Relato as companheirxs que estão saindo do mega-hair

Minha trajetória com a transição foi exatamente como a de muitas mulheres negrxs. Eu tinha um lindo cabelo crespo e grande quando aos cinco anos minha mãe cortou e alisou com a justificativa do trabalho que dava para cuidar. Desde então ele nunca mais cresceu. Sempre tive vontade de usá-lo como é realmente mais e a coragem? Cadê?

Coloquei o mega-hair na intenção de me sentir bonita, uma vez que eu era da igreja evangélica e os líderes de lá sempre me diziam que eu tinha complexo de beleza. Quando entrei na Universidade saí da casa dos meus pais, mas o dinheiro que era de fazer a manutenção virou o dinheiro do aluguel e então coloquei um anelado, primeiro por que me sentia mais ridícula ainda com a consciência de ser negrx com cabelo alisado, e segundo por que poderia ficar mais tempo com o mega, já que os cachos esconderiam a raiz.

Minha posição política influenciou sim neste processo, porém o que mais me fez diferença foi a queda de cabelos, eu penteava o cabelo e ele caía, quase que uma mecha inteira por dia, meu cabelo foi ficando ralo, com muitos buracos e até hoje ainda tem pedaços do couro cabeludo com o crescimento atrasado em relação a outras partes da cabeça, por fim tomei tanta antipatia do mega-hair que eu mesma arrancava o meu cabelo com mega e tudo, só ficava com a mão embaixo dos falsos cachos arrancando o cabelo da raiz, era uma coisa tão sem perceber que eu fazia isso até dormindo.

Com tantas falhas e buracos na cabeça eu não podia mais somente cortar a parte alisada, eu teria que raspar o cabelo inteiro para igualar, tinha pedaços que ele batia no ombro e pedaços que nem tinha cabelo, o resto era só um toquinho. Além do peso espiritual de carregar cabelos e energias de diversas pessoas, muitas até já mortas que eu nem conhecia junto a mim.

E assim recortei fotografias de lindas mulheres negras e coloquei por todo o meu quarto, eu abria o guarda roupa de manhã para sair de casa e via uma linda preta com seu cabelo raspado. Conheci as meninas e iniciamos o Bloco das Pretas, foi muita observação de cada uma e vi o quanto cada uma cresceu assumindo seu cabelo, a força e as palavras de sabedoria sobre a importância de assumir minha identidade e todos os estereótipos que nos cercavam e isso me ajudou muito. Um dia eu acordei e raspei.

Raspei tudo, passei maquina 3 e o processo não acabou ali… A resistência veio depois, à medida que ele crescia e que eu não sabia lidar com o que ele queria, eu colocava para um lado ele ficava espetado para cima, eu fazia cachos ele ficava opaco, foram muitas conversas e mimos para ele chegar ao tamanho que ele está, tiaras, cordinhas, flor de tecido, turbantes, tranças… usei e uso tudo isso!

O que eu tenho a dizer é para você resistir, por que quando você tirar o seu mega-hair vai ficar sem dúvidas, muito mais linda do que você já é. E não se importe com a textura que seu cabelo vai ter, se ele terá cachos ou não, por que ele é lindo como ele é sendo mais natural possível. Com o tempo você vai aprender a amar e a cuidar dele, o que é ótimo, por que é um processo de descoberta muito gostoso e enriquecedor. Hoje eu amo o meu cabelo e não tenho medo de perder, de cortar ou de raspar ele por que sei que cada centímetro que ele cresce é um aprendizado diferente e que ele não está só fixado na minha cabeça, sua raiz está junto a todos os que me antecederam, lutaram e resistiram para que eu pudesse usar meu black hoje!

Imagem destacada: pinterest; Ayodele by MsMe20

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Eu vim rompendo barreiras desde pequenina. Meu avô, não gostava de preto até me pegar no colo, ouvi dizer. Meus avós foram os melhores do mundo e eu fui coberta de mimos de neta mais nova até eles irem morar no céu. De alguns irmãos do vovô, quero distância. Sempre me trataram como menos.