À agência Big Man e empresa Riachuelo

O equívoco não é do público-alvo que não soube interpretar a campanha, mas sim dos profissionais que avaliaram erroneamente seus consumidores e suas particularidades, e conceberam ideias reconhecidamente ofensivas.

À agência Big Man e empresa Riachuelo responsáveis, respectivamente, pelo projeto e aprovação da campanha “Semana da Mulher Brasileira”, veiculada durante a semana do Dia Internacional da Mulher.

Os consumidores que apontaram os sinais de racismo apresentados na campanha citada ficaram inicialmente aliviados com a postura da empresa ao retirar o vídeo da campanha citada do canal do youtube, já que tal atitude demonstraria o mínimo de respeito aos consumidores que se sentiram ofendidos.

Porém, esperávamos uma retratação formal da empresa Riachuelo que no comunicado veiculado no site oficial se mostrou totalmente decepcionante. No texto a empresa mostra que desconhece totalmente seu público-alvo, que ela mesma cita como tendo a missão de “democratizar o acesso ao universo da moda a todas as camadas da sociedade brasileira”, entendendo-se assim que engloba também as camadas sociais menos favorecidas, ou seja, onde encontram-se a maioria dos consumidores e consumidoras brasileiros de origem negra.

Dizer simplesmente que a empresa não faz “distinção de cor, credo, posição política ou opção sexual” (onde abro parênteses para corrigir o termo “opção sexual”, onde o correto seria “orientação sexual”, mais um sinal de desrespeito da empresa para com seus clientes), é admitir que a Riachuelo presta serviços ao consumidor brasileiro sem levar em consideração a sua pluralidade e as suas diferentes realidades, características e necessidades ou, como diz a sabedoria popular, “coloca tudo no mesmo balaio”.

Acredito que os responsáveis pela publicidade da empresa, assim como os publicitários e designers, saibam muito bem como funciona o fluxograma de criação de qualquer peça gráfica. Da mais simplificada maneira, temos que entender que um profissional cria o projeto para a campanha (no caso a agência Big Man) e o cliente aprova o resultado apresentado (no caso a Riachuelo), tornando ambas empresas responsáveis pela mensagem que foi veiculada. Toda e qualquer campanha é, ou deveria ser, baseada em estudos relacionados ao público-alvo a ser atingido, quem faz parte dele, o que essas pessoas consomem, quando e como consomem e o mais importante de tudo: como ele irá interpretar e responder àquela peça publicitária. Todo profissional da publicidade e do design gráfico, acima de tudo, presta um serviço. Um serviço ao seu cliente primário e ao cliente do seu cliente.

A autora deste texto, como uma profissional do design gráfico, sabe muito bem e acredita que seus colegas saibam também, que não vivemos em um mundo onde “somos incompreendidos”, e se nosso público-alvo interpreta nosso trabalho de maneira diferente da que gostaríamos, ou se ele se mostra ofendido com ela, o equívoco não é do público-alvo que não soube interpretar a campanha, mas sim dos profissionais que avaliaram erroneamente seus consumidores e suas particularidades, e conceberam ideias reconhecidamente ofensivas.

Como crédito a Riachuelo, tendo a acreditar que por parte da empresa ou da agência responsável pela campanha, não houve a intenção de desrespeitar os seus clientes; porém a boa intenção não livra do erro, e se este erro foi cometido o mínimo esperado é que haja uma retratação, um pedido de desculpas formalizado, e não a afirmação de que seus consumidores não têm capacidade ou discernimento necessários para interpretar a campanha veiculada.

O mundo é repleto de signos de comunicação. Signos que são compreendidos de maneiras diferentes em contextos diferentes. Ignorar a força e o significado de uma cor, de um símbolo, ou de qualquer elemento gráfico para um determinado público em um determinado contexto, levando em consideração aqui no caso a história do povo negro, é além de extremamente desrespeitoso, sintoma de falta de profissionalismo e seriedade, e de uma urgente necessidade de revisão nos métodos de comunicação da empresa.

2 comments
  1. Digo mais, em um país com uma população tão miscigenada e diversa, acho inadmissível qualquer agência de publicidade não levar em conta esta diversidade. Na minha opinião este tipo de atitude só reforça as diferenças e impede o avanço da sociedade em relação a visão que a mesma tem das camadas menos favorecidas e menos representadas na mídia.

  2. Essas respostas automáticas são sempre assim. Eles falam um monte de frases feitas genéricas e e de bom-mocismo pra enganar os mais carentes, mas não estão nem aí. Vai por mim, já trabalhei no backoffice do atendimento da TV Globo e essas respostas já estão pré-digitadas quando são emitidas em dois ou três cliques. Quem envia nem lembra mais o que está escrito.É só pra forjar cordialidade, porque pra eles, só de responder já é uma tremenda duma satisfação para o público.

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Diametralmente oposto a esse padrão aceitável se encontra, por lógica, o corpo negro. O corpo negro, seus traços, sua genética, seu fenótipo e a infantil tentativa de negar a construção social que tem o gosto. Somos, todos nós – negrxs e brancxs – expostos desde crianças a propagandas, programas infantis, desenhos, revistinhas em que predomina um padrão de beleza europeu. “Gosto não se discute” porque a mídia já deliberou sobre ele por nós, apresentou-o e nós, como o esperado, compramos não só o gosto mas também o slogan. Continuemos sorrindo!