Nota sobre a abolição da escravidão e o racismo, Blogagem Coletiva 13 de maio

Por Cidinha da Silva para o Blogueiras Negras

A abolição da escravidão é um tempo de longa duração. O evento terminou, mas o tempo dele perdura.

O racismo, como sistema ideológico, não é desdobramento da escravidão. Trata-se de uma formulação construída no século XIX para justificá-la, para ratificar a inferioridade atribuída às pessoas escravizadas.

Discutir o racismo, explicitá-lo, combatê-lo, é mais profícuo e profundo do que insistir nos efeitos da escravidão que fossilizam o lugar da lentidão inexorável das mudanças socioeconômicas necessárias para o crescimento da população negra, atribuído ao ônus da escravidão. Vil armadilha!

É o debate sobre o racismo que nos permite decodificar a estratégia de pessoas brancas e até mestiças confusas e embranquecidas que ressignificam o lugar da casa-grande a cada pequena ação. Dia desses publiquei crônica que narrava uma cena de discriminação racial protagonizada por um homem negro que discriminava uma mulher negra durante cena de novela e tive exemplo desse raciocínio.

O texto ativou o seguinte comentário: “Ah! Por favor! Adoro a página (Nomes Afro e Africanos e Seus Significados) e estou sempre na luta contra o racismo, intolerância religiosa, na luta dos gays, violência doméstica e tudo mais… mas, sinceramente, já virou paranoia, até a novela? Pelo amor de deus!!!!!! Nada mais se pode falar que é discriminação, bulling, etc… até negro falando com negro vocês agora acham que é racismo? Vocês estão precisando procurar um tratamento, porque o racismo está em vocês, me desculpe.”

É uma assertiva pobre, previsível, fácil de analisar à luz do modus operandi do racismo no Brasil, vejamos:

1 – O texto citado pela leitora é autoral, assinado, mas ao invés de criticar a autora, sabidamente negra, ela se dirige ao coletivo negro, aconselhando-o a procurar tratamento psicoterapêutico ou psiquiátrico, pois o racismo estaria internalizado nos membros do coletivo, adoecendo-os. O racismo funciona exatamente assim, toma parte pelo todo. Os racistas destacam parte do grupo, fazem generalizações absurdas e tentam atingir a todos, porque não importa o indivíduo, importa que ele integre o coletivo discriminado.

2 – Como o objetivo de se auto-preservar e proteger, a pseudo defensora dos negros, em primeira mão, nomeia as causas em que está envolvida: adora coisas de negros (a fan page citada), luta contra o racismo, violência doméstica, intolerância religiosa, a favor dos gays e deve saber o que é melhor para esses sujeitos, pois quando os discriminados ousam levantar a voz contra a opressão, cometem exagero.

3 – O mundo do entretenimento, da novela ideologicamente construída seriam locus inofensivos, segundo o raciocínio rastejante da leitora. Logo, enxergar o racismo ali seria despropositado, paranóico.

4 – Por fim, a contradição: o racismo seria um problema internalizado pelos negros, segundo sua compreensão, mas estes não cometeriam atitudes discriminatórias em relação a outros negros. Deste modo, a percepção da autora quanto à discriminação racial de uma personagem negra contra outra seria absurda, ainda mais, em uma novela.

5 – Como coroamento de tudo, um pedido de desculpas que infantiliza os leitores e leitoras do comentário, como se a autora dissesse: “Sinto muito, mas eu precisava alertá-los, vocês são idiotas.”

Viram? Não é difícil. É cansativo, mas não é difícil. Se nos detivermos no legado da escravidão faremos o jogo da leitora, estacaremos no lugar de vítimas, na moradia da subalternidade. Ficaremos de braços abertos para sermos resgatados por redentoras, como ela.

Contudo, se assumimos o lugar de alvos do racismo, olharemos dentro dos olhos dos racistas, decodificamos suas práticas e ardis e poderemos destruí-los.

BC_Blogueiras Negras

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Luiza Mahin organizada pelas Blogueiras Negras nos 125 anos de Abolição.


Texto de Cidinha da Silva, escritora e blogueira sempre falando sobre questões acerca do feminismo e da negritude.


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5 comments
  1. Cidinha, minha preta, nos brinde sempre com seu olhar, seu destemor e suas analíticas palavras. Porque é desse lugar de vítimas que precisamos sair.

    Obrigada!

  2. Reblogged this on Blog do @rodrigoluiz23e comentado:
    Olá. Quanto tempo.

    Eu confesso estar sem ideias para o blog nas últimas semanas. E sem paciência para desenvolver as poucas que aparecem. Por conta disso, resolvi dar RB (como Retweet é RT, Reblog é RB?) num post que li há pouco, que vem muito a calhar no dia de hoje, 13 de maio de 2013, exatos 125 anos após a Abolição da Escravatura.

    Digo, aliás, que HOJE MESMO eu mudei de ideia a respeito da Abolição, após ler um texto da Leci Brandão. Basicamente, a ideia (que eu entendi, pode não ser a verdade) é a de que a Abolição não foi o bem todo que pareceu ser, visto que deixou os negros abandonados e esquecidos e, ainda assim, sem acesso à sociedade. Ou seja, acabou a escravidão, mas não o racismo.

    Não me entendam mal. Não sou doente mental de vir aqui dizer que a escravidão deveria ter continuado. Só disse que o fim da escravidão não resolveu o problema do racismo – e isso persiste até os dias atuais, como vemos todos os dias, sentindo na pele ou não.

    Boa leitura a todos.

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