“Preciosas, bonitas e guerreiras” – empoderamento feminista das Pearls Negras

Algumas feministas insistem em ler a ideia do recalque como perpetuação do discurso da rivalidade histórica entre mulheres, que nos coloca em posição de constante disputa e revanchismo. Porém, um ouvido mais atento consegue reconhecer que muitas vezes o recalque perpassa questões de raça e classe, pois o lado de lá da ponte têm cor e CEP: é branco e dos bairros da elite.

Antes que se fale a respeito do fenômeno Pearls Negras, é necessário retomar a longa caminhada trilhada pelas mulheres dentro do hip hop no Brasil. “As mulheres sempre fizeram parte de todo o início do hip hop no Brasil e infelizmente não se tem dados precisos sobre suas participações, que se misturam com a história do início da carreira de muitos nomes conhecidos hoje em dia. O que temos hoje são retalhos. Pedaços de vivência que fazem parte das reportagens e de todo material bibliográfico encontrado que contam a história na visão masculina, pelo menos neste início do movimento” – é o que afirma Priscilla Vierros, jornalista e ativista da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop no livro Perifeminas.

De fato, a história do hip hop contou com inúmeras b girls, rappers, DJs e grafiteiras espalhadas por vários estados do país, que introduziram a linguagem do movimento em suas comunidades e consolidaram o Hip Hop no Brasil. Dina Di, Sharylaine, Lady Rap foram algumas das pioneiras do rap brasileiro e que dificilmente são lembradas no corre dessa trajetória. Isso porque a mulher que ousa cantar rap desafia a sociedade machista e acaba se deparando com o preconceito dentro do próprio movimento. Para tentar driblar o machismo e serem tratadas em pé de igualdade em relação aos homens, muitas garotas assumiram uma postura considerada masculinizada, utilizando vestimentas masculinas de modo a esconder suas formas físicas femininas.

As rappers também enfrentaram o machismo do mercado fonográfico, que exigia um rap feminino com uma batida mais “amena” e sem letra de protesto. Além disso, muitas delas precisaram interromper sua carreira por conta da maternidade, já que a música ainda não lhes garantia condição financeira compatível com suas necessidades. É por essas e outras que devemos considerar uma grande conquista o sucesso dessas três minas do Vidigal que reivindicam o “rap de saia”, falando sobre a vida na favela e reafirmando em suas letras a autoestima da quebrada e da mulher negra – e que está cada vez mais ganhando visibilidade internacionalmente.

Pearls Negras (ou Pérolas Negras) são Jeniffer, Mariana e Alice, três meninas negras nascidas e criadas no Vidigal, favela do Rio de Janeiro, que se conheceram no grupo de teatro Nós do Morro, onde tiveram aulas de rima e conheceram a fundo o movimento hip hop. Mais tarde, com o reconhecimento local, chamaram a atenção de produtores britânicos do selo independente Bolabo Records, gravando assim a primeira mixtape do conjunto, intitulada Biggie Apple. O Vidigal é ambiente constante em suas letras, que mesmo marcado pelo clima de insegurança e violência policial, é, como elas cantam em “Make it last”, o melhor lugar de se morar: apesar dos problemas que assolam as vielas, é ali que o trio encontra amor e amizade, ambiente que as constituíram artistas.

Além de conferir reconhecimento e visibilidade a sua quebrada, as Pérolas Negras também fazem referência aos protestos de 2013, politizam a temática e cobram aos (e às) governantes do país: “Mr. President” é provavelmente um dos primeiros raps em que tanto o denunciador quanto o denunciado da mensagem são mulheres: o povo protestando pelo bem desse país / por favor, sua presidenta, o que é que você diz?

A reivindicação pela autoestima periférica é também marcada pela questão feminista negra na medida em que as Pearls comemoram em suas letras o fato de serem mulheres negras da favela: “pretinha de ferro”, estilosa, sucesso na pista, que faz os meninos pirarem e as invejosas tremerem. Nesse contexto surge o tema do recalque, tão característico do rap e principalmente do funk feminino carioca.

Algumas feministas insistem em ler a ideia do recalque como perpetuação do discurso da rivalidade histórica entre mulheres, que nos coloca em posição de constante disputa e revanchismo. Porém, um ouvido mais atento consegue reconhecer que muitas vezes o recalque perpassa questões de raça e classe, pois o lado de lá da ponte têm cor e CEP: é branco e dos bairros da elite.

Historicamente, o rap sempre polarizou com aqueles que deslegitimam a poética da quebrada, aqueles que pertencem a mesma classe daqueles que os oprimem cotidianamente. Bastar ouvir, por exemplo, “Hey boy”, música dos Racionais MCs presente em seu disco de estreia “Holocausto Urbano”, em que eles mandam o papo reto para os playboys que querem colar com eles: hey boy,o que você está fazendo aqui / meu bairro não é seu lugar. E ainda demarcam o orgulho pela quebrada, assim como fazem as minas do Vidigal: (…) Não tenha dó de mim /porque esse é meu lugar/ mas eu o quero mesmo assim/ mesmo sendo o lado esquecido da cidade/ e bode expiatório de toda e qualquer mediocridade.

Na música “O futuro” das Pearls Negras, percebemos a tensão entre a mina da favela –“princesinha de aba reta” – e a recalcada faladora – “barbie falsa”. Ora, quem mais desempenha o papel dessa invejosa além da patricinha de classe média que se apropria culturalmente da estética hip hop? Sabemos que é treta demais para as classes dominantes assistir ao sucesso do rap e do funk, gêneros musicais do gueto, o que explica a predileção do mercado mainstream em lançar figuras embranquecidas, como a Anitta. Algo semelhante aconteceu na década de 1990, quando, no auge dos Racionais, a indústria fonográfica lançou Gabriel, o pensador, rosto branco e de classe média, com letras inofensivas e desprovidas da postura considerada agressiva do rap. Ainda, sobre o recalque, as Pérolas arrematam a letra com crescemos na favela e mandamos rimas concretas e sou negra, tenho beleza e mando meu flow. Empoderamento mil.

Resta-nos ainda compreender porque as Pearls Negras despertam mais o interesse do mercado gringo do que o da nossa mídia, que apesar de reconhecer e eleger boas figuras masculinas do rap que vieram da periferia, como Emicida e Criolo, é incapaz de fazer o mesmo com as minas. Felizmente a internet colaborou para transformar em parte a configuração do cenário do rap das minas, projetando vários nomes de talento do movimento que aos poucos ganham a cena do nosso mercado. Muita treta pros machistas de plantão.

GUERREIRA – PEARLS NEGRAS

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Algumas fontes:

PERIFEMINAS – Iniciativa da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop. Conta com diversas narrativas escritas por mulheres do movimento. O Perifeminas já tem duas edições e é uma ótima referência a todas/os interessadas/os no tema.

Página oficial das Pearls Negras no facebook

Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop

Imagem destacada – Fanpage Pearls negras.

4 comments
  1. Ótima estreia, Bianca! Obrigada por me apresentar esse grupo e por contextualizar tão bem a presença desse grupo no cenário/discurso hip hop. E, por favor, continue escrevendo por todas nós!

  2. Legal Bianca! Agora eu, não entendedora de Hip Hop, mas fã das garotas, vc deu argumentos pra compreender pq gosto tanto delas: auto identificação!
    E sobre a resistência brasileira a elas…. o machismo vai tentar segura-las na periferia enquanto puder.
    E quando não conseguir mais tentará descaracterizar a lijguagem delas… é o caminho comum da apropriação cultural.
    Mas, enfim… obrigada pelo texto.

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