Um viva ao rei. Vida longa às rainhas. Vida longa às irmãs.

“Senti que A Mulher Rei era uma história importante, porque me vi nela”, disse Viola Davis, vencedora do Oscar® e produtora do filme.

Obrigada por nos convidar para ver essa obra tão importante.

Nós aqui também Viola. De um lugar que gostaria de compartilhar com você. Falar sobre o filme A mulher rei (2022) é para mim escrever ao mesmo tempo como vodunsi – pesquisadora, ativista e crítica de cinema. Para destacar as aproximações e também as contradições que esses lugares me possibilitam ou não alcançar.

Então, começo agradecendo à nossa mulher-rei, a Onontochê Sandra de Boço Xadantã, conhecida carinhosamente como Mãe Sandra. Sentimento que estendo à minha irmã de esteira, a escritora e nossa Izadionkwe Raquel de Nochê Sogbô, companheira e amiga na missão que nos foi confiada como filhas do rei. À minha irmã, comadre e Iyadewa Karla de Toy Loko, pelo cuidado e pelas trocas diárias ao longo desses anos como noviche e agora vodunsi. E também à querida Angela Brandão, companheira de tanto tempo, por quem guardo um carinho muito especial.

A todas gostaria de creditar a co-autoria desse texto, mesmo que nem sempre nossos pontos de vista estejam em acordo. Sem vocês não teria sido tão gostoso. Sem vocês não teria acontecido. A história real por trás da personagem Miganon Nanisca (Viola Davis) e suas irmãs também é a nossa.

Falo em primeiro lugar como filha de um rei majestoso, a quem saúdo junto aos voduns Mawu e Lissá que permeiam toda narrativa de A mulher-rei. Voduns que se fazem cotidianos dentro do Tambor de Mina, tradição negra maranhense trazida para o Brasil pela fundadora da Casa das Minas ou Querebentã de Zomadonu, rainha Nã Agontimé que aqui é conhecida como Maria Jesuína, personagem histórica central no Antigo Daomé.

Como vodunsis e mulheres negras, descendentes dessa rainha, nos reconhecemos na irmandade entre as personagens Izogie (Lashana Lynch), Amenza (Sheila Atim), Nawi (Thuso Mbedu) e Ode (Adrienne Warren). Porque esse é o nosso jeito de viver.

Ainda nos chamamos de irmãs e nos reunimos em torno de um rei. Ainda cultuamos nosso sagrado através de oráculos para tomar importantes decisões de vida. Somos convidadas a sonhar com os pés no chão, sem nunca abaixar nossas cabeças diante e por causa de uma grandiosa e árdua batalha – preservar a tradição viva em um cenário de guerra. O que fazemos dançando e cantando, como um ato de memória e lembrança, mas também com um olhar no aqui e agora e no futuro.

Nos organizamos em uma hierarquia que nos ensina a ouvir quem chegou primeiro e a pensarmos de maneira coletiva, orientadas por nossa mãe que, assim como Nanisca, é “a mulher que silenciosamente subiu na hierarquia até seu alto grau de poder. Ela entende como se joga o jogo político no seu mundo”, como explicou a diretora Dana Stevens.

Sim, estamos falando de ficção, mas não poderia deixar de imaginar que é exatamente a ausência de Nã Agontimé, mãe de Guezo, que permite à nossa heroína se tornar a Kposito – posição de grande destaque em sua sociedade, traduzida como rainha-mãe ou literalmente como a “mãe do leopardo”, segundo Edna Bay.

Como pesquisadora, gostaria de falar sobre o trabalho da figurinista Gersha Philliips, reconhecida por muitos por seu trabalho em Star Trek Discovery e a primeira capitã negra desse universo. “Eu esperei a minha vida inteira para criar para essa produção”, disse. E também da diretora do filme, Gina Prince-Bythewood que “precisava levar essas mulheres às telas.”.

E nós estávamos ansiosas para ver.

Vocês, Viola, Gina e Gersha e todas as mulheres negras que trabalharam no filme, são o retrato da nossa capacidade de entregar excelência. Um retrato real de como a lógica de organização afetiva e política das Agojies reverbera em toda a diáspora.

Seu trabalho deu movimento às imagens da comandante Seh-Dong-Hong-Beh.

Podemos vê-la no palácio, ao lado de suas irmãs, onde eram decididos os rumos religiosos, políticos, econômicos e sociais daquele povo. Isso obviamente inclui quais estratégias militares seriam adotadas num cenário desafiador imposto pelas nações européias, que se aproveitaram e ainda se aproveitam das disputas locais para lucrar com isso.

Obviamente, é quase impossível não pensar na vida palaciana do Antigo Daomé como a materialização de um sistema de paridade de gênero. E como uma prática necessária aqui e agora. Mas não podíamos deixar de lado qualquer conversa sobre raça, ancestralidade e ação política.

Nós ainda somos ensinadas a seguir em frente, não importa como e quando, como uma tecnologia de liberdade fundamental, um treinamento que mesmo agora forja as guerreiras de hoje e amanhã. Não basta sermos 100% boas, é preciso alcançar a marca dos 300% como cada uma das Agojie.

Uma saída que só tem sentido na coletividade ou nos condena ao sofrimento, ao apagamento, à adequação. E o mais importante, ao uso político de nossos corpos sem qualquer benefício à todas nós. Algo que também reverbera com o pensamento e a ação das Blogueiras Negras, uma plataforma de memória e publicação em que cada uma das autoras é apoiada por tantas outras, caminhando lado a lado. Mesmo que a gente nem sempre concorde entre si.

Porém, não podemos desconsiderar que antes de qualquer uma dessas discussões, estamos falando do binômio fundamental ao povo Ewe-Fon – Mawu e Lissá – que organiza toda sua sociedade. É a ancestralidade, como uma prática sagrada, que organizava essas mulheres. E que ainda organiza a nossa casa, o nosso terreiro.

Uma organização que segundo a historiografia, por coincidência ou não, foi introduzida naquele contexto durante o reinado de Tegbesu por Hwanjile, rainha de origem Aja apontada como uma das esposas de Agadja. Possivelmente a mesma estratégia adotada pelas Esposas do Deus no Antigo Egito para assumir o controle do poderio religioso e econômico que as tornou faraós.

Do ponto de vista da História, é importante levar em conta como A mulher-rei descreve as disputas entre os povos que viviam à Costa da Mina. Tanto o Antigo Daomé quanto Oyó eram sociedades complexas que entraram em conflito para estabelecer o domínio local e, mais tarde, a primazia no tráfico de escravizados. É por isso que o acesso ao mar, mencionado na obra, era tão importante.

Um cenário que, não por acaso, é distorcido por quem gosta de contar essa estória pela metade, dizendo que foram os próprios negros que venderam a si mesmos. Sem dizer que do ponto de vista dessas sociedades, a ideia de raça e de bondade cristã não se aplicavam. A ideia de “outro” baseada na cor da pele ou de benevolência, assim como o diabo, eram e são alienígenas.

Um lado vendia cativos, percepção vai se alterando com o passar do tempo dando origem à resistência, como vemos acontecer com Behanzin. O outro sempre comprava seres considerados descartáveis e inferiores por causa da cor de sua pele, inclusive com o aval do Vaticano e da ciência da época, uma visão que resiste até hoje. E contra a qual ainda lutamos.

O que explica inclusive o modo como os outros povos são vistos pela ótica do Antigo Daomé, o que explica como Oba Ade (Jimmy Odukoya) personifica o antagonismo na narrativa. Suas ações, do ponto de vista dos povos africanos, só fazem sentido se nos despirmos de juízo de valor apegado à ideia de maldade. Afinal, existe um contexto muito maior como pano de fundo no qual essas personagens se movem.

Estamos diante de uma narrativa sobre a nossa própria humanidade, que se revela não apenas pela participação desses povos no tráfico de escravizados como contam para esconder sua própria culpa. Mas também nossa resistência à escravização, mesmo com todas as contradições, recuos e avanços pertinentes ao processo.

O que obviamente não diminui as consequências sentidas até hoje por nós, para além de qualquer questão pessoal. Por evidenciarem a responsabilidade de quem mesmo agora se beneficia de conflitos locais que sempre existiram entre povos africanos. E, ao mesmo tempo não apaga a agência dos governantes, tanto do Antigo Daomé e de Oyó.

O que o filme A mulher-rei tem de especial é mostrar essa dinâmica pelo lado de dentro. Seu mérito é contar que surgiram nessas sociedades pessoas como Nanisca, que compreenderam cedo – ou tarde – que aquele modelo se esgotaria do ponto de vista das pessoas e da economia.

Quando não sobrasse mais pessoas a serem vendidas, o que possivelmente aconteceria em paralelo com a industrialização de países como a Inglaterra? Aquelas dinastias seriam condenadas. O que de fato aconteceu.

Enquanto as monarquias européias ainda resistiriam ao tempo, mesmo em caráter simbólico. Vide o prolongado funeral da rainha que nos faz entender que a CommonWealth ainda é uma poderosa metáfora imperialista que mimetiza a extensão do Império Britânico, conhecido por ser tão vasto que era impossível ver o sol se pôr sobre ele.

É por isso que adorei que as Agojies não se chamaram a si mesmas de amazonas. É sobre autodeterminação. Sou dessas!

Ou seja, filmão. Que toca as nossas fortalezas e fragilidades, assim como faz com os povos do Antigo Daomé e de Oyó.

É por isso que não me surpreende que essa obra não tenha recebido uma avaliação adequada em plataformas como o IMBD. Nossa autorias e narrativas são de forma sistemática mal avaliados por esses públicos, daí a importância de fazermos as nossas próprias resenhas e críticas, além de prestigiarmos o filme.

Estamos falando de negócios, assim como estavam os povos da Costa da Mina, que também lutaram para serem independentes economicamente, segundo seus próprios interesses. Sabemos que não há liberdade dentro da ordem capitalista mas sabemos igualmente que também não se luta de barriga vazia.

O que cada uma das Agojies de ontem e hoje compreendem muito bem.

Um viva ao rei.
Vida longa às rainhas.
Vida longa às irmãs.

Prevalecemos.

Referências

BAY, Edna. Wives of the leopard: gender, politics, and culture in the Kingdom of Dahomey. Charlotesville; London: University of Virginia Press, 1998.

ROLNIK, Raquel. Guerra dos Lugares: A Colonização da Terra e da Moradia na Era das Finanças.

VÁRON, Paloma. Mulheres têm papel fundamental no Tambor de Mina, diz antropóloga. RFI. Disponível em https://www.rfi.fr/br/brasil/20190609-rfi-convida-marilande-martins-abreu-antropologa-e-psicanalista. Publicado em 10 de junho de 2019. Acessado em 18 de setembro de 2022.

VERGER, Pierre. Os libertos : sete caminhos na liberdade de escravos da Bahia no século XIX. Corrupio : Fundação Cultural, Estado da Bahia, Salvador, Bahia, [1992].

Nã Agontime. Biografias de mulheres africanas. Disponível em https://www.ufrgs.br/africanas/na-agontime-seculos-xviii-xix/. Acessado em 19 de setembro de 2022.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

You May Also Like
Leia mais

Um Egito Negro incomoda muita gente

Usurpar patrimônio africano não basta, também é necessário embranquecer seus sujeitos. Tanto na série José do Egito (atualmente em reprise pela Record) quanto em Êxodo: Deuses e Reis as personagens são majoritariamente brancas. Os realizadores são incapazes de reconhecer que todo um complexo sistema de crenças, filosofia, arte, arquitetura, astronomia e medicina são coisas de preto. Qualquer movimento diferente disso, mesmo a simples hipótese de que os antigos egípcios era negros, é vandalismo demais para aguentar.