João Ubaldo Ribeiro morreu. Você sabia?

Sei que já se passaram seis anos, e como bem dizem por aí, brasileiro tem memória curta. O povo não se lembra do que comeu ontem, quem dirá de quem te chibateou no século passado. Afinal, como foi dito por um personagem do filme Besouro, “é só receber um afago que o povo logo se esquece das chibatadas”.

Morre João Ubaldo Ribeiro, escritor baiano, natural da Ilha de Itaparica, membro ocupante da cadeira de nº 34 da Academia Brasileira de Letras, autor de diversos livros, sendo os mais conhecidos, Viva o Povo Brasileiro e Sargento Getúlio.

Devo reconhecer sua importância como escritor para nossa literatura, mas devo salientar também sua atuação constante nos últimos anos em prol da reserva de mercado para cidadãos não-negros no Brasil.

Se vocês não sabem, que se apropriem, pois é importante saber, principalmente para quem encampa a luta antirracista no Brasil, que João Ubaldo, assim como seu conterrâneo baiano, Caetano Veloso, foi um dos signatários do manifesto intitulado “Centro e treze cidadãos não racistas contra as leis raciais”, enviado ao STF em abril de 2008, mais conhecido como “Carta dos 113“.

João Ubaldo morreu, meu povo. Que pena. Afinal de contas, ele deixou um legado muito singular na literatura nacional. Mas confesso que já foi tarde, pois quem leu sua grande obra Viva o Povo Brasileiro sabe bem a simpatia do autor com as ideias propagadas lá na década de 1930 por Gilberto Freyre, com seu ideal de democracia racial. Isso sem falar que, politicamente, ele estava no lado oposto da luta que encampo. Pois eu, cotista, mulher preta e favelada, oriunda de universidade pública federal, por definição, não posso estar do mesmo lado de um sujeito que assinou um documento para tentar acabar com a reserva de vagas para estudantes pretas e pobres no ambiente acadêmico brasileiro.

Vai-se mais um escroque desse mundo. E caso vocês fiquem estupefatos com esse monte de “atrocidade” que digo aqui, tudo bem. Se não quiserem acreditar em mim, nenhum problema. Apenas tenham a curiosidade de ler o documento citado acima no qual João Ubaldo e demais safardanas iguais a ele assinaram e enviaram ao STF no ano de 2008.

Sei que já se passaram seis anos, e como bem dizem por aí, brasileiro tem memória curta. O povo não se lembra do que comeu ontem, quem dirá de quem te chibateou no século passado. Afinal, como foi dito por um personagem do filme Besouro, “é só receber um afago que o povo logo se esquece das chibatadas”.

Ah! Só mais uma coisinha, minha mãe costuma dizer a seguinte frase quando algum malfazejo morre: “ele morreu, na alma dele cago eu”. Foi assim. Falta, pelo menos para mim, não vai fazer.

Texto originalmente publicado no blog Escrevivência

2 comments
  1. Como a maioria da classe literária e artística nacional. Li a carta. É uma idiotice do tamanho da ignorância racial que esse país vive. Não chega ser racismo, (ou é, em outra forma) é uma espécie de ignorância baseada na tentativa de fazer-nos todos iguais sem respeitar nossas diferenças apenas porque nos misturamos e muito, todos os dias. A miscigenação racial é a desculpa. Não consideram que o fenótipo conta muito no país porque nos misturamos. Ignorância. Também já pensei assim no alto das minhas descendências branca indígena e negra. Não deixo de lamentar a morte dele, assim como lamentarei a de Caetano no futuro. Se no que se refere a questões raciais são/foram duas portas, em demais questões sociais e culturais sempre trouxeram benefícios.

  2. Muito bom! (:
    Eu não sabia disso, confesso. Vi meu facebook inteiro choramingando a morte dele. Eca.
    Ps.: vou espalhar pra quem quiser ouvir!

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Diametralmente oposto a esse padrão aceitável se encontra, por lógica, o corpo negro. O corpo negro, seus traços, sua genética, seu fenótipo e a infantil tentativa de negar a construção social que tem o gosto. Somos, todos nós – negrxs e brancxs – expostos desde crianças a propagandas, programas infantis, desenhos, revistinhas em que predomina um padrão de beleza europeu. “Gosto não se discute” porque a mídia já deliberou sobre ele por nós, apresentou-o e nós, como o esperado, compramos não só o gosto mas também o slogan. Continuemos sorrindo!