrevendo, é graças aos movimentos negros. Desde aquele lá de 1930, com a Frente Negra brasileira, trabalhando na educação da população negra e acesso a bens de serviço e saúde. Ora também o movimento negro da década de 70, fazendo critica direta ao sistema autoritário, capitalista e do racismo da sociedade. Reivindicando espaço curricular na educação básica e ensino superior que tratasse das questões afro-brasileiras e africana. Reivindicando também as ações afirmativas nas universidades para uma reparação histórica e inserção da população negra nesses espaços predominantemente brancos.
É de se citar ainda o movimento das comunidades, bairros, favelas e barracões de escolas de samba que diariamente estão na linha de frente assegurando o direito a vida, valorização da nossa cultura, infância das nossas crianças e questões básicas de sobrevivência de toda a comunidade.

Compreendendo todo esse movimento empreendido pelos nossos, enxergaremos um horizonte de luta e acolhimento. Sei e já vivi o momento agoniante, desolador e revoltante do “despertar” da consciência racial. E se ver sozinho. Como se tivesse com um fardo nas costas. Procurar os seus e se organizar canalizando todas essas dores e revoltas é muito mais efetivo para o coletivo do que atuar sozinho. Até porque não precisamos mais de mártires negros morrendo. Precisamos acima de tudo estar vivos.

Por isso, é incentivar a organização nos espaços que estivermos. Nas escolas, no ambiente de trabalho, na nossa casa, bairros, faculdade… incentivar a leitura de teóricos negros, assistir canais de youtube e discutir aquela produção, filmes… e por fim pensar como podemos agir dentro das nossas condições e situações que vivemos

Nunca vivemos em uma democracia racial. Constatando isso e sabendo que tudo que temos hoje é fruto de luta dos nossos, precisamos agir.

 ALMEIDA, Silvio Luiz de. RACISMO ESTRUURAL. São Paulo: Pólen, 2019.

CARNEIRO, Aparecida Sueli. A CONSTRUÇÃO DO OUTRO COMO NÃO-SER COMO FUNDAMENTO DO SER. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.

MUDIMBE, V. Y. A invenção da África: gnose, filosofia e a ordem do conhecimento. Lisboa: Mangualde (Portugal), Luanda (Angola): Edições Pedago; Edições Mulemba, 2013 (or. 1988).

Imagem destacada – OPSEU

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