Como foi o II Encontro de Blogueiras Negras BH

O encontrinho de Blogueiras Negras de Belo Horizonte aconteceu na Associação Imagem Comunitária, no bairro Floresta, e teve a presença de 22 mulheres negras. Um sobradinho simples, charmoso, cheio de cores, árvores frutíferas e ervas cheirosas foi o cenário de nosso fim de tarde/começo de noite de conversas pretas.

Cada uma a seu modo contou de sua trajetória no feminismo e todas compartilharam da percepção de que o feminismo negro e a existência de espaços exclusivos para mulheres pretas fortalecem em absoluto nossa identidade, empoderamento e a construção de nossa autoestima.
Entre nós estiveram diversas mulheres estudantes, professoras, educadoras, musicistas, estilistas, integrantes de outros coletivos, como as Negras Ativas, o Bloco das Pretas, a Rede Afro LGBT Mineira e os Tambores de Safo, com a presença de Lídia Rodrigues retratando nossa tarde com seus pasteis.
2014-03-16 17.53.19

Em nossas conversas, houve falas sobre toda uma infância de exclusão e racismo na escola, sobre a superação desses sofrimentos e o reconhecimento da própria beleza e qualidades, sobre o educar e a necessidade de discussões como as nossas em ambientes escolares, o racismo e machismo no movimento headbanger e na música como um todo.
Falamos sobre a hipersexualização da mulher negra, a dificuldade em manter relacionamentos duradouros, o celibato definitivo e a conhecida ineficiência do feminismo padrão em alcançar e problematizar essas e outras demandas das mulheres pretas. Apontamos o quanto é positivo ter um diálogo intergeracional, respeitando toda a trajetória das pretas mais antigas e incluindo as vozes mais jovens e com ideias novas e transformadoras a todo o imenso trabalho das mais velhas, e como isso só pode trazer inúmeros ganhos à nossa luta.
Notamos que entre nós, de forma inédita, éramos maioria não-heterossexual, e como é positiva essa liberdade das mulheres pretas em assumir sua sexualidade não-hétero e de como precisamos nos visibilizar para que saibam que existimos, que somos reais. Em contrapartida, lamentamos por sermos todas cisgêneras, o que denotou que de alguma forma estamos sendo pouco acolhedoras com as pretas trans* em nosso movimento e resolver essa questão é uma necessidade urgente.
Ainda colocamos em pauta nossas percepções as relações livres e não monogâmicas e o poliamor, e as vantagens e desvantagens de relacionamentos afrocentrados e interraciais, chegando ao consenso de que não deve haver questionamentos sobre as escolhas afetivas das pretas, já tão cerceadas em suas liberdades, mas devemos questionar sim a repetição de padrões dos pretos com relação às suas companheiras ou das relações entre mulheres e de como os padrões machistas e racistas se reproduzem entre as les-bi, e ainda a constante invalidação de nossa liberdade de escolha, abandonando a ideia de que temos que ficar com qualquer um/a que nos queira ou seremos solitárias eternamente.
Houve oficina de turbantes e amarrações com Pabline Santana com o auxílio de Énia Dára Medina, dos momentos mais divertidos do encontro, que renderam muitas risadas e fotografias, o chazinho de cidreira e os pães de ervas de Vanessa Beco, lanche comunitário, distribuição de brindes da Vult Cosmética e da Makeda Cosméticos, conversas a luz de velas e a certeza de que precisaremos – e faremos! – ainda de dezenas de encontros como esses para fortalecer os laços entre as pretas de BH e região e fazer com que esse amor e essa irmandade se estenda a muitas mulheres por aqui.
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Que os movimentos de negras e negros brasileiros, os populares, os da linha antirracista e os de promoção da igualdade racial avancem para ações radicais (no sentido de irem à raiz do problema etnicorracial neste país). Não basta o sucesso em se apropriar dos elementos afro-brasileiros que constituem o núcleo da cultura brasileira, já passamos do tempo de subverter a lógica econômica que repele pessoas negras dos cargos de poder ou dos mais valorizados socialmente.

Gratidão Lupita Nyong’o

Não sei vocês, mas para mim, usar cores já foi difícil, houve um tempo em que usar um batom colorido era impossível, achava que as cores não combinavam com pele preta. O que pode parecer besteira, não é, essa minha insegurança (e acredito que seja de outras mulheres também) reflete o quanto nós, negras, infelizmente ainda sofremos com a falta de referências, essas que crescemos sem.
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Foi nesse contexto de combate às discriminações de raça e de gênero e à dupla perversidade dessas discriminações quando atuam em um só corpo, o corpo negro feminino, que levou o Grupo de Pesquisas Culturais a organizar em novembro de 2012 o piloto da Semana de Reflexões sobre Negritude, Gênero e Raça do Instituto Federal de Brasília, que se repetiu em 2013 em uma edição significativamente ampliada.