Entrevista com Lourdes Teodoro

 Lourdes Teodoro em Firenze, foto de Áurea Teodoro.
Lourdes Teodoro em Firenze, foto de Áurea Teodoro.

Você tem poesias, como por exemplo algumas publicadas em “Paysage em Attente”, as quais são escritas em duas ou mais línguas. Noto que você faz essa troca de um idioma para o outro de forma bem natural. Você se recorda de como começou essa brincadeira plurilíngue e de que maneira ela flui através de seus versos? Cite algumas de suas poesias que trazem essa característica.

Na dedicatória que faço de Paysage em Attente à Aimé Césaire eu digo que “este livro é escrito durante meu tempo de exílio em Língua Francesa”. Quero dizer que essa brincadeira do plurilinguismo é muito séria.  Vejam esses pequenos trechos:

pensarei então em Césaire quando [dizíamos:

“eu sou uma de vós, ilhas!”

escute-me bem, em Criolo:
“quando Deus fez o homem
ela estava apenas brincando!…”
e talvez alguém acordo no Brasil
e talvez retomemos qualquer rumo        [mais terreno
E reencontremos a moringa [onde guardaram
a seiva de seu sangue de patriarca
e talvez morramos de uma morte [nova!

……………………………………”

Négritude e diáspora, Paysage em attente, p. 72

prêtez-moi l’oreille em Créole:
“When God made man
She was Just joking!…”
e talvez alguém acorde no Brasil
e talvez retomemos qualquer rumo mais terreno
e reecontremos a moringa onde guardaram
a seiva de seu sangue de patriarca
e talvez morramos de uma morte nova!
………………………………………………………………………………….”

Négritude et diáspora, Paysage em attente, p.72

Que o balafon confunda
todos os nossos passos
e me pinto o rosto
e observo meus cabelos
eu ouço o bel-air
e me agrada dançar.
sou a plateia
do meu próprio carnaval
dance a dança
fale a dança
entregue-se à dança
conte a dança, tome posse da dança
…………………………………………………”

À sombra da figueira mítica, Paysage en attente, p. 63.

Que le balafon confonde
tous nos pas
y me pinto la cara
y me miro los pelos
j’entends le bel-air
y me gusta bailar.
sou a plateia
do meu próprio carnaval
do it say it enjoy it
tell it take it
……………………………………………….”
À l’ombre Du figuier fétiche, Paysage em attente, pag. 63

O exílio é uma experiência grave, mesmo quando ele é voluntário, como foi o meu em 1978: uma saída aterrorizada, embora organizada com rigor: trabalhando cerca de catorze horas por dia para economizar de modo a deixar o país com meus dois filhos. Às vezes há impressões, há emoções que ganham vigor expressas naquele idioma em que veio à tona e não em outro. Ganham vigor porque essa língua que socorreu a emoção é a voz do inconsciente; essa atividade lúdica com as palavras é fruto de uma livre associação onde a razão não tem espaço.

Quando no poema peço que me ouçam em Créole e digo em inglês: “Quando Deus fez o homem / Ela estava apenas brincando”, estou remetendo a várias questões muito delicadas no meio da militância caribenha, africana ou mesmo latino-americana e brasileira.

Lourdes Teodoro e Luciene Rêgo (entrevistadora) em 2013 no III Encontro Internacional de Literatura, História e Culturas afro-brasileiras e africanas: Narrativas e Identidades Culturais, realizado em novembro de 2013 na cidade de Teresina- Piauí, foto de Ella Bispo. (Ocasião em que eu conheci a autora).
Lourdes Teodoro e Luciene Rêgo (entrevistadora) em 2013 no III Encontro Internacional de Literatura, História e Culturas afro-brasileiras e africanas: Narrativas e Identidades Culturais, realizado em novembro de 2013 na cidade de Teresina- Piauí, foto de Ella Bispo. (Ocasião em que eu conheci a autora).

Nas suas poesias pude observar que os temas são variados e que sua experiência estética é bem ampla. Percebe-se que a poesia produzida por mulheres e homens negros traz bem forte a temática das relações étnico-raciais, opressões de gênero e sexismo, assim como a violência. Em seu Texto “Negritude e Tigritude”, publicado na revista Humanidades em 1988, você menciona que críticos sérios, tais como David Brookshaw “parecem não aceitar como expressão da negritude a linguagem poética sem marcas raciais”. Você poderia explicitar melhor essa passagem? Você poderia nos citar alguns autores que rompem com essa marca racial e vão além do “tornar-se negro”?

Lembro-me de Leon-Gontran Damas que dizia: “quero ser negro como respiro”, isto é, minha cor, meu fenótipo não devem estar “sobre mim” como algo que carrego, como representantes de uma entidade submersa que seria o meu eu, minha personalidade… E tal postura também não me impede de ser uma escritora, um poeta consciente de uma realidade social injusta e que se compromete na luta contra racismos, exclusões, discriminações,“normatizações”, preconceitos. Essa questão lembra também Césaire quando diz, em algum de seus poemas, que tudo o que foi conquistado até aqui pela humanidade faz parte do legado de todos nós: por que nos excluirmos?

Creio que no Brasil, para muitos de nós há um momento de “tornar-se negro”, reconhecer-se como parte de um grupo étnico cuja imagem é negativamente distorcida. Mas essa realidade pode ser muito variada para cada individuo, ou mesmo para cada região, pois ela depende muito do meio familiar, escolar, social. Eu nasci em uma família que era a única família negra de nossa rua. Eu tinha a missão de ir buscar o leite pela manhã e uns meninos brancos, vizinhos se divertiam ao fazer chacota de minha cor e do meu cabelo. Brigávamos praticamente todo dia.

Nessa época eu ouvia irmãs mais velhas lerem poemas de Castro Alves, de Leo Lince, que falavam de injustiças sociais, etc. Tomei consciência de ser mulher negra e de diferenças de classe, bastante cedo: na vida e pela literatura. No grupo escolar eu ajudava a professora a alfabetizar crianças cujos pais eram analfabetos: eram as crianças negras, em maioria.
Os poetas piauienses Cinen de Souza, Elio Ferreira (em seus primeiros livros), Solano Trindade são exemplos que me ocorrem de negros poetas livres e, ao mesmo tempo, conscientes de sua pertença racial.

Quanto à representação do sujeito negro na mídia brasileira, você já discutia sobre essa problemática em 1998, no “Seminário Meios de Comunicação e Diversidade Racial”. Você acredita que essa representação mudou muito dessa época para os dias atuais? O que, em sua opinião, ainda poderia ser trabalhado para melhorar essa representação?

Esse Seminário foi uma grande experiência para nós. Ele reuniu, em um auditório da Câmara dos Deputados, Zezé Motta que presidia o CIDAN – Centro de documentação e informação do artista negro, Hélio Santos que conduzia o programa Axé, se liga Brasil, na Rede Bandeirantes, Fernando Conceição, Professor da UFBA, crítico contumaz da publicidade brasileira, Carlos Alberto Medeiros, também diretor do CIDAN, Jaime Sautshuk, da Comunicação Social do Governo do Distrito federal, Sávio Zambrotti de uma agencia de publicidade e eu que era então Professora da Universidade de Brasília – UnB, Instituto de artes. Você deve ter observado que um dos exemplos de órgão de divulgação que citei naquele Seminário foi o da revista Crescer, em seu número de maio de 1998 no qual de 203 crianças, 197 eram brancas.

Felizmente, houve mudanças positivas de lá para cá. Ocorre de vermos mais bebês e mais crianças e mesmo adolescentes negros em publicidades, em propagandas. Há mais jornalistas negros nos vários canais de televisão; há mais programas de televisão com atores negros. Muito ainda pode ser feito para melhorar a qualidade de nossa representação.

 TEODORO, M. L. Identidade Cultural e Diversidade Étnica: Négritude africano-antilhana e modernismo brasileiro. São Paulo: Scortecci, 2015.
TEODORO, M. L. Identidade Cultural e Diversidade Étnica: Négritude africano-antilhana e modernismo brasileiro. São Paulo: Scortecci, 2015.

O aumento da visibilidade inteligente do negro na mídia certamente terá influência positiva no rendimento escolar, na produção acadêmica, nas escolhas de carreira profissional, na apropriação das formas diversas de lazer, na vida social e cultural dos afro-brasileiros, de qualquer faixa etária. O aumento da autoestima do grupo étnico negro (mulato, moreno, mestiço) será uma dessas consequências desejáveis da melhora de sua representação na mídia.
É curioso observar que, frequentemente, nas publicidades quando há um grupo de homens brancos, admite-se UM homem negro; em um grupo de mulheres, jovens ou crianças negras, admite-se uma criança, jovem ou mulher negra. Mas… RARAMENTE você verá um casal de crianças, de jovens ou de adultos negros em uma publicidade na qual haja grupo de pessoas brancas. Por que seria? Será que é um receio inconsciente de nossa possibilidade de reprodução da nossa própria espécie?

Suas leitoras e leitores, inclusive eu, aguardam ansiosas por uma reedição do livro “Fricote Swing”. Esse ensaio foi escrito em fevereiro de 1986 e é uma contribuição sua à comemoração do 1º Centenário da Abolição da Escravatura, a qual iria ocorrer dois anos depois da publicação. Eu li esse livro de uma vez em menos de duas horas, pausando às vezes para refletir. Essa música“Fricote Swing”, tema do livro, foi uma canção que me incomodou muito na infância, pois na escola e na vizinhança, os meninos cantavam essa música para me chacotear, porque ela fala que o cabelo crespo é ruim e fala mal da mulher negra. Creio que nossas leitoras gostariam de saber da história desse ensaio, o porquê do título e como foi escrevê-lo.

São incontáveis as mulheres, as adolescentes e as crianças que, como você, sofreram as consequências perversas dessa música “fricote”. Foi muito triste ou, melhor, foi lamentável ver a Preta Gil cantá-la junto com a Regina Casé, no programa Esquenta, como se quisessem dizer: “pra que fizeram tanto barulho, a música não tem nada de mais…”.

Vi um grupo carnavalesco tocar essa música e o povo todo dançando. Súbito começou uma confusão junto ao trio elétrico, carnaval em Brasília, 1986, e precisei parar para observar. Alguns militantes protestavam contra a música. Quando parei, me afastei, estava ao meu lado um pequeno grupo de músicos, que tocava só músicas antigas e …súbito, tocaram Fricote, a única música atual… E entre os quatro músicos havia dois negros… Aí eu fui pra casa para pensar… qual é nossa parte naquilo de que nos queixamos, lembrando Freud. Sob o impacto do acontecimento, eu comecei a ouvir algum blues, algum jazz, por necessidade de companhia na dor, e daí veio a organização da emoção apoiada nesses ritmos. Henrique Cunha, Cuti e Otávio Ianni me escreveram na época comentando o livro e seu viés estético. E eu espero sim, reeditá-lo. É muito bom quando se pode fazer de uma dor uma experiência estética que alimenta a luta contra a causa da dor…

Você também foi membro da comissão julgadora do prêmio “Mulheres Negras contam sua História” em 2013, que foi publicado pela Secretaria de Política para as Mulheres da Presidência da República de forma impressa e está disponível na internet. Conte-nos como foi a experiência de ler os textos dessas mulheres? Foi muito difícil escolher os melhores? De que forma a história dessas mulheres te tocaram?

Do ponto de vista humano, foi uma bela vivência. Eu senti o quanto nossas histórias se assemelham: pobreza; determinação; insistência; persistência; muita garra e muita luta na busca de realização pessoal; de estudo; de condução de uma família; de afirmação profissional. Mas havia umas poucas experiências também muito felizes e suaves: com um lar carinhoso, acolhedor, que ensinou à criança negra os detalhes de sua própria beleza e a fortaleceram para lidar com as barreiras imaginárias erguidas pelo branco. Essas barreiras se fragilizam, perdem muito do seu poder quando a criança recebeu em casa o amor que fortalece a autoestima. Quando as barreiras são mais que imaginárias, são reais, são violentas e racistas, a pessoa com boa autoestima, sabe também lidar melhor e geralmente consegue defender seus direitos. Aqui e ali o material deixava perceber essas nuances. Foi um enriquecimento percorrer aquelas redações e os ensaios. Em uma das redações premiadas, a filha de Solano Trindade conta que o seu pai recomendava a leitura de Monteiro Lobato, mas advertia: “ele não gosta dos negros não…”.

Em sua trajetória há marcos de grande importância para o movimento negro e feminista, como a militância pela anistia, na década de 1970; a recepção a Nelson Mandela, quando este esteve pela primeira vez no Brasil; assim como sua luta contra o racismo. Quando esteve estudando na França, você residiu na Residência Universitária, local em que a maioria dos estudantes era de origem árabe e do sexo masculino. Relate-nos essa experiência e conte-nos como obteve o respeito e a consideração dessas pessoas de mentalidade tão diferente da nossa?

A vinda de Nelson Mandela a Brasília me deu a oportunidade de conceber e de entregar a ele, pessoalmente, uma placa em sua homenagem em nome de várias instituições brasilienses, a exemplo do ANDES-SN, Jornal Correio Braziliense, Movimento Negro Unificado, etc. Só dois fotógrafos, da própria UnB, foram autorizados a presenciar essa entrega, feita em uma pequena sala, diferente do auditório, onde capoeiristas e dançarinas iriam bailar para os ilustres visitantes! Não há uma única foto do momento da entrega da Placa, no Centro de Documentação da UnB: nossa invisibilidade foi assegurada pelo então reitor Antonio Ibañez Ruiz.Na ocasião, fui convidada e participei de um jantar no Itamaraty, oferecido a Nelson e Winnie Mandela e sua comitiva.

Na Residência Universitária Jean Zay, em Paris, a maioria dos estudantes era árabe e muçulmana. No prédio destinado a casais com filhos, éramos somente duas mulheres ali, com filhos, porém, sozinhas. Essa era a pior das situações para nós, naquele contexto. Tornei-me uma liderança no Grupo de Estudos literários e observei que havia passado mais de um ano me vestindo de modo masculinizado (uma longa camisa e calça comprida escura, folgada). Olhando pra mim mesma, anos depois, pude constatar que, vestida assim e sem maquiagem, ficava mais fácil o diálogo com os meus colegas. Nós mulheres éramos minoria e não era muito raro ocorrer violência contra as mulheres na residência. Bom, no final, organizei muitos recitais de poesia, trazendo estudantes de vários outros grupos de estudo e criei a “Pré-defesa de tese”,iniciativa que mobilizou praticamente todo mundo: de engenharia de teledetecção, sociologia, literatura, todos queriam essa oportunidade de testar seus conhecimentos e seus nervos antes da verdadeira defesa de tese.

Além dos seus trabalhos na área da literatura comparada e das artes e do ativismo político, você também é psicanalista com formação na escola lacaniana e freudiana e também pós doutorado na área. Conte-nos sobre sua atuação como psicanalista, seus maiores desafios e vitórias. Como a mulher negra pode encontrar amparo para seus problemas específicos por meio da psicanálise, principalmente no Brasil?

Consta que talvez a primeira pessoa a falar de psicanálise no Brasil, nos anos 20, foi o psiquiatra negro, importante cientista baiano, Juliano Moreira (1878-1932). Provavelmente a primeira mulher a estudar relações raciais e relações inter-étnicas no Brasil foi a socióloga afro-brasileira Virgínia Leone Bicudo (SP 1915-2003), formada pela USP, tornou-se psicanalista e foi quem trouxe a psicanálise para Brasília, nos anos 70. Isso não é um legado?
Meu desejo de me tornar psicanalista derivou de minha satisfação com os efeitos da análise pessoal: eu queria poder ajudar outras pessoas, assim como fui ajudada. De início em uma instituição lacaniana, após uma convivência rica, eu fui para outra instituição filiada à IPA-Associação Psicanalítica Internacional, da qual hoje sou membro. Não tenho dúvidas de que a mulher negra pode se beneficiar da experiência de análise pessoal. Contudo, vejo que é muito fácil, passar anos e, em alguns casos, até décadas em divãs de analistas sem chegar a perceber que se é negra!

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