#25WebNegras Tradições Imateriais AfroBrasileiras

Tradições imateriais afro brasileiras, algumas reconhecidas como patrimônio, outras que ainda lutam para serem reconhecidas como um legado a ser salvaguardado. Aquilo que fazemos quando estamos com as nossas, que nos ensinam e ensinaram as nossas mães e que nos resguardam em tempos sombrios como os que vivemos agora.

Chegamos a 2022, esse ano que já se mostra tão desafiador.

Nossas crianças ainda não estão vacinadas e as populações periféricas negras agonizam pelo efeito conjugado do descaso político e a mudança climática que assola estados como Bahia, Pará, Minas Gerais. Do outro lado da moeda, o acesso à agua é estrategicamente pensado para garantir o privilégio de alguns. Em solidariedade, restamos “nós”, essa rede que nos interliga à solidariedade preta que se estrutura para além de qualquer diferença política quando nenhuma outra ajuda é esperada.

Em contrapartida, a grande preocupação da branquitude é o cancelamento da temporada de cruzeiros, enquanto o presidente acintosamente passeia de jetski em Santa Cantarina, sem qualquer interrupção de suas férias. O que aconteceria somente alguns dias depois, curiosamente, para cuidar de uma obstrução intestinal, decorrência da tal “facada”, que ainda mobiliza seguidores.

Nós daqui, seguimos ciosas de nosso trabalho como comunicadoras, sobretudo, agora, em pleno ano eleitoral. Por isso, todos os anos, temos nos esforçado para construir a lista das #25WebNegras. Esse quadro, já trouxe a lista das 25 webnegras 2013: As mais influentes, 25 webnegras 2014: Listão, 25 webnegras 2015: De olho no futuro, 25 webnegras 2016: Que ano senhoras, 25 webnegras 2017: Juntas somos mais, 25 webnegras 2018: Um projeto de civilização está em marcha, 25 webnegras 2019: Ori é o nome da história e finalmente 25 webnegras 2020: Não vamos parar.

Agora, nossa nona lista reverencia mulheres do ano de 2021 que atuaram pela guarda e difusão de tradições imateriais afro brasileiras, algumas reconhecidas como patrimônio, outras que ainda lutam para serem reconhecidas como um legado a ser salvaguardado. Aquilo que fazemos quando estamos com as nossas, que nos ensinam e ensinaram as nossas mães e que nos resguardam em tempos sombrios como os que vivemos agora.

Saudaremos também os saberes indígenas, tão próximos daqueles negros, que atravessaram o Atlântico em nossos corpos sequestrados. Lembrando que partilhamos a luta pela terra e pelo reconhecimento de nossa humanidade.

Antes de começar, gostaríamos de compartilhar o quão tem sido deliciosa e ao mesmo tempo desafiadora construir nossa querida lista. Sabemos que muitas mulheres ficaram de fora, o que não é, em nada, de nosso agrado. Por isso, nos esforçamos para que ela seja o mais diversa e representativa possível, se é que isso é possível quando reunimos mulheres dessa monta.

Pedimos de antemão que você colabore com a lista, pois estaremos atentas à quaisquer correções e adições que se façam necessárias. Uma vez que nem sempre todas as informações sobre essas mulheres estão disponíveis, contamos com você para nos ajudar com essa tarefa.

No mais, muito obrigada por mais um ano de compartilhamento dessa lista com você. Uma lista que revela nossa vontade de irmos além e, ao mesmo tempo, explicita nossas limitações, por exemplo, todas as pessoas nessa lista são mulheres cisgêneras. Notem que, em sua maioria, foram reconhecidas tardiamente – o que entra em descompasso com uma estatística alarmante que caracteriza nosso país – a baixa expectativa de vida de mulheres travestis e trans e os incontáveis transfeminicídios que assolam o país.


Ricardina Pereira da Silva, São Félix, Bahia

Ricardina Pereira da Silva conhecida como Dona Cadu, nasceu em 14 de abril de 1920 – praticamente nos anos que seguiram a falsa abolição. É Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Recôncavo, herdeira de conhecimentos que atravessam a história de sua família. Sua atuação é ampla, sendo, ao mesmo tempo, uma importante liderança comunitária, sambista, rezadeira e ceramista, agregadora de conhecimentos ancestrais reunidos ao longo de sua vida centenária com que o mundo foi abençoado. Você pode acompanhá-la pelo instagram como @donacadu e saber mais sobre a agenda do Samba de Roda Filhos de Dona Cadu.

O Samba de Roda do Recôncavo Baiano foi reconhecido como patrimônio imaterial somente em 2004. Quer saber um pouco mais? Não deixe de ver Mulheres do samba de roda, o legado das rodas.


Rosângela Costa Araújo, Feira de Santana, Bahia

Rosângela Costa Araújo nasceu em 04 de outubro de 1959, na Bahia. Conhecida como Mestra Janja é historiadora e mestre capoeira. Depois de uma trajetória de 15 anos no Grupo de Capoeira Angola Pelourinho-GCAP, em Salvador, trabalho conduzido pelo Mestre Moraes, Mestra Janja se mudou para São Paulo com a finalidade de concluir seu mestrado e doutorado em Filosofia e Educação. Hoje, o Grupo Nzinga de Capoeira Angola se dedica à preservação dos valores e fundamentos da Capoeira Angola, segundo a linhagem do seu maior expoente: Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha, 1889-1981).

A Roda de Capoeira foi reconhecida como patrimônio imaterial em 2014, tendo atravessado séculos de racismo que ainda emoldura o olhar sobre essa prática que carrega em suas expressões corporais códigos de dança, luta, organização social e cultural, bem como de educação. Quer saber mais? Acompanhe Mestra Janja no instagram como @janja_araujo.


Maria de Lourdes da Conceição Alves, Aquiraz, Ceará

Maria de Lourdes da Conceição Alves, reconhecida como Cacica Pequena nasceu em 25 de março de 1945 em Aquiraz, no Ceará. Foi a primeira cacique do povo Jenipapo-Kanindé, sendo responsável pelo reconhecimento de sua comunidade pela Funai, em 1995. Também é reconhecida por exercer um papel de liderança e guardiã da memória, preservando os saberes do seu povo, como o canto. É Mestre da Cultura pela Universidade Estadual do Ceará e foi homenageada pela Google ao lado de lideranças reconhecidas mundialmente.

Seu povo era conhecido como Cabeludos da Encantada até o final da década de 1970, devido aos longos fios de cabelo que os índios preservavam. Com a chegada de pesquisadores na região, a seu convite, as pessoas que habitavam a região foram reconhecidas como pertencentes a quatro raízes – Payakú, Jenipapo, Kanindé e Tapuia.


Bernaldina José Pedro, Maturuca, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, Roraima

Falar de Bernaldina José Pedro ou Koko Meriná Eremunkon, nascida em 25 de março de 1945, é reverenciar toda uma luta por igualdade através da resistência cultural dos cantos, pinturas, comidas e rituais Macuxi. Foi uma das protagonistas na homologação da Terra Indígena Raposa Terra do Sol. Foi uma das vítimas da pandemia, que vitimou outras lideranças.

“Minha mãe ensinou às futuras gerações os cânticos, a arte da confecção da panela de barro. Quando as crianças estavam doentes, ela defumava, até mesmo nos adultos, com o maruai. Tudo que aprendi com ela estou passando para meus filhos e crianças da comunidade”, declarou Eldina Gabriel. Sua vida foi homenageada por Jardes Esbell, seu filho, em Os inumeráveis. Foi vitimada pela covid em 23 de junho de 2020, após uma intensa mobilização de sua família e comunidade por sua vida. Seu falecimento foi motivo de tristeza dentro e fora do país.


Marinalva Bezerra da Silva, União dos Palmares, Alagoas

Marinalva Bezerra da Silva nasceu em 06 de outubro de 1939 em um dos territórios negros mais renomados do país: a comunidade Muquém, remanescente do Quilombo dos Palmares, em Alagoas, berço de Zumbi. Produziu com a terra vermelha retirada do Rio Mundaú peças como panelas, potes, moringas, cuscuzeiras e chaleiras. Sempre marcadas com um “M”, para sinalizar sua autoria.

“Desde o início, era do barro que aqui todo mundo vivia. As mulheres faziam louça, os homens faziam telhas e tijolos. Trabalhar com barro é algo passado por gerações. Começou com minha bisavó, até chegar a mim. Meu sustento veio das panelas. Criei cinco filho e oito sobrinhos assim”, disse a Mestra ao ser titulada Patrimônio Vivo de seu estado.

Uma tradição que atravessa gerações onde habitam artistas como Albertina Nunes da Silva, Antônio Nunes, José Edson Bezerra da Silva, Julieta da Conceição, Maria das Dores da Conceição, Irinéia Rosa Nunes da Silva e Monica Nunes da Silva.

Faleceu em 28 de janeiro de 2021, com mais de 50 anos dedicados à sua arte.


Edite José da Silva, Quilombo Caiana dos crioulos, Paraíba

“Lembro, como se fosse hoje, as primeiras vezes que eu vi minha mãe dançar o coco de roda. Era a novena de Nossa Senhora da Conceição. (…)  A gente começava a rezar, daqui a pouco chegava a banda de pífano pra tomar café, ia tocando e, quando a gente via, tava o terreiro cheio e o coco estrondando.”, diz a Edite José da Silva matriarca do Grupo de Ciranda de Roda e Coco de Dona Edite. Nascida em 8 de outubro de 1944, diz que começou a dançar ciranda ainda no ventre de sua mãe, Maria Ana da Conceição. Foi parteira e rezadeira.

Além de ser a mais velha do grupo, Dona Edite também é Mestre Cirandeira, uma atividade que até bem pouco tempo era coisa “de homem” mas como não havia alguém além dela para assumir o posto após o falecimento do antigo integrante, coube a ela a função. Você pode acompanhar as estórias de Quilombo Caiana dos Crioulos através de sua conta no instagram, @quilombocaiana, que sempre posta notícias sobre as atividades de sua mestra.

O Coco de Roda, Ciranda e Mazurca foram declarados patrimônios culturais da Paraíba em 11 de maio de 2021.


Aurinda Raimunda da Anunciação, Vera Cruz, Bahia

Aurinda Raimunda da Anunciação conhecida como Aurinda do Prato é matriarca do Ile Axé Cavanegi Sudan e parte fundamental dos quilombos do Tereré e Maragogipinho, na Ilha de Itaparica. “Natural da Gamboa, mas residente da Ilhota, em Vera Cruz, Ilha de Itaparica. Guardiã das expressões identitárias da Ilha de Itaparica, como o Samba de Roda do Recôncavo Baiano, mais precisamente o Samba Corrido e o Samba Amarrado, manifestações transmitidas pelo finado Baluarte da cultura popular, seu irmão, Mestre Gerson Quadrado (1925-2005).”

Segundo pesquisas do Iphan, o prato era o único instrumento que poderia ser tocado por mulheres no samba de roda.

Trabalhou na pesca, na mariscagem, lavou de ganho, foi baiana de acarajé, toda essa labuta para criar filhos e netos. Filha de Obaluauê, mantém seu terreiro onde ainda acolhe os filhos que a vida lhe traz. Acompanhe Mestra Aurinda do Prato em sua conta no instagram @mestraaurindadoprato. E não deixe de rever uma importante live que a Mestra fez durante a pandemia.


Sirley da Silva Amaro ou Mestra Sirley Amaro nasceu em Pelotas em 12 de janeiro de 1936. Um importante documento que retrata sua importância pode ser visto em Vivências da Negra Contemporânea do Rio Grande do Sul – Sirley Amaro. É reconhecida por ser uma mulher de muitas estórias, que sempre fez questão de compartilhar com quem estivesse perto de si e quisesse ouvir. Caso você passe na Av. Capivari, 602 no Bairro Cristal, não deixe de visitar a Biblioteca Comunitária que foi batizada com seu nome. Além disso também foi homenageada com a criação do Prêmio Trajetórias Culturais Mestra Griô Sirley Amaro executado pelo Instituto Trocando Ideia.

Era uma mulher de muitos talentos, além daquela que era a sua maior – contar estórias. Costurava, fazia bonecas, bordado com miçangas e “entendia de percussão, comandava rodas, cirandas e escrevia músicas. Fez até um Rap, chamado “Rap da terceira idade”, declarou Xana Gallo no Instagram. Em 2007, recebeu o título de Griô de Tradição Oral por meio da Ação Griô Nacional, do Programa Cultura Viva (Ministério da Cultura). Faleceu em 2020, deixando um legado inestimável de cultura e saberes tradicionais.


Francisca Correa Costa, Chapada dos Guimarães, Mato Grosso

A benção de uma vida longa talvez seja dada somente aquelas pessoas que, sem qualquer pressa, saberão aproveitar cada minuto de sua jornada. Possivelmente a pessoa mais velha dessa lista, Francisca Correa Costa, conhecida como Vó Francisca, nasceu na região de Lixeira, na comunidade de Lagoinha do Baixo, zona rural do município. Foi nomeada Mestre da Cultura pela Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel-MT) no ano passado – com bastante atraso, diga-se de passagem. Foi escolhida para cuidar de pessoas desde muito nova, ainda que com muita resistência. Sua certidão de nascimento se perdeu com o tempo e o desuso, usando agora apenas a de casamento.

“Foram os partos que me fizeram conhecida. É por isso que depositam toda confiança nas bênçãos”, explica a idosa que é homenageada na conta de instragram @francisca_benzedeira e dá nome do filme de @afedefrancisca de Henrique Satian.


Claudete Barroso e Raimunda Carvalho, Vila Silva, Pará

Claudete Barroso e Raimunda Carvalho são as matriarcas de um grupo de carimbó composto apenas por mulheres que nasceu em 1994.

Em um Dia das Mães, eu e uma colega organizamos uma apresentação para homenagear a mãe mais velha da vila. Quando chegou a hora do show, os homens que tinham o grupo de carimbó estavam jogando bola e não vieram tocar. Fiquei chateada e naquele dia decidi que queria formar um grupo de carimbó só de mulheres, para a gente não depender mais dos homens — conta Raimunda Carvalho, conhecida como Mestra Bigica, fundadora e vocalista do grupo de carimbó grupo Sereia do Mar. Até então cabia às mulheres somente a dança.

Hoje, as mulheres do grupo também fazem negócios juntas, comercializando produtos como arroz, milho, feijão, melancia, verduras diversas, mandioca e seus derivados (tucupi, goma e farinha).

O Carimbó foi reconhecido como patrimônio cultural do Brasil em 2014 sendo salvaguardado na Mesorregião Metropolitana de Belém, na Microrregião Cametá e Entorno e na Microrregião do Salgado Paraense.

Você pode acompanhar seu trabalho no instagram do @grupo_sereiasdomar.


Ana Leopoldina dos Santos, Ouricuri, Pernambuco

Ana Leopoldina dos Santos nasceu em 18 de fevereiro de 1923, em Santa Filomena, povoado de Ouricuri, Pernambuco. Morreu em Petrolina em 1º de outubro de 2008, dois anos antes de ser reconhecida como Patrimônio Vivo. Sua trajetória fala sobre a importância da cerâmica para os povos negros em diversas modalidades como escultura, louçaria e cerâmica.

No início da década de 1960, ao buscar a matéria prima para suas peças às margens do Velho
Chico, Ana criou sua primeira “gangula”, uma pequena embarcação em cerâmica, semelhante a um vaso de médio porte acompanhada de uma carranca em sua proa. “Pensei: nesse barco viaja um velho com um menino pra vender jerimum. Botei um velhinho dentro com os jerimuns, uns bolinhos de barro para fingir que era jerimum; e o menino. E fiz a cobertinha de barro, pensando que era palha, e a carranca na frente. Deu sorte”, contou Ana das Carrancas, ainda em 1977.

Suas filhas, como Maria da Cruz e Ângela levam adiante seu talento e legado, com grande responsabilidade e reconhecimento. É possível acompanhar sua trajetória no instagram em @anadascarrancas.


Domerina Nicolau da Silva, Alagoinha, Paraíba

Domerina Nicolau da Silva nasceu em 24 de dezembro de 1924 em Alagoinhas, João Pessoa. É reconhecida como Vó Mera. Foi agraciada em 2016 com a Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura e reconhecida como Mestre das Artes, somente em 2018 – mais um grande atraso. Sua trajetória se mescla com aquela do bairro onde nasceu, Bairro do Rangel, em João Pessoa.

No ano de 2003, seu grupo de ciranda foi batizado como Vó Mera e Seus Netinhos. Em 2008, lança o primeiro registro de sua obra, Vó Mera e seus netinhos, com 28 títulos, dos quais 20 são cocos de roda e 7 são cirandas. 

Quer saber mais? Leia o trabalho “Cultura de matriz Afro-brasileira: um estudo à luz da história de vida de Vó Mera mestra da cultura popular de João Pessoa-Paraíba”, dissertação apresentada à Universidade Federal da Paraíba no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação por Ana Lúcia Tavares de Oliveira.

Você pode acompanhar seu trabalho em sua conta de instagram, @vo.mera.


Claudia Regina Avelar Santos , São Luís, Maranhão

Claudia Regina Avelar Santos nasceu em Cururupu, no Maranhão, em 22 de março de 1965. É herdeira de Mestre Leonardo, como ficou conhecido Leonardo Martins dos Santos que comandou o Boi e o Tambor da Liberdade por mais de 40 anos. Grupos criados em 1956, composto por familiares e conterrâneos da região de Guimarães.

Uma mulher em um universo masculino, assumiu o grupo em 2004 em processo de sucessão complicado. Desde 2013 brinca vestida de vaqueira, hoje reconhecida como a Ama do Boi. É quem dirige o espetáculo, com grande responsabilidade, zelando pelos brincantes.

Das conversas com a pesquisadora Marla Silveira, surgiu a obra Nas entranhas do bumba meu boi [Edufma, 2018], que trata de suas estratégias para botar o boi na rua e do protagonismo feminino na brincadeira.

O bumba-boi do Maranhão foi reconhecido como patrimônio em 2011.

Acompanhe as andanças de Claudia em sua conta no instagram @claudiareginaav.


Maria da Glória Braz de Almeida, Olinda, Pernambuco

Maria da Glória Braz de Almeida, reconhecida como Glorinha do Coco, é uma mestra do Coco de roda, nascida em 1934, em Amaro Branco, Olinda. Influenciada por sua mãe, era presente nas sambadas que aconteciam em frente à sua casa, em Olinda, onde ela reside até hoje. Em 2013 lançou seu primeiro CD, que leva o seu nome e foi finalista do Prêmio da Música Brasileira edição 2015, nas categorias melhor álbum regional e melhor cantora regional. O segundo disco, Noite Linda, é de 2017.

Infelizmente o reconhecimento não poupa a mestra das dificuldades do mercado, fazendo que continuar na lida seja um exercício de amor à arte que carrega em seu corpo. Foi uma das figuras centrais no documentário O coco, o pneu e a roda (2007), de Mariana Fortes, a partir do qual a voz de Glorinha ultrapassou os limites da comunidade.

Você pode acompanhar o trabalho da mestra no instagram em @donaglorinhadococooficial.


Maria de Lourdes Mendes, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro

Tia Maria do Jongo, como é reconhecida Maria de Lourdes Mendes, nasceu em 30 de dezembro de 1920, no berço da samba carioca. Faleceu em 18 de maio de 2019, deixando um legado incontornável como o filme 13 canções para falar de samba, no qual participou como uma das figuras centrais. Fundadora da Império Serrano, era personalidade cativa na Ala das Baianas da escola.

Era um dicionário, uma enciclopédia viva, que trazia em seu corpo as marcas e as lembranças da escravização de africanos e descendentes.

“O jongo era a dança dos escravos. Sempre que dançamos, rezamos um Pai Nosso, uma Ave Maria, antes de começar. Quando você bate um jongo, o espírito deles está ali. Rezamos para suas almas”, disse em entrevista à BBC. Um marco de sua herança inestimável é a Casa do Jongo, na cidade do Rio que está atualmente em obras. Uma de suas herdeiras é Suellen Tavares Onixêgum, cria do Jongo da Serrinha cujas atividades você acompanha no instagram @jongodaserrinha.

O Jongo do Sudeste, também conhecido como Tambu, Tambor e Caxambu, foi reconhecido pelo Iphan em 2005.


Maria Laurinda Adão, Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo

Mestra de Caxambu da Comunidade Quilombola de Monte Alegre, em Cachoeiro de Itapemirim, Maria Laurinda Adão nasceu 03 de junho de 1943, no Espírito Santo. Bisneta do “Escravo Adão”, um dos fundadores do quilombo. É trabalhadora rural, parteira, mãe de santo e coveira. A matriarca do Caxambu de Maria Laurinda.

Foi reconhecida no documentário “Todas as faces de Maria”, que acabou se tornando um importante livro e capítulo na vida da mestra, lançado também em Moçambique. Em 2018, ganhou a Comenda Rubem Braga, em reconhecimento de sua dedicação e contribuição para o desenvolvimento da cultura no estado. 

Ao ser questionada se já havia sofrido preconceito, respondeu: “Muito. Mas sei muito bem que a gente só sofre preconceito da parte de quem não tem inteligência. Já fiz oficinas aqui num projeto para crianças e algumas falavam para as outras não comerem nada porque tinha macumba. Eu chamava os pais e reclamava. Não fico calada. Tem que ter respeito.”

Você pode encontrar a Mestra em sua conta no facebook como Mestra Laurinda Adão.


Zulene Galdino Souza, Ararajara, Ceará

Zulene Galdino Souza nasceu em Arajara, em Barbalha. Porém foi no Crato que a Mestra Zulene desenhou a maior parte da trajetória como “Rainha da Cultura e do Folclore”. É rezadeira, tendo sido guiada por uma cabocla da mata nomeada como Caipora. “Sempre que podia, levava fumo de rolo para ela porque a caipora gosta muito de fumar”, conta Zulene.

Hoje, o Centro de Arte e Cultura Mestra Zulene Galdino é um espaço orgânico que preserva as tradições culturais há mais de 30 anos, envolvendo ações de responsabilidade social e sobretudo da tradição.

Não deixe de prestigiar seu depoimento em “No Terreiro dos brincantes”, obra da Universidade Regional do Cariri – URCA, através da Pró-reitoria de Extensão – PROEX, Instituto Ecológico e Cultural Martins Filho – IEC e com a parceria do Coletivo Camaradas.


Justina Ferreira da Silva, Território Quilombola Mata Cavalo, Mato Grosso

Justina Ferreira da Silva, mulher quilombola, nascida em 13 de abril de 1956, é filha da Comunidade do Ribeirão do Mutuca, que compõe o Território Quilombola de Mata Cavalo, no munícipio de Nossa Senhora do Livramento, em Mato Grosso. Seu grande legado é a cultura alimentar de seus ancestrais. Nossa mestra comanda a cozinha da tradicional Festa da Banana, com raízes nas festas de São Benedito, Festa de São Gonçalo e Festa do Congo, a qual originou-se na comunidade Mutuca.

Foi homenageada no documentário “As mãos benditas de Justina” que traça sua estória e de sua comunidade. É chamada de “São Benedita” tal como o Santo negro, cozinheiro. Em tempos de fome, que não nos façam esquecer quem somos e quais são nossos valores e o que o território significa para a população quilombola.


Maria Margarida da Conceição, Maceió, Alagoas

Maria Margarida da Conceição é natural de Alagoas mas chegou em Juazeiro no Norte aos 8 anos. É reconhecida pelas tradições do Reisado e do Guerreiro. Segundo o site Terra Brasileira, “A diferença fundamental entre o Guerreiro e Reisado é que no Guerreiro os personagens das partes já constam como figurantes desde o início da exibição. Ambos são folguedos do ciclo natalino.” Aos 9 anos, a mestra criou sua primeira brincadeira, um grupo praticamente formado apenas por meninas, o Guerreiro Santa Joana D’Arc que resiste ao passar dos anos e as mudanças culturais.


Anicide Toledo, Capivari, São Paulo

Em 2012, Anicide Toledo, liderança negra de Capivari em São Paulo, lançou seu primeiro registro: A voz feminina no batuque de umbigada. Nascida em 06 de setembro 1933, a matriarca do batuque é neta de africanos escravizados e tem seu trabalho reconhecido em diversos países da Europa. Foi a primeira mulher a exercer o canto no batuque que antes era restrito aos homens, autorizada por mestres mais velhos. A dança faz parte de um conjunto que se se originam da cultura banto e tem como ponto comum a a umbigada, ou semba.

No ano passado, a Prof. Dra. Lorena Faria fez uma transmissão no youtube questionando porque muitas pessoas na cidade e em São Paulo conhecem Tarsila do Amaral mas não Anicide Toledo, que é patrimônio imaterial do estado desde 2018.


Caixeiras de Pindaré Mirim, Maranhão

Grupo de Maria Caixeira, hoje com aproximadamente 80 anos, como é conhecida Maria de Ribamar Travassos Nunes, se estrutura em torno da Associação Feminina Cultural Democrática da Divindade do Vale de Pindaré, oficializada em 27 de junho de 2007. É composta por mulheres negras idosas que compartilham o amor pela Festa do Divino, que trata de imagens de devoção e foi descrita com detalhes pela estudiosa Maria Zenaide Costa.

Acompanhe a agenda das Caixeiras sem sua conta no instagram @caixeirasdepindaremirim e seu canal no youtube.


Apolinária das Virgens Oliveira, reconhecida como Chica do Pandeiro, nasceu em 10 de janeiro 1949, na comunidade da Matinha, distrito de Feira de Santana. Conta que entrou “pra sambar com idade de 12 anos, junto com meu pai, que era sambador, cantador de reis, corria leilão, fazia testamento de judas, cantava reis, fazia samba de roda também.”

Sua atuação é o fio condutor do documentário que leva seu nome, Chica do Pandeiro – Mestra da Cultura Popular e conduz o conversê em Prosa de Samba – Dona Chica do Pandeiro. É a realeza do samba de roda do país.


Maria Josefa da Conceição, Porteiras, Ceará

Maria Josefa da Conceição ou Maria de Tiê nasceu em 18 de setembro de 1958, em Porteiras, no Ceará. É dedicada à Dança do Coco e o Maneiro-Pau na Comunidade Quilombola dos Souza, localizada no Sítio Vassourinha. Sua voz ecoa renovando tradições, educando novas gerações e criando possibilidades negras de futuro. Acompanhe sua trajetória em sua conta de instagram @mariadetie.

“Junto todos numa roda, toco pandeiro e canto aquelas músicas de toada, como meu pai fazia com minha mãe. Eu tenho prazer em ensinar o que eu sei. Por isso, trago as crianças para dentro da cultura, até o dia que não puder.”, explica.

O Maneiro-pau é uma dança nordestina, especificamente do Ceará.


Nós não temos tantas informações quanto gostaríamos sobre Claudentina Trindade Alves, conhecida como Mestra Dentina. Sabemos que foi intitulada Mestra em 2017, pelo Espírito Santo, em razão de seu trabalho sobre “a preservação e afirmação da identidade dos afro-descendentes. Participa com destaque em todos os eventos relacionados à cultura negra, tais como a Festa de Santa Clara, realizada em Angelim, sua comunidade; no Festival do Beiju, nas comunidades quilombolas da região; e durante o Festival de Folclore, realizado na sede do município pela Associação de Folclore de Conceição da Barra.”

É através dela que saudamos todas as mulheres quilombolas que preservam a cultura de resistência do beiju no Espírito santo. Com especial atenção à uma liderança quilombola que é a idealizadora, produtora e autora do Festival do Beiju maior referência de encontro para reflexão da luta e resistência das comunidades quilombolas do estado. E que trabalha para que nomes como a de Mestra Dentina não sejam esquecidos. Obrigada Selma Dealdina.


A Yalorixá Maria Helena M. Sampaio (Oyá Tundê, seu orucó, nome de iniciação), nasceu dentro do Ilê Obá Aganjú Okoloyá – Terreiro de Mãe Amara de Tradição Nagô pernambucano, fundado em 1945 por sua mãe carnal, Yalorixá Amara Mendes da Silva (Oba Meji – awô, saudação aos ancestrais). No Terreiro de Mãe Amara, a Yá Maria Helena Sampaio exerce o cargo ritual de Yakekerê, mãe pequena, escolhida pelos orixás patronos da casa, Xangô e Oyá, como sucessora de sua mãe que desde fevereiro se encontra no orun (mundo invisível), enquanto mãe ancestral da casa. *Seu pai carnal, Nelson Mota Sampaio (Ogun Jobi – awô) também foi aqui no aiyê (mundo visível) um sacerdote, descendente direto da primeira casa de candomblé de culto a orixá e egungun de Pernambuco, Ilé Obá Ogunté, fundando sob a liderança da nigeriana, Ifatinuke (awô). Seu pai, o nigeriano Apari Oba (awô), é considerado pela comunidade como membro fundador.

Mãe de duas mulheres, Yapetebi Gabriela e Yalaxé Helaynne, e avó de um neto, Ogan Gabriel, e duas netas, Yabá Yáomim e Maria, a Yá Maria Helena Sampaio também recebeu o título de Mestra da Cultura Popular pelo MinC, por sua trajetória como arte-educadora, musicista, compositora, cantora, percussionista, bailarina nagô e referência na luta antirracista, contra o racismo religioso e no empoderamento das mulheres nos espaços de liderança, lutando para que as mulheres ocupem lugares de poder, de decisão, nesse sentido, criou a Rede das Mulheres de Terreiro de Pernambuco, a primeira do Brasil e do Mundo, buscando valorizar a falas e as contribuições das mulheres dentro dos terreiros e nas ruas, visto que o machismo, o sexismo, continuam forte dentro das comunidades de terreiro, seja de candomblé ou de Jurema. Fundou, no dia 10 de abril de 2004, a pedido da sua orixá Oyá, seu Afoxé Oyá Alaxé (candomblé de rua, movimento político, grupo artístico) ferramenta de luta contra todas as formas de violências e opressões. Valorizando as maiorias silenciadas e lutando por seus direitos de existência.

O afoxé é patrimônio cultural baiano. Acompanhe a agenda de no instagram em @singularidadenago.


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