Da Tia Nastácia à Globeleza

Lutar por uma representação real na TV passa, também, por lutar para que nossas demandas sejam debatidas nas redes nacionais. Não basta atribuir papéis importantes e fortes para as mulheres negras (embora isso seja de extrema importância), é preciso que as produções destinem um espaço para se problematizar a posição social dessas mulheres.

Como feminista, confesso, minha tendência tem sido me afastar cada vez mais da televisão. Nos últimos anos, a quantidade de tempo que eu dedico à TV aberta diminuiu consideravelmente, em alguns momentos parei totalmente. Isso se dá porque, quanto mais consciente eu me torno da posição social que me é destinada (e resisto a ela), mais os discursos veiculados pela TV me incomodam ou, para ser mais honesta, me tiram do sério. Desde os papéis degradantes atribuídos às mulheres nas campanhas publicitárias até a completa invisibilidade da mulher negra na teledramaturgia, a programação televisiva é mais um espaço de confirmação e naturalização da opressão.

Entretanto a TV continua sendo o principal meio de comunicação de massa no Brasil. Para boa parte da população a TV aberta é a maior fonte de informação e lazer, ocupando um papel essencial na elaboração e percepção de si mesma e do mundo. Tendo isso em vista, considero a televisão e – a mídia de um modo geral – um espaço importantíssimo e que deve ser disputado pelos movimentos sociais.

No Brasil a TV se estrutura a partir de oligopólios de redes nacionais que afiliam emissoras de TV locais, essas redes seguem uma lógica comercial que, muitas vezes, é utilizada para justificar a reprodução de discursos opressores em sua programação – a velha desculpa do “estamos passando o que o povo quer ver”. Além disso, o capital financeiro das emissoras vem dos anúncios publicitários e de anunciantes, e, a partir disso, seu discurso fica atrelado a duas “frentes”: a aprovação do telespectador (que gera os índices de ibope, chamando mais anunciantes) e a própria lógica capitalista presente na publicidade, gerando uma produção sistemática de programas que seguem o status quo e se recusam a promover uma discussão política e social.

É dentro dessa dinâmica capitalista, por si só excludente, que a televisão busca representar o Brasil para os brasileiros. Um Brasil que ainda segue o imaginário patriarcal e escravagista, onde a mulher ainda é vista como uma propriedade (e, no auge da sociedade de espetáculo capitalista – um produto). Para a mulher negra o quadro é ainda mais terrível, na TV nós voltamos a nossos papéis históricos de domésticas e objetos sexuais. Se por um lado somos totalmente invisibilizadas por um padrão estético branco, por outro somos altamente sexualizadas, nos tornando produtos de consumo e importação. Da Tia Nastácia à Globeleza, somos bombardeadas com discursos que nos dizem para sermos passivas, calorosas, submissas, sensuais, mercadorias, enfim, para nos mantermos nos espaços destinados a nós desde a colonização.

Lutar por uma representação real na TV passa, também, por lutar para que nossas demandas sejam debatidas nas redes nacionais. Não basta atribuir papéis importantes e fortes para as mulheres negras (embora isso seja de extrema importância), é preciso que as produções destinem um espaço para se problematizar a posição social dessas mulheres. Se pegarmos a história das novelas, por exemplo, encontraremos personagens de mulheres bem sucedidas – ainda que seja raro uma atriz negra escalada para esses papéis – porém, quase nunca há um debate sobre o que é ser mulher no Brasil. Representatividade também significa ter nossas histórias, lutas e demandas retratadas na mídia.

Existe uma limitação inerente à TV em relação a debates aprofundados. Por sua natureza imediatista e superficial, parece impossível que discussões políticas e sociais sejam aprofundadas em sua programação. Quanto a isso, destaco a novela das seis Lado a Lado, uma produção que, apesar de manter as estruturas essenciais da teledramaturgia, conseguiu trazer para o universo televisivo questões super relevantes, como a autonomia sexual feminina, amizade entre mulheres, a fetichização da mulher negra e a posição da população negra na sociedade pós-abolição. Infelizmente, foi uma produção de pouco alcance, devido ao horário, ao público e à própria discussão que se propôs.

A meu ver, a reivindicação por uma televisão de qualidade implica em questionar sua dinâmica comercial. Questionar o porquê um oligopólio pode definir como e quais serão os discursos que a população brasileira consumirá e a quem esses discursos servem, até porque, essa lógica é um dos principais obstáculos para uma produção alternativa. Também é importante pensar que a mídia responde às pressões sociais, portanto temos sim que permanecer atentas aos absurdos veiculados diariamente, temos que fazer barulho, nos manifestarmos contra e mostrar que esse retrato antisséptico, branco, masculino, cristão e consumista não atende as nossas demandas de entretenimento e informação.

Como já disse, é preciso ocupar esse espaço, nem que seja a força, nos empurrando goela abaixo. A representatividade real na mídia é um dos muitos direitos que ainda temos que conquistar como cidadãs brasileiras plenas e, no meu ponto de vista, uma ferramenta importante no empoderamento das mulheres negras em todo o país.

Imagem destacada por Bruno Souza Leão | Kyle Satori, flickr.

3 comments
  1. Isso de ser difícil problematizar na televisão, devido ao que ela se propõe nas novelas é algo que em lembre o Johan Huizinga: quando procuramos diversão, no geral, queremos nos alienar dos problemas , e não nos voltar para eles. Por mais datado que o pensamento seja, acho que ainda é um dos grandes obstáculos para a construção de grandes debates no meio televisivo.

  2. Isabela, parabenizo pelo texto de destacável conteúdo . Em se tratando de questões referentes a mídia , entre outras , envolvendo racismo- Será que se faz necessário a intensificação dos os mecanismos de pressão, através e principalmente de protestos públicos de rua ?

    Percebe-se que os movimentos sociais, inclusive negros, não têm se apresentado a altura , como deveriam em relação à forma. Outo fator tb de relevância tem se dado em relação ao processo de conscientização nas áreas periféricas nas quais, na maioria das vezes( não todas), pessoas negras que vão se academizando e/ou adquirindo determinada “consciência” racial terminam por não dar continuidade ao processo , justamente nas áreas mais pobres e periféricas.

    Ou seja, nos locais onde se encontra a esmagadora maioria das pessoas negras as quais poderiam dar grande sustentação em inúmeros protestos, haja vista que estes necessitam de grande visibilidade.

    Assim , seria interessante uma reflexão em torno da intensificação dos movimentos junto a estes setores mais desprivilegiados?

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