Quando comecei o namoro que estou vivendo agora, tive que olhar para ela e perguntar: “Você sabe que está se relacionando com uma mulher negra? Sabe o que isso significa?”
No peito, apertado, o medo de a qualquer momento ter que assistir a minha cor sendo usada para desenhar uma arma. E arma devidamente apontada, bem na testa da gente, sai palavra de bala achada, que fere para sempre, e a gente que dê de conta na terapia.
Não, eu não gostaria de precisar de um questionário para iniciar um afeto.
Não gostaria de avisar: “coisas vão doer em mim. Coisas que você, branca, não sabe o que são.”
Não gostaria de alertar: “alguns dias eu vou chorar e vai ser choro de uma dor muito específica, e talvez eu chegue em casa com cara de destruída. Você vai poder e saber me acolher?”
Na real, é isso que estou tendo que perguntar logo de cara, para economizar tempo e energia. Afinal, não dá para correr riscos quando somos obrigadas a lidar com pessoas brancas que se unem à causa preta quando lhes convém. Mas a qualquer sinal de contrariedade, adivinha quem é mais fácil de ser preterida, desrespeitada e ludibriada?
E adivinha quem vai fazer de tudo para perdoar, ali na hora, engolindo o choro?
Eu respondo: Quem desde cedo foi obrigada a não questionar.
Sabe, gente, estudos e discurso sobre racismo, letramento racial e livros de gente preta na estante não são garantia de acolhimento de pessoas negras em uma relação afetiva interracial. Olha só, mais um cuidado que devemos ter, como se já não bastassem os tantos outros. Às vezes o “Não sou racista, mas…” é bem mais elaborado, difícil de identificar e de se proteger. E discurso racista refinado confunde, sabe? Afinal, vem no combo acolhimento, compreensão, conversas sobre injustiças raciais. Vem choro, e até compaixão por nossas causas. E não deveria caber a mim julgar se são abraços sinceros, até porque a questão é outra. A questão é: não saia na chuva pretendendo não se molhar. Não existe brincar de respeitar.
A realidade é que no Brasil existe, na prática, as milhares de tentativas de silenciar e esconder “o defeito de cor”. Falamos em representatividade nas escolas, nos locais de trabalho e em casa há pouquíssimo tempo. Tempo não suficiente para quem cresceu “moreninha” se enxergar negra ainda na infância. Com esse pacto de embranquecimento, a ficha da nossa real cor só cai, e quando cai, na vida adulta e em casos específicos de acesso à informação social e de si mesma. Quando esse processo de racialização tem início, uma das primeiras dores a aparecer é a dos anos invisíveis. Anos sem cor alguma e a dimensão dessa violência. As pupilas dilatam, o olhar estatístico vem junto com os longos minutos olhando para as próprias mãos, pés, grossura dos lábios e nariz. Revisita aos retratos da família, perguntas sobre o tom de pele dos antigos. Entender que as indiferenças e incômodos, as injustiças e a vida mil passos mais difícil se encontram em uma única palavra: racismo. Aquele racismo dos documentários, dos livros, das palestras. Aquele lá, agora arde na pele todinha.
Lembro que escrevi, no meu aniversário de trinta anos: “é minha primeira troca de idade com cor.”
Em meio a esse turbilhão de novos olhares e sensações de um corpo e uma mente tentando lidar, da melhor maneira, com o tom marrom da pele, ainda é preciso, hoje eu sei, estar atenta. Com quem compartilhar as descobertas? De que maneira serei tratada agora que sei? Serei ouvida? Serei entendida? O meu afeto é um lugar seguro e respeitoso nesse momento? Há lugar seguro nesse momento?
Certa vez já presenciei falas do tipo: “É uma galera com umas dores muito pesadas. Mas te admiro bastante.”
E também: “Até ontem você nem sabia que era negra, como sabe que é isso mesmo que você quer?”
Nas ocasiões, veio primeiro a angústia em forma de pontada no peito, a certeza de algo muito dolorido me encontrando. Falei que era errado, expliquei, com muito cuidado e didática, que esse discurso machuca. Veio a compreensão, o pedido de desculpa, e o imediato “claro, está perdoado sim. Que bom que conversamos a respeito”.
Nenhuma parte de mim perdoou ou perdoaria. Absolutamente nenhuma. Mas sei disso agora, com aquela noção da gravidade que adquirimos quando tudo passa.
Pois bem, minha gente. Racismo com máscara de antirracismo é aquela bala que acha a gente, fere nossa subjetividade, que fere nosso engatinhar em busca de quem somos no meio da nossa própria cor. É violento.
A escritora Dauna Vale, em seu livro O silêncio de todo dia escreveu algo assim: “tudo muito elegante, sensato, higienizado, tinha cheiro de água sanitária. sempre uma sensação de que eu realmente estava equivocada.”
Não perdoar, descobri recentemente, é um direito. Sobretudo diante do que só percebo depois, quando tenho acesso ao estrago da bala. Parece aquele calibre que vi no jornal uma vez: uma bala que entra com um furinho e arrebenta tudo lá dentro.
A nós, apesar do cenário contraditório, desejo a possibilidade de encontrar amor sem pisar em um campo minado. Que nossos afetos sejam casa, moradia segura, e que possamos juntos enfeitar as paredes com todo o colorido de nossa ancestralidade recém descoberta, se for o caso. E se o antirracismo nos relacionamentos não estiver sendo servido, fartamente, que possamos virar a mesa e abrir espaço para ser a Neguinha Metida de Luciene Nascimento, a “que não ri de piada ruim só para não fazer desfeita e sabe a quem pertence o próprio nariz”.
