Escrevo esse texto na companhia luminosa da lua crescente; enquanto a observo pela janela do escritório, vou relembrando da mitologia Tupi sobre a Vitória Régia. Renato Noguera docemente nos faz lembrar da personagem “Naiá” e o seu desejo de ser amada.
Dito de outra forma, e usando das suas próprias palavras, o mito ensina que “(…) amar exige que se esteja disposto a ser, sentir e viver o mistério. E, nessa caminhada, é inevitável que nos transformemos em outra pessoa.”
Do mitológico ao real, a crença no amor continua sendo a mesma. No entanto, suas perspectivas mudam de acordo com o agenciamento que fazemos dela. Embora nem sempre a crença no amor seja algo universal, já que esse sentimento foi capturado pelos processos de ordenamento social, existe uma movimentação insurgente de sua retomada.
Se assim como os territórios houve a desterritorialização em detrimento de uma imposição de interesse colonial, os afetos não seriam isentos das usurpações de interesses racionais de conquistar o outro.
Nessa lógica de racionalidade, o amor caberia para poucos ou equivalente à mais cara das mercadorias a ser adquirida. Tão pouco estaria na lista prioritária das necessidades ordinárias de um ser humano. Como nos lembra bell hooks, o amor é uma necessidade básica!
Nesse não-lugar da equidade do amor, o que se tem são as desiguais partilhas do afeto. O desperdício das insistentes ofertas de amar e as sequelas da perda de si diante da não validação daquilo que se desejou germinar: o amor recíproco.
Talvez a pessoa nem saiba ou nem perceba que está em uma relação desigual de amorosidade, já que o amor foi uma constante falta. Então, nesse raciocínio, não se reivindica aquilo que é desconhecido, imperceptível diante de uma trajetória de vida marcada pela ausência do amor. Ou, até que queira viver uma experiência amorosa, mas não sabe seus repertórios e, consequentemente, desconhece a coragem necessária para a construção e a manutenção do amor, já que amar é correr risco!
E se, diante do seu empenho, feito o “pastor amoroso” de Fernando Pessoa, você não viu florescer esse sentimento no outro e na relação, recolha seus afetos e devolva para si toda a amorosidade. A reciprocidade amorosa não compete a ti, mas a quem recebe e escolhe se nutrir (ou não) daquele sentimento que chega. Não é sua culpa se o outro não sabe [se]amar ou tão pouco sabe lidar com a sensação de ser amado.
É preciso retomar, se transformar em sementes que não foram acolhidas em solos que ainda não estão preparados para receber o amor. Não por gesto de rejeição, mas por desconhecimento de um sentimento genuíno que chega sem trazer dor ou abuso. Aquilo que se desconhece se torna forasteiro de nossas percepções e, com isso, o amor se esvai.
Mesmo para quem não cresceu num ambiente nutrido pelo amor, bell hooks nos encoraja a acreditar na possibilidade de viver amando. Primeiramente percebendo a sua existência e as suas ausências afetivas e conseguindo imaginar o amor como algo possível de existir e semear nas relações sociais e afetivas, desde que se escolha o risco do amor mesmo diante das não garantias de reciprocidade. Mas, acreditando que a ação amorosa é uma das mais belas verdades da crença deste sentimento que nos impulsiona a imaginar até o que nos falta e aprender a amar mesmo por quem nunca o conheceu. Afinal, como ela mesma disse: “o amor é o que o amor faz…”.
É tempo de retomar as sementes do amor que não germinaram e seguir na fé da ética amorosa como virtude de ser e existir no mundo a partir de percepções insurgentes de ressignificação dos afetos, onde mais vale semear o amor do que viver a escassez do afeto pelo desconhecido.
“O que é o amor indígena
É sentir o sol sob a pele,
A brisa nos cabelos,
Os pés afundar no barro,
É ter a cor da terra,
É se sentir raiz,
Semente,
Flor,
Florescer.[…]”
(Trudruá Dorrico)
Referência bibliográfica
DORRICO, Trudruá. Tempo de retomada. Belo Horizonte: Autêntica editora, 2025.
hooks, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. trad. Stephanie Borges. São Paulo: Elefante, 2021.
NOGUERA, Renato. Por que amamos: o que os mitos e a filosofia têm a dizer sobre o amor. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2020.
