Clementina de Jesus: a Rainha Quelé

Revelada aos 63 anos de idade, Clementina deu voz à ancestralidade africana por meio do samba. Clementina de Jesus, também conhecida como Quelé, nasceu um pouco mais de uma década após a falsa abolição, no dia 7 de fevereiro de 1901, na cidade de Valença, região cafeeira do estado do Rio de Janeiro. Quelé, neta de escravizados e pretos forros, aprendeu a cantar ainda na infância ouvindo a sua mãe.

A mãe de Clementina era benzedeira e parteira, e o pai carpinteiro. O panorama da população negra no início do século XX era marginalizado. O país ainda vivia fortemente os resquícios da escravidão. Muitos negros permaneceram nas fazendas em que eram escravos e outra parte migraram para as cidades. A construção da imagem de que o negro serve apenas para trabalhos pesados deixaram sequelas até os dias de hoje. Não a toa que Clementina demorou 60 anos para ser descoberta na música pelo grande público.

Desde a infância, Clementina frequentava as rodas de samba e acompanhou de perto o surgimento da escola de samba da Portela. As reuniões festivas nas comunidades eram regadas a samba de partido- alto e essa reunião recebia o nome de pagode.
O Samba de partido-alto é uma vertente do samba, surgido no século XX e tem suas raízes africanas se aproximando do batuque angolano, do Congo e regiões próximas. Além do batuque, o partido-alto teve influência da batucada, do calango, da chula, dos cantos de trabalho, das cantigas de capoeira e de roda. Além do mais, com o passar do tempo foram agregados questões socioeconômicas e acontecimentos do cotidiano do povo carioca nos sambas.

A visibilidade de Clementina só aconteceu aos 63 anos, após ter sido descoberta pelo produtor musical Hermínio Bello de Carvalho. O produtor ficou encantado pela potência da sambista e passou a prepará-la para o espetáculo Rosa de Ouro, show que a consagraria. Clementina foi casada com Albino Correia da Silva, também conhecido como Albino Pé Grande e com ele registrou os discos “Rosa de Ouro” em 1965, “Clementina de Jesus” em 1966 e “Gente da Antiga” de 1968, trazendo a tradição africana oral nos versos de samba.
A cantora faleceu aos 86 anos. Vale ressaltar que ela só foi reconhecida pelo grande público quando já era idosa. Antes disso, passou a vida como empregada doméstica. Isso nos mostra muito como opera o racismo no Brasil.

Imagem: reprodução Correio Brasiliense.

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