Preta, escute aqui!

Não se acanhe, se chegue e me ouça, vamos conversar.
Não, preta, tu não estais incomodando.
Aqui também é teu lugar. Pode chegar, vai sentando.
Não se assuste com as luzes, elas já irão sossegar.

Eu te vi lá, tão quieta a me olhar.
Eu trouxe essas luzes. Pode tocar, alegre tu ficará.
Te vejo chorando. Me diga, preta, o que há.
Te ouço, mas me recuso a aceitar. Para de se depreciar!

Tu vens me explicar, com pétalas a dedilhar. Olhe pra ti! Quão suave tu és.
Tens tanto a carregar, mas não queres parar. Olhe pra ti! Quão forte tu és.
És assim, tão cores pra mim. Tente enxergar, há luzes em ti.

Venho te explicando, mas não há como sussurrar.
Preta, escute aqui! Eu vou falar, quase que gritar.
Eu prometo ficar, se tu prometeres não te machucar.

Imagem destacada – Pinterest / @kiranewsome

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Dessas narrativas, permanecem as formas de poder e como elas se instalam em todas as relações humanas. Achei muito semelhante à perda da identidade do negro no Brasil, que teve por consequências a invisibilidade da mulher negra e um racismo sempre latente, nunca explícito. Ao mesmo tempo, há resistência, quando os personagens buscam o conhecimento ancestral das tribos para resolver seus problemas, e uma sensação no leitor de que existe algo errado a todo o tempo, para além da guerra e da violência. Se você é uma mulher negra, talvez seja possível se encontrar em cada uma das personagens e, ao mesmo tempo, em nenhuma.