Você não pode fazer por menos?

A resposta é não. Eu não posso fazer por menos. Olhem para trás, mulheres negras, e tentem contar as vezes que vocês sorriram diante de um branco que só dizia obviedades. Quantas vezes vocês foram silenciadas quando citaram suas ideias sem dizer nada sobre vocês? Quantas vezes vocês correram pro banheiro do trabalho para chorar ou tiveram vontade de arremessar o celular longe por um comentário opressor contra vocês? Quantas vezes o trabalho de vocês foi tido como opinião; um achismo sem valor? Quantas vezes você percebeu olhares desconfortáveis porque falou o que era absolutamente óbvio e necessário num evento?

Tenho visto e vivido isso aí. Vou citar um caso como exemplo. Fui ver o jogo do Flamengo num bar aqui perto. Ao ar livre. Bem afastada das pessoas, com minha própria cerveja. É óbvio que tinham pessoas conhecidas e ficamos orbitando duas mesas. 

Entre um gole e outro minha máscara caiu no chão. Droga. 

Um homem branco se aproximou e disse: 

Você tem outra máscara? Essa caiu. Você não pode usar de novo. 

Eu disse, de longe, que não tinha outra máscara, mas que já estava indo pra casa e ia usar parte da minha blusa como máscara. 

Eu estava bem humorada. 

O homem não ficou satisfeito e disse eu não avaliava o perigo da minha volta pra casa sem máscara. Sério, deve ser menos de 100 metros. 

Mas, ok, concordei com ele. Disse que realmente era um risco mas que o risco que eu estava correndo ali era o mesmo que ele também estava. 

Ele insistiu. E finalmente disse que eu não menosprezava a Covid. 

Três vezes? Pediu música, né? Eu canto e danço.

Comecei do fim para o começo. Disse pra ele que eu perdi três pessoas próximas e dois parentes e ficaram muito doentes, sendo um deles hospitalizado e entubado. Disse também que minha mãe foi em férias para Fortaleza, em janeiro, e ainda não conseguiu voltar porque está com medo de viagens aéreas. 

Pedi ajuda dos Orisá e passei um mês inteiro chorando, rezando, pedindo e ajoelhando porque eu já tinha perdido uma tia em fevereiro.

Para visitar o meu pai, idoso, tenho que vestir uma capa de plástico, usar máscara e touca, além de trocar de sapatos. Portanto, sim, eu sabia exatamente quais riscos estava correndo e, mais, não eram tão diferentes dos riscos que ele também corria. Achava que ele tinha que olhar para ele e se enxergar. 

Perguntei se ele andava com uma máscara sobressalente. Mandei ele se enxergar. 

Por fim, respirei fundo e perguntei se ele precisou da Covid para saber que a gente não deve colocar na boca o que cai no chão. Aprendi isso desde muito cedo. Na verdade, uma das primeiras lições da minha vida. Não precisei de uma pandemia para aprender tal fato. Se manca, idiota. 

Então, um amigo perguntou se eu não podia fazer por menos porque eu estava sendo muito grossa. Disse pra ele que eu não podia deixar por menos porque eu vivia sendo obrigada a deixar por menos naquele e em muitos outros espaços. Eu tentei desviar dele três vezes. 

Daquela vez, não ia deixar por menos. 

Por que a gente ainda tem que fingir idiotice, e arrumar a bagunça dos brancos racistas? Não me peça para distribuir sorrisos num evento sobre exploração sexual. Não tem graça nenhuma. Qualquer um com o mínimo de empatia, sabe que o assunto não é agradável. Então, não dá pra ficar mostrando as canjicas dessa forma, tá bom? Ofende.

Não dá pra falar sobre ser aliada de quem te manda mensagem de trabalho às 23 horas e se diz antirracista. É opressor!  

Não dá pra rir ouvindo sobre turismo de favela. Será que ninguém percebe que são os novos zoológicos humanos? Ninguém tá vendo isso? Até que ponto vale o dinheiro que se ganha com essa atividade que objetifica pessoas e territórios? Eu me lembro de Bacurau e fico só aqui aguardando o comando do levante.  

Como os brancos conseguem colocar umas ideias na nossa cabeça que só nos enfraquecem? Faz sentido uma pesquisa de 2020 considerar negros como minoria? Inferno, só pode ser fruto do debate sobre colorismo. Faz sentido questionar a classificação de raça do IBGE? O censo de 1976 contava com 170 classificações de raça/cor. A gente só teve avanço porque a gente é maioria. 

Negro ou preto? Porrannnnn! Orgulhe-se do movimento negro e das conquistas que ele te trouxe. Lute por direitos e não para acabar com eles. 

Faz sentido a perifa cobrar infraestrutura de internet e correr para usar o pacote diferenciado que dá acesso ao Whatsapp e ao Facebook de graça? Ninguém tá vendo que a infraestrutura tá na mão das empresas de telecomunicações e que as teles dominam a política e o meio empresarial? Ou seja, a Oi não é sua amiga. Acorda! 

Faz sentido, a gente lutar pela liberdade de expressão de “O Globo”? Pelo amor de deus, gente. Ele que lute! 

Faz sentido, negros pobres comprando o discurso do patrão de si mesmo? Tipo: “Agora, eu trabalho pra mim mesmo”. E sai orgulhoso montado em sua bicicleta!!!!! A gente sabe que o precariado está aí. A gente sabe que quem não tiver MEI não vai conseguir trabalhar. Mas a gente tem que tensionar o mínimo. Ninguém tá vendo isso? 

É a mesma coisa com projetos sociais. A gente sabe que é assim e que tem que dançar conforme a música. Mas não dá pra negar o incômodo de ser obrigada fazer uma reunião pra dizer pra funcionária preta que o comentário da diretora não foi racista. Além disso, essa parte eu até acho graça, quando as instituições pedem a contribuição social do MEI. Como se fosse o direito trabalhista, sabe? Férias, 13°. Aqueles que possuem ou usufruíram desses direitos são os primeiros a dizer que isso acabou. Acabou, mas eles aproveitaram, né? A gente, não. A gente vai ver nosso corpo ser moído numa outra escravidão em que a gente vai morrer de trabalhar com sorriso na boca, virando avatar do Facebook. 

Eu me lembro – como se fosse ontem – a escassez de financiamento para organizações de base comunitária sob o argumento que a democracia estava consolidada com a eleição de Lula. Ninguém viu que a democracia sucumbiu? 

A gente tem que deixar de ser trouxa! Eu não consigo mais deixar por menos.

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