Os mais lidos de 2019: estamos só começando!

Chegou o fim de ano e, mais uma vez, a gente começa as celebrações a edição dos textos mais lidos do ano como a gente tem feito desde 2013.

Em novembro, completamos 7 anos, reunidas e sempre construindo “informação para fazer a cabeça”. Em 2012, o blog ainda não estava no ar, mas os trabalhos já eram feitos nos bastidores desde novembro. Por isso, estaremos em celebração até o 8 de março. E vamos estender a coisa toda até julho de 2020, por que somos dessas! Se a gente tivesse que começar hoje, escolheríamos essa data para publicar nosso primeiro texto.

E se existimos, é porque caminhamos junto ao movimento de mulheres negras. Foram essas mulheres que dedicaram seu tempo e seu pensamento tornar o acervo de Blogueiras Negras uma realidade – mesmo diante de um contexto que atualiza e remixa as facetas mais perversas de uma sociedade escravocrata, machi-racista e elitista interessada apenas em seus privilégios e lucros.

O ano não foi fácil.

Perdemos numerosas batalhas e, mais uma vez, contamos nossos mortos. No momento em que escrevemos esse texto, os 80 tiros dirigidos à família de Evaldo dos Santos Rosa estão sendo usados para incriminar a vítima. Ao todo, foram 257 tiros que traduzem com exatidão como pensa uma branquitude que nos vê como descartáveis e nos quer mortas.

Durante o ano todo, estivemos empenhadas em debater os mais diversos aspectos do genocídio de nosso povo. Desde a bala perdida seletivamente apontada para nós nas artes, nas ciências, na representação de nossos corpos, nos espaços de poder, nas prisões e até mesmo na luta feminista. E acima de tudo, apontada para cada uma de nós, mulheres negras, como corpos subalternizados, minorizados, destituídos de humanidade.

A LISTA

Como sempre, a lista não apresenta os textos em ordem de visualizações. Está tudo embaralhado. Foram selecionados os 20 textos mais lidos no ano de 2019 e, junto com eles, pensando em nosso objetivo de discutir a escrita como Autonomia e Memória, indicamos outras autoras que ao longo de nossa caminhada dialogaram com os temas da lista que juntas, construíram um acervo com mais de 1.300 textos.

E, enquanto a gente aguarda as #25WebNegras com as mulheres que abalam as estruturas por onde passam, queremos agradecer a todas que estiveram conosco esse ano, lendo, compartilhando, comentando, escrevendo e construindo narrativas de um mundo diferente. Sem vocês, nada.

AGORA BORA AOS #MaisLidos2019

O coletivo Antropólogas Negras apresentou a “Moção de Antropólogas Negras e antropólogos negros apresentada à Associação Brasileira de Antropologia – ABA durante a 31ª Reunião Brasileira de Antropologia”, exigindo sua publicação nos anais do evento, além da “criação de um Comitê Permanente de Antropólogas Negras e Antropólogos Negros dentro desta associação”. O que dialoga com a necessidade de enegrecer a ciência, como afirmou Jenifer Novaes num país em que, somente em 2013, teve sua primeira reitora negra, Nilma Lino Gomes, destaque de Bia Cardoso.  

Adriana Rosa escreveu sobre a “Maternidade Negra: uma questão de amor e resistência” e a experiência de um parto em família e como o racismo será o maior inimigo de nossas crianças. E como devemos estar atentas para todos os dias fazer diferente. Para Mariléa Almeira e Maria Fernanda Dias é preciso construir “um tipo de amor que nos permite voar” afinal “mães também são mulheres”.

Em “Mulheres negras na Arte, Embranquecimento e Redenção de Cã”, Nathália Ferreira reflete sobre como “histórias, representações do cotidiano e de momentos singulares de negros e negras na América dependeram das mãos e olhos de outrem”. Ela dividiu com a gente um exercício na disciplina Leitura de Obra de Arte no curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Pernambuco, em que apresentou a mais célebre obra de Modesto Brocos (1852-1936). Aproveitamos para te convidar a ler também como Suzane Jardim relaciona a obra à maternidade e Aline Djokic fala sobre a construção de um homem branco feito à imagem e semelhança de deus.

Os violentos discursos sobre a miscigenação e o embranquecimento também foram objeto de análise de Nayara Khaly em “E eu, não sou brasileira?” enfatizando que comentários sobre mulheres negras de pele escura não tem nada de inocentes, gerando reflexos sobre as políticas emancipatórias afirmativas como as cotas e a extinção dos corpos negros como pensaram Deloíse Jesus e Elisangela Lima.

A discussão sobre arte e a tradição de uma representação racista do corpo negro segue com Sthefany Duarte em “Artistas negros na teledramaturgia: uma breve análise”, falando sobre a Bahia branca de Segundo Sol cujo elenco contava com apenas cinco atores negros e Verão Noventa, com o reforço de estereótipos. Para Thiane Neves Barros “não há romance no racismo”, muito menos nas novelas de época.

Em “A Lacradora : Como imagens de controle interferem na presença de mulheres negras na esfera pública” Winnie Bueno enegrece como Patricial Hill Collins pensa “as imagens de controle se diferenciam das noções de representação e estereótipo a partir da forma com que a mesmas são manipuladas dentro dos sistemas de poder articulados por raça, classe, gênero e sexualidade”, com grande impacto na vida de mulheres negras na esfera pública. Essas imagens são centrais como a própria Winnie Bueno já havia denunciado antes, delineando espaços de poder como escreveu Carolina Santos Pinho.

O mesmo acontece na História. Um dos exemplos disso é a escrita de Andressa Duarte que retoma “Lanceiros Negros e a Tradição dos Porongos”, discutindo a invisibilidade desses heróis negros que nunca são exaltados no dia 20 de setembro quando é lembrada a Guerra dos Farrapos ou Farroupilha e na “na história e cultura do Rio Grande do Sul”. O mesmo indagou Letícia Maria ao se perguntar de quem é essa memória. E com a referência do corpo da Mãe Preta em São Paulo, Heloisa Rosa nos chama para discutir a representação, patrimônio e memória.

A invisibilidade e o controle de imagens tem reflexos inclusive no encarceramento da população negra, como vimos em “A prisão como fronteira: uma conversa sobre gênero, globalização e punição”, texto de Angela Davis e Gina Dent originalmente publicado na Revista de Estudos Feministas. O tema também foi tratado por Aline Silveira e Dora Santana falando sobre a invisibilidade de mulheres negras encarceradas no Brasil e o “trans feminismo abolicionista encarnado” respectivamente.

Maria Teresa Ferreira refletiu em “Mulheres Negras: a curva fora do ponto” como à nós mulheres negras “foi negada a história, o protagonismo, a força de nossa ancestralidade, o poder de nossas vozes e a beleza de nossos corpos.” E agora que a sul-africana Zozibini Tunzi se tornou a Miss Universo e o carnaval vem chegando, sempre é bom lembrar o que nos disseram Dandara Barbosa e Naiara Mascarenhas e Mara Gomes à respeito.

Em “#21DiasDeAtivismo: não queremos virar semente”, Yane Mendes dá o papo reto: e questiona quem romantiza a morte de mulheres negras, sem se perguntar como sua contribuição racista e capitalista ajudou a apertar o gatilho que matou Marielle Franco. Como mostra Andreza Delgado, o problema atinge a casa dos milhões e precisamos pensar a relação entre a mulher negra e o genocídio, como fez Gabriela Gonçalves.

Carla Souza vai ao ponto em “Numa sociedade racista, não basta não ser racista é necessário ser antirracista” ao falar sobre o genocídio da população negra em lembrança a Pedro Gonzaga, cuja morte foi silenciada durante um protesto por uma placa do #LulaLivre. Não cabem pedidos de desculpas, como escreveu Mônica Gonçalves.

A Rede de Ciberativistas Negras com trabalho de reportagem de Viviane Gomes e edição de Larissa Santiago falou sobre como a atmosfera política afeta as mulheres negras em “#21DiasDeAtivismo: a violência que ameaça a fé”, através da criminalização de nossos atos litúrgicos tendo como argumento uma errônea compreensão das religiões de matriz africana e da defesa dos direitos animais. O que por sua vez colabora com um vertiginoso aumento dos crimes tipificados como intolerância religiosa. Monique Britto também denunciou a verdade sobre os ataques contra o abate de animais nos cultos religiosos como racismo religioso.

A lista desse ano tem uma dobradinha com a autora Juliana Costa, também precisamos refletir sobre “BRANQUITUDE E FEMINISMO: O VÍCIO DO UNIVERSALIZANTE” e “WHITELÂNDIA ACADÊMICA, FAÇO-LHES O CONVITE PARA ESTA REFLEXÃO” defendendo “a inserção das teóricas feministas nas ementas das disciplinas sobre gênero nas universidades” e refletindo sobre a “manifestação feroz da whitelândia acadêmica”. A sociedade brasileira precisa responder ao apagamento de mulheres negras como Virginia Leone Bicudo, como escreveu Juliana Bartholomeu num texto que se aproxima daquele de Vanessa Cândido sobre Zora Neale Hurston.

E nesse ano, após um hiato nas publicações de alguns meses, o Blogueiras Negras publicou o “Manifesto por um feminismo negro autônomo e coletivo” iniciando um novo ciclo de atividades que pensa o binômio Autonomia e Memória. É hora de questionar sobre qual feminismo estamos falando e nos perguntar quantos e de quais feminismos estamos falando, como bem afirmaram Neon Cunha e Dheik Praia.

Para Caroline Anice “O feminismo que liberta” tem a dimensão do cuidado e do coletivo que se concretiza na construção de um novo mundo como pensa Luiza Nascimento Braga, porque ainda é 13 maio como escreveu Hebe Mattos num texto originalmente publicado em Conversa de Historiadoras.

Emanuelle Goes falou sobre a interseccionalidade através da importância de olharmos nossas mais velhas de fato em ”Interseccionalidade no Brasil, revisitando as que vieram antes”, falando de mulheres como Sueli Carneiro e Jurema Werneck que “introduziram novos desafios teóricos, metodológicos e políticos, explicitando diferenciações na identidade das mulheres e nos fatores de subordinação aos quais estamos submetidas”. E a gente lembra também de nossas meninas e sua participação nas ocupações estudantis como disseram Nênis Viera e Valeria Martins.

Para Mariana Santos Assis em “Voltando pra casa para finalmente construir um lar” é preciso compreender o que a palavra feminismo diz em sua essência, falando sobre  Beyoncé a partir de um ponto de vista otimista e ao mesmo tempo crítico. E a gente aproveita para relembrar o dia em que descobriram que a cantora é negra e capitalista e como Lemonade também é sobre as mulheres trans por Katucha Bento e Maria Clara Araújo respectivamente.

O horizonte é onde lutar e continuar, em  “Lendo mulheres negras – Uma experiência revolucionária” de Patrícia Anunciada, é fundamental. Seguimos à margem, com nossos saberes “sub-representados em manuais escolares e em eventos literários em geral”. Seguem as indicações de leitura de Ana Carolina Lourenço e o questionamento de Graziely Lemes sobre a escrita de mulheres negras lésbicas.

Terminamos essa lista com outra lista, porque a gente gosta e vocês também das “10 GUERREIRAS NEGRAS PODEROSAS QUE MARCARAM A HISTÓRIA” que nos inspiram nessa jornada como Blogueiras Negras. Nem todas estamos comemorando o Natal, essa data tão contraditória. Mas no dia de hoje gostaríamos de te convidar para mais um ano e mais outro e mais outro. Estamos apenas começando.

E você faz parte disso.

Obrigada.

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