O privilégio branco e a opressão involuntária

Por Larissa Santiago para as Blogueiras Negras

A primeira vez que falei sobre branquitude, percebi que o que eu dizia chegava ao receptor de uma forma completamente diferente. A conversa tomou o tom de crítica pessoal e o conflito que orginalmente era teórico passou a ser prático. O que conclui dessa primeira experiência e que me levou a ler e estudar um pouco mais sobre o lado branco da força foi um sentimento: a substituição do amor pela raiva.

Segundo Lourenço Cardoso, em seu artigo “Branquitude acrítica e crítica: A supremacia racial e o branco anti-racista*” relata que apesar da branquitude não ser uma identidade racial única e imutável (Hall, 2005, pp.12-13) ela é múltipla e sujeita a mudança. Assim sendo, metodologicamente alguns autores se referem a dois “tipos” de branquitude: crítica e acrítica ou ainda branquitude distintas e divergentes.

familia portuguesa
Família Real Portuguesa – blog professor Marcelo Camargo

Com tanta nomenclatura e classificação, fica mais fácil explicar quando a gente vai pra prática. Um sujeito de identidade racial branca que critica e se posiciona do lado oposto ao do racismo, entende-se como um sujeito que faz parte da “branquitude crítica”, logo a “branquitude acrítica” não desaprova o racismo, mesmo quando não admite seu preconceito racial e acredita na condição hierárquica do ser branco.

Isto posto, todas as vezes em que um sujeito não reflete nem se posiciona, levando em conta sua pertença a um grupo racial historicamente privilegiado, entende-se que essa posição faz parte do grande jogo imposto pelo sistema colonial. Faz parte da manutenção o não pensamento e a negação de pertença a um grupo opressor. Isso não quer dizer que esse indivíduo, crítico ou acrítico, não sofra. De tudo dito, o mais incrível é que essa “opressão involuntária” ou ainda, quando esse sujeito se descobre como parte do grupo com o qual não se identifica ideologicamente (o grupo racial branco), o sofrimento chega e tudo o que se pensa sobre amor e luta anti-racista vira raiva.

Por fim, deixo um questionamento em aberto. Será mesmo que essa pergunta tem que ser feita a nós negros ou a mim como indivíduo que pertenço a um grupo historicamente privilegiado?

“Mas, e eu? Longe de mim ser a vítima, mas a cor da minha pele determina que eu sou a vilã? E ele talvez não seja simplesmente uma pessoa violenta e machista, e sua cor da pele irrelevante?”

Nota da autora: nada que está escrito é a pura verdade nem tão certo que não possa ser questionado.

Esperando suscitar questionamentos

3 comments
  1. Desde a primeira postagem eu fiquei matutando sobre a branquitude. Sou branca, olhos e cabelos claros, meu unico traço fisico que remete à negra em mim é meu cabelo crespo (textura que tenho cultivado com muito orgulho). Então procurei uma identidade branca em meus costumes, minha cultura… e não bastasse ser branca (onde já há uma “ausência de caracterização”), sou… brasiliense. E Brasilia é uma cidade nova, de uma mistura recente (formação 70% nordestina de mais de um estado, 30% carioca) e dizem não ter sequer um sotaque identificável. Achei isso meio pertubador porquê a unica identidade que eu achei foi justamente a da opressora, ainda que eu combata o racismo. Tenso.
    Acabou que não ter identidade acabou virando o que vejo como sendo a minha identidade…

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Diametralmente oposto a esse padrão aceitável se encontra, por lógica, o corpo negro. O corpo negro, seus traços, sua genética, seu fenótipo e a infantil tentativa de negar a construção social que tem o gosto. Somos, todos nós – negrxs e brancxs – expostos desde crianças a propagandas, programas infantis, desenhos, revistinhas em que predomina um padrão de beleza europeu. “Gosto não se discute” porque a mídia já deliberou sobre ele por nós, apresentou-o e nós, como o esperado, compramos não só o gosto mas também o slogan. Continuemos sorrindo!